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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

As catedrais, verdadeira glória da Idade Média cristã

Poitiers, França
Nas catequeses das semanas passadas apresentei alguns aspectos da teologia medieval. Mas a fé cristã, profundamente arraigada nos homens e nas mulheres destes séculos, não deu origem somente a obras-primas da literatura teológica, do pensamento e da fé.

Ela inspirou também uma das criações artísticas mais elevadas da civilização universal: as catedrais, verdadeira glória da Idade Média cristã.

Com efeito, durante cerca de três séculos, a partir do início do século XI, assistiu-se na Europa a um ardor artístico extraordinário. Um antigo cronista descreve assim o entusiasmo e a laboriosidade daquela época:

“Verificou-se que no mundo inteiro, mas especialmente na Itália e nas Gálias, se começou a reconstruir as igrejas, embora muitas, por estar ainda em boas condições, não tivessem necessidade de tal restauro.

“Era como uma competição entre um povo e outro; acreditava-se que o mundo, libertando-se dos velhos trapos, queria revestir-se em toda a parte com a veste branca de novas igrejas.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Aos pés da catedral-mãe, a alegria das feiras de Natal

Nuremberg
Longe da banalidade comercial de hoje, o sorriso sobrenatural do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo enchia de alegria suave e de aconchego as praças de cidades e aldeias, de palácios e choupanas da Idade Média.

A tradição, embora deformada, pervive até hoje.

Trata-se das feiras de Natal que ainda dominam em cidades alemãs, austríacas, alsacianas, etc., na Europa.

Elas constituem um eco saudoso, requintado em épocas posteriores, do Natal medieval.

Cheiro de ervas, amêndoas torradas, vinho, cravo, canela, incenso e resina de pinheiro.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A catedral

Sainte Chapelle, Paris
No corre-corre de nossos dias tresloucados, façamos uma pausa. 

Esqueçamos por alguns minutos o trabalho, as preocupações que nos assaltam, e façamos uma visita a uma catedral medieval.

A belíssima página que a seguir transcrevemos –– de Émile Male, um historiador francês de grande envergadura, especializado em história da arte — apresenta-se como um bálsamo para as feridas que em nossas almas abriu esta época na qual vivemos.

Ele nos fala da catedral medieval, especialmente a do século XIII, na França.

Temos a impressão de estar lendo um poema que faz voar nosso espírito para longe das maldições deste século: os horrores da luta de classes, o desvario a que se chegou a propósito dos chamados direitos humanos, as invejas, os escândalos que se atropelam uns aos outros, as perversões morais, o terrorismo, a contínua insegurança e tudo o mais. Enfim, damos a palavra ao célebre autor(*). Dispensamos as aspas, pois só os intertítulos são nossos.

Catedral de BayeuxNa catedral inteira sente-se a certeza e a fé; em nenhum lugar a dúvida. Esta impressão de serenidade, a catedral ainda hoje no-la transmite, por pouco que queiramos prestar atenção.

Esqueçamos por um momento nossas inquietações, nossos sistemas. Vamos a ela.

De longe, com seus transeptos, suas flechas e suas torres, ela nos parece uma nau possante, partindo para uma longa viagem. Toda a cidade pode embarcar sem temor em seus robustos flancos.

Aproximemo-nos. No pórtico, encontramos logo Jesus Cristo, como o encontra todo homem que vem a este mundo.

Ele é a chave do enigma da vida. Em torno d’Ele está escrita uma resposta a todas as nossas questões.

Ficamos sabendo como o mundo começou e como terminará; as estátuas, das quais cada uma é símbolo de uma idade do mundo, nos dão a medida de sua duração.

Notre Dame de ParisTodos os homens cuja história nos importa conhecer, nós os temos diante dos olhos — são aqueles que na Antiga ou na Nova Lei foram símbolos de Jesus Cristo — pois os homens só existem na medida em que participam da natureza do Salvador.

