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quinta-feira, 21 de maio de 2009

As catedrais de Notre-Dame e São Pedro comparadas por uma grã-duquesa russa

Notre-Dame, nave central
No século XVIII, a grã-duquesa da Rússia Maria Feodorovna fez sua viagem de bodas na Europa Ocidental com seu esposo, o futuro imperador Paulo I da Rússia. O casal viajava de “incógnito” ‒ quer dizer, não oficialmente ‒ e usava os nomes de Conde e Condessa du Nord. A baronesa de Oberkirch, nobre francesa que escreveu Memórias famosas, ia junto como dama de companhia.

A grã-duquesa russa ‒ que era cismática ‒ comparou a Basílica de São Pedro e a catedral de Notre-Dame. A baronesa de Oberkirch recolheu o comentário:


Em São Pedro de Roma, dizia a grã-duquesa, é-se esmagado pela beleza, pela elevação e pela majestade da nave da igreja. Parece que não se ousa rezar ao Ser Todo Poderoso ao qual os homens levantaram um templo de tão alta categoria. Deus aparece aí alto demais e longínquo demais. Em Notre-Dame, pelo contrário, o mistério, essa obscuridade dos vitrais, essa arquitetura dos séculos em que a religião tinha todo o seu poder, imprime o recolhimento e o amor. Tem-se a esperança de ser ouvido por Deus e a certeza de ser atendido. Ama-se, espera-se. Eis, pelo menos, o que eu senti nas duas igrejas.
São Pedro interiorRealmente são duas igrejas completamente diferentes. Quando vi pela primeira vez a igreja de São Pedro tive certa surpresa, julgando-a muito menor do que eu imaginava. Mas é porque eu estou com meus padrões deteriorados pelos apartamentos de São Paulo.

Mas houve uma preocupação de disfarçar a altura dela. Porque naquele tempo, em que o materialismo não havia feito o progresso que fez em nossos dias, era bonito realçar a proporção e esconder o tamanho.

Porque o tamanho é matéria e a proporção é espírito. O espírito deve dominar a matéria.

Mas a igreja de São Pedro é toda influenciada pela Renascença. E, portanto, do ponto de vista artístico, é uma reapresentação no século XVI de elementos de beleza clássica que não tem, absolutamente, o espírito católico da Idade Média.

A basílica de São Pedro é composta.

Sua pompa está à altura do que os homens podem dispor para venerar a Sé de Pedro e ser, nesse sentido, a primeira igreja da Cristandade. Mas o homem não tem aí a sensação de proximidade de Deus que tem na catedral de Notre-Dame de Paris.

A impressão da Condessa du Nord poderia ser traduzida assim:

Na igreja de São Pedro há uma tentativa de o homem elevar-se num esforço de piedade, até Deus.

Notre Dame, capela Santissimo SacramentoNa igreja de Notre-Dame eu vejo Deus que desce até os homens. Por causa disso, a proximidade de Deus é muito maior na catedral Notre-Dame do que na igreja de São Pedro.

Deus está mais próximo do homem em Notre-Dame. Então, Notre-Dame tem mais grandeza do que uma igreja maior que ele fez como uma escada para tentar chegar até Ele.

Mas acontece que a Comtesse du Nord era herdeira de um trono e tinha obrigação de não criar problema com os católicos, nem com a Santa Sé, em sua viagem e seus comentários.

Então, ela não faz uma crítica à igreja de São Pedro, a não ser indireta. Vemos aqui o estilo diplomático do tempo.

Ela faz isso com enorme delicadeza e prudência.

São PedroComeça dizendo um elogio: que São Pedro tem tanta beleza que esmaga. Mas, acaba dizendo, jeitosamente, que a nave é esmagadora.

A idéia da escalada do homem até Deus está jeitosamente insinuada. O homem fez um edifício tão grande, tão magnífico, que dá medo de Deus. É uma tendência a subir até Deus, mas que amedronta.

Mas depois ela faz o elogio de Notre-Dame:
Em Notre-Dame, pelo contrário, esse mistério, essa obscuridade dos vitrais, essa arquitetura dos séculos, quando a religião tinha tanto poder imprime o recolhimento e o amor.
É a igreja perfeita. Mas ela diz “pelo contrário”. Notre-Dame, ao contrário de São Pedro, imprime recolhimento e amor.

Então, ela passou a descalçadeira na igreja de São Pedro e fez um grande elogio na catedral de Notre-Dame. Tomou partido em termos tão leves, tão delicados, tão femininos e tão diplomáticos que não se comprometeu com nada.

Savoir dire. Encantos da tradição católica quando ela se exprimia em Língua francesa.

(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, 18/5/76. Sem revisão do autor.)

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