Os outros — reis, conquistadores, filósofos — são apenas sombras vãs. Assim o mundo e a história do mundo se nos tornam claros.

Mas nossa própria história vem escrita ao lado da história desse vasto universo.

Nós aí aprendemos que nossa vida deve ser um combate: luta contra a natureza a cada estação do ano, luta contra nós mesmos a todos os instantes, eterna psicomaquia.

Àqueles que bem combateram, os anjos, do alto do Céu, estendem coroas.

Há lugar aqui para uma dúvida, ou para uma mera inquietação de espírito?

Nave principal da catedral de AmiensPenetremos na catedral. A sublimidade das grandes linhas verticais atua logo de início sobre a alma.

É impossível entrar na grande nave de Amiens sem se sentir purificado. Unicamente por sua beleza, ela age como um sacramento.

Ali também encontramos um espelho do mundo. Assim como a planície, como a floresta, ela tem sua atmosfera, seu perfume, sua luz, seu claro-obscuro, suas sombras. [...]

Mas é um mundo transfigurado, no qual a luz é mais brilhante que a da realidade, e no qual as sombras são mais misteriosas. Sentimo-nos no seio da Jerusalém celeste, da cidade futura.

Saboreamos a paz profunda; o ruído da vida quebra-se nos muros do santuário e torna-se um rumor longínquo: eis aí a arca indestrutível, contra a qual as tempestades não prevalecerão.

Nenhum lugar no mundo pôde comunicar aos homens um sentimento de segurança mais profundo.

Catedral de Bristol
Isto que nós sentimos ainda hoje, quão mais vivamente o sentiram os homens da Idade Média!

A catedral foi para eles a revelação total. Palavra, música, drama vivo dos Mistérios, drama imóvel das imagens, todas as artes ali se harmonizavam.

Era algo além da arte, era a pura luz, antes que ela se tivesse diversificado em fachos múltiplos pelo prisma.

O homem confinado numa classe social, numa profissão, disperso, esmagado pelo trabalho de todos os dias e pela vida, nela retomava o sentimento de unidade da sua natureza; ele ali encontrava o equilíbrio e a harmonia.

A multidão, reunida para as grandes festas, sentia que ela era a própria unidade viva; ela tornava-se o corpo místico de Cristo, cuja alma se confundia com sua alma.

Os fiéis eram a humanidade, a catedral era o mundo, o espírito de Deus pairava ao mesmo tempo sobre o homem e a criação.

Nave da catedral de AlbiA palavra de São Paulo tornava-se uma realidade: vivia-se e movia-se em Deus.

Eis o que sentia confusamente o homem da Idade Média, no belo dia de Natal ou de Páscoa, quando os ombros se tocavam, quando a cidade inteira lotava a imensa igreja.



Harmonia entre as classes sociais

Símbolo de fé, a catedral foi também um símbolo de amor. Todos para ela trabalharam.

O povo ofereceu o que tinha: seus braços robustos. Ele se atrelava aos carros, carregava as pedras nas costas, tinha a boa vontade do gigante São Cristóvão.

O burguês deu seu dinheiro, o barão sua terra, o artista seu gênio. Durante mais de dois séculos, todas as forças vivas da França colaboraram: daí vem a vida possante que se irradia dessas obras.

Até os mortos associavam-se aos vivos: a catedral era pavimentada de pedras tumulares; as gerações antigas, com as mãos juntas sobre suas lápides mortuárias, continuavam a rezar na velha igreja. Nela, o passado e o presente uniam-se num mesmo sentimento de amor. Ela era a consciência da cidade. [...]

No século XIII, ricos e pobres têm as mesmas alegrias artísticas. Não há de um lado o povo e de outro uma classe de pretensos eruditos.

A igreja é a casa de todos, a arte traduz o pensamento de todos. [...] A arte do século XIII exprime plenamente uma civilização, uma idade da História.

A catedral pode substituir todos os livros.

E não é somente o gênio da Cristandade, é o gênio da França que desabrocha aqui.

Sem dúvida, as idéias que tomaram corpo nas catedrais não nos pertencem com exclusividade: elas são o patrimônio comum da Europa católica.

Mas a França aqui se reconhece em sua paixão pelo universal. [...]

Quando compreenderemos que, no domínio da arte, a França jamais fez algo de maior?



_____________

* Émile Mâle, L´Art religieux du XIIIe siècle en France, Le Livre de Poche, Paris, 1969, pp. 448 ss (primeira edição: 1898). Obra premiada pela Académie Française e pela Académie des Inscriptions et Belles-Lettres.

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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A Tour Saint-Jacques, de PARIS

A Torre de São Tiago (Tour Saint-Jacques) é, há séculos, ponto de chegada e partida dos romeiros para Santiago de Compostela.

Compostela fica a 1551 quilômetros de Paris, e a peregrinação a pé, hoje, consome mais de dois meses.

A Torre é tudo o que fica da venerada igreja de Saint-Jacques-de-la-Boucherie.

A Chronique de Turpin (século XI) diz que o templo foi fundado por Carlos Magno.

A Torre de 52 metros era o sinal para aos peregrinos.

Veja vídeo
A torre dos romeiros de Paris:
Tour Saint-Jacques
Eles vinham do norte da Europa e seguiam para o sul pelo “caminho francês”.

O “caminho francês” passa por santuários do centro da França, antes de atravessar os Pirineus e entrar na Espanha.

A Torre foi construída em gótico flamboyant nos anos 1509-1523 sob o reinado do rei Francisco I.

Até hoje peregrinos percorrem a pé o “caminho de Compostela” e recebem atestado oficial de romeiros que favorece a expedição.

Na igreja venerava-se uma relíquia do Santo Apóstolo.

Mas, o ódio anti-cristão da Revolução Francesa demoliu a igreja em 1797.

Estátua do Apóstolo no topo da torre
A amada igreja foi posta abaixo e os restos foram vendidos como material de demolição.

A Torre acabou não sendo destruída, mas, ficou abandonada.

Dentro dela foi instalada uma fundição de chumbo, símbolo do ateísmo laicista que demoliu o templo.

A estátua do Apóstolo foi abatida pelos revolucionários de 1789; os mesmos revolucionários demoliam tronos e altares, destronavam reis e decapitavam imagens de santos.

O crime foi perpetrado em nome dos valores revolucionários da celerada trilogia “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”.

O século XIX tentou recuperar os monumentos góticos selvagemmente abandonados ou amputados pelo “espírito das Luzes” laicista e igualitário!


A estátua de Santiago o Maior que coroa a torre é uma reprodução fidedigna feita nessa restauração.

A Tour Saint-Jacques é o mais alto e o mais requintado monumento no famoso caminho de peregrinação.

Pela Tour Saint-Jacques passaram milhões de peregrinos como atestam o “Codex Calixtinus” do século XII até uma placa moderna afixada pelo governo da Espanha.

As ondas revolucionárias não conseguiram abatê-la.

Ela paira majestosa mostrando às multidões paganizadas a verdadeira beleza e toda a grandeza e requinte da piedade católica não deformada.


Video: A torre dos romeiros de Paris: Tour Saint-Jacques

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A catedral e “a arquitetura da felicidade” (2)

Continuação do post anterior



“O ruído contínuo de fora dava lugar ao silêncio e à emoção inspirada pelo sublime.

As crianças permaneciam coladas aos pais e olhavam em volta com ar de encantada reverência.

“Os visitantes instintivamente falavam baixo como se estivessem coletivamente imersos num sonho do qual não gostariam de sair.

O anonimato reinante na rua era aqui assumido por uma peculiar espécie de intimidade.



“Tudo o que é sério na natureza humana parecia chamado à superfície: pensamentos sobre a limitação e o infinitamente grande, sobre contingência e sublimidade.


“Uma escultura em pedra punha em relevo tudo o que desaparecia e destinado à insensibilidade e reacendia na alma o desejo de viver de acordo com essas perfeições.

“Após alguns minutos na catedral, toda uma série de idéias que, lá fora seriam inconcebíveis, assumia ares de razoabilidade.

“Sob a influência dos mármores, dos mosaicos, da obscuridade e do incenso, parecia inteiramente provável que Jesus fosse o Filho de Deus e que tivesse andado sobre o mar da Galiléia.

“Em presença de imagens de alabastro da Virgem Maria postas diante de um encadeamento rítmico de mármores vermelhos, verdes e azuis, já não era mais surpreendente que um anjo pudesse a qualquer instante descer através das camadas densas dos cúmulos londrinos, entrar por uma das janelas da nave, soar um trompete dourado e anunciar, em latim, um próximo acontecimento celeste.

“Conceitos que pareceriam próprios a um demente a 40 m de distância daquele local, em companhia de um grupo de adolescentes finlandeses e cubas espumantes de óleo de fritura – esses conceitos agora adquiriam, em virtude de um trabalho de arquitetura – um sentido supremo e majestoso”.

(Fonte: Alain de Botton, “The Architecture of Happiness”, Pantheon Books, New York, 2006, 280 p., p. 108 ss.)

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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A catedral e “a arquitetura da felicidade” (1)

O escritor contemporâneo Alain de Botton deixou no seu livro premiado “The Architecture of Happiness” (“A arquitetura da felicidade”) uma admirável descrição do bem que faz às almas a nobreza de uma grande catedral.

O fato que lhe aconteceu deu-se em Londres, na catedral católica de Westminster.

O testemunho é particularmente expressivo pelo fato do autor ser um ateu militante:


“Há alguns anos, apanhado por forte chuva, tendo que matar o tempo destinado a um almoço com um amigo que não aparecera, estando na Victoria Street, refugiei-me num bloco de granito, com vidros esfumaçados, onde se acha a sucursal do McDonald’s, no bairro de Westminster.

“O ambiente no interior do restaurante era tristonho e pesado. Os fregueses comiam sós, lendo jornais ou fitando os azulejos azuis, mastigando inexoravelmente, sem elegância, dando a impressão de que ao lado desse modo de comer a atmosfera de um estábulo pareceria tratável e de boas maneiras.

“O ambiente tornava aos poucos absurdas idéias tais como: as pessoas podem ser às vezes generosas sem esperança de retribuição; as relações pessoais podem, talvez, ser sinceras; talvez a vida valha a pena de ser vivida...

“O verdadeiro talento do McDonald’s consiste em gerar ansiedade. A forte iluminação, o ruído intermitente do despejar de batatas congeladas em óleo fervente e o trabalho frenético dos balconistas eram um convite a pensamentos de solidão e de falta de sentido da existência posta num universo caótico e violento. A única solução era continuar comendo na esperança de compensar o desconforto causado pelo local no qual se estava.

“Entretanto minha refeição foi perturbada pela entrada de mais ou menos trinta jovens finlandeses, de uma altura não plausível.

“O choque causado neles pelo fato de estarem tão ao Sul, trocando as neves glaciais por uma simples chuva os deixava eufóricos. Exprimiam essa euforia retirando do invólucro quantidades de canudinhos, cantando em voz alta, montando nas costas uns dos outros, para confusão dos empregados, hesitantes entre proibir esse comportamento ou respeitá-lo, caso fosse promissor de apetite voraz.

“Incitado pelos finlandeses a dar à minha refeição um fim precipitado, deixei minha mesa dirigindo-me à praça adjacente onde notei, pela primeira vez, as linhas bizantinas, incongruentes, mas imponentes, da Catedral de Westminster com seu campanário de tijolos vermelhos e brancos, elevando-se a 87 m adentro do espesso nevoeiro de Londres.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A abadia de Beauport: ruínas que evocam as Lamentações do profeta Jeremias


A abadia de Beauport está situada em Kérity, Paimpol, na antiga Bretanha, França.

Ela foi fundada em 1202 pelo conde de Penthièvre e de Goëlo, Alain I d’Avaugour. O conde chamou aos cônegos regulares premonstratenses da abadia da Santíssima Trindade da Lucerna, na vizinha Normandia.

Os premonstratenses foram fundados por volta de 1120 pelo arcebispo de Magdeburgo, São Norbert de Xanten.

Um século depois a ordem contava mais de 600 casas instaladas desde a Irlanda até Chipre e desde a Suécia até Itália.

Para erigir uma abadia era preciso dinheiro e terreno. O conde de Penthièvre doou aos Premonstratenses um terreno sobre uma pedra junto ao córrego Correc e uma zona de pântano conhecida como “pradaria dos marrecos”.

Mas os monges logo perceberam que o local se prestava para um “belo porto” (o “beau port” que originou seu nome).

Em 1203, o Papa concedeu-lhes numerosos privilégios e os religiosos iniciaram a construção do mosteiro. Eles garantiam o atendimento das paróquias vizinhas.

Os Papas acompanhavam zelosamente o trabalho dos monges.

Prova disso é que em 1207, o Santo Padre escreveu ao abade de Beauport exortando-o a preservar a língua local, o bretão e só nomear para as paróquias padres que falassem essa língua.

A abadia foi muito próspera nos séculos XIII e XIV, e ainda no XVII e no XVIII.

A crise desencadeada pelo libertinismo laicista que deu na Revolução Francesa foi esvaziando-a de vocações.

Por fim, o laicismo tirou sua máscara liberal e voltou-se furiosamente contra a Igreja Católica e suas maiores manifestações, muitas e muitas vezes geradas na Idade Média.

Assim, a revolução de 1789 fechou a abadia em 1790. Desde então, o prestigioso prédio foi sendo depredado para tirar material de construção.

As ruínas falam da grandeza passada. Sobre elas pode bem se rezar a Oração e as Lamentações que o profeta Jeremias fez a propósito das ruínas de Jerusalém (trilha sonora do vídeo embaixo).

Nesta perspectiva, a destruição não consegue apagar a esperança inabalável que um dia essas ruínas reviverão como Jerusalém após o longo cativeiro de Babilônia, porque a alma delas é imortal: é a própria Santa Igreja Católica Apostólica e Romana.

(Fonte: Wikipédia)

Video: Abadia de Beauport e Lamentações do profeta Jeremias
Se seu email não visualiza corretamente o vídeo embaixo CLIQUE AQUI

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Majestade, força e seriedade: a catedral de BREMEN

A catedral de Bremen tem qualquer coisa de majestoso, de forte e de sério, que lembra um dos aspectos da Igreja Católica: Sua divina severidade.

Cada igreja, quando é bem construída, espelha um aspecto da “alma” da Religião Católica.

E na catedral de Bremen está expressa a solidez e a severidade da Igreja Católica.

Duas lindas torres, muito altas com o mesmo jogo do verde que se repete em cima.

Como efeito ótico, a Catedral tem duas simetrias; uma se perde meio no céu, e a outra é da pedra destacado pelo verde.

São dois golpes de vista distintos que coincidem no mesmo edifício.

E o atarracado e o severo está na parte central do edifício que fica como que esmagada entre as duas torres.

As torres cravam o pé no chão como que diz:

“É isso mesmo! E eu não só afirmo que é isso e finco o pé no chão, mas levanto a cabeça.

“E com toda a altura da minha estatura te olho, ó transeunte, para te dizer que a Igreja nunca muda, que a Igreja não passa, que Ela é eterna, e que tu tens que olhar com respeito para a severidade dos princípios que Ela enuncia.”

Um dos aspectos da sabedoria consiste nessa catadura, toda de pedra.

O tempo passa mas ela não muda, as pedras não mudam.

A Catedral tomou consistência ao embate de mil tempestades; ela tem uma conaturalidade com a tempestade.

Ela entra numa discrepância harmônica com o corpo de edifício vizinho.

É o maravilhoso da severidade, do combativo, do altaneiro, ao lado do maravilhoso do delicado, do gracioso, do harmonioso, do flutuante.

Interior da catedral: maravilhosa, delicada, graciosa, harmoniosa, flutuante.
São duas formas diversas de maravilhoso, que juntas constituem pelo seu próprio contraste, uma só, única e harmoniosa maravilha.

Esta é uma das mil maravilhas da Europa antiga que o espírito progressista procura de todos os modos insultar, e que certos tratadistas de arte e de história procuram desvirtuar.


Sinos da catedral de São Pedro, BREMEN, Alemanha :

(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, 14.8.67, não revisto pelo autor)

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quarta-feira, 28 de julho de 2010

A SAINTE CHAPELLE: Elevação e intimidade

Cripta da Sainte-Chapelle
Há muitos anos, quando visitei a Sainte Chapelle (Capela Santa) pela primeira vez, pensei que esta parte baixa fosse a capela principal.

Julguei-a tão bonita que, ao vê-la, soltei uma exclamação; a qual, em mim, tem muito significado, porque não sou muito exclamativo. Fiquei encantado!
Pórtico principal da Sainte-Chapelle

Entretanto, disseram-me para subir logo, porque o fluxo dos visitantes estava aumentando, e a Sainte Chapelle ficava em cima, sendo aquele andar inferior destinado aos servidores.

Como os habitantes do palácio eram muito numerosos, e o Rei gostava de assistir ao Santo Sacrifício com todos juntos, celebrava-se uma Missa embaixo e outra em cima.

Como a parte superior não comportava todos, os servidores permaneciam embaixo. Em cima, acomodava-se o Soberano com sua corte.

Chamo atenção, em primeiro lugar, para o seguinte aspecto: há algo nas proporções desta parte baixa da capela, inteiramente diverso do que nos habituamos a ver nessa matéria em igrejas.

Há uma proporção especial para quem ora: sentir-se num ambiente muito elevado, mas ao mesmo tempo muito íntimo.

A pessoa sente-se como que recebida por Deus em seu gabinete pessoal, na sua sala mais interna. Numa perspectiva que concilia a elevação com a intimidade.

Interior da Sainte-Chapelle
Como se consegue isso?

Da seguinte maneira: as colunas são muito esguias, são tênues; não são colunas fortes, atarracadas; mas todas elas abrem-se como se fossem palmeiras cujas folhas se unem no teto.

E se abrem de modo tão harmonioso, tão gradual, tão perfeito, que a pessoa tem uma certa impressão de que elas ficam lá no alto, no teto, no ponto onde se unem, mas que, ao mesmo tempo, esse ponto muito alto está ao alcance da pessoa.

Por onde, fica-se misteriosamente elevado. Na intimidade, tem-se a impressão de grande elevação; e na elevação, tem-se a impressão de grande intimidade.

O homem mede toda a grandeza de Deus, mas, concomitantemente, sente-se elevado até o Criador. Afetuosa e carinhosamente elevado até Deus.

Altar para a Coroa de Espinhos
As ogivas exercem o seu incomparável fascínio sobre os espíritos.

Vemos como a ogiva é um ornamento belo, e como o jogo de ogivas é mais bonito do que cada ogiva em particular.

A Sagrada Escritura diz que Deus, quando criou o universo, repousou no sétimo dia, considerando a obra que tinha feito.

E tornou-se-Lhe patente que cada coisa era bela, mas que o conjunto era mais formoso do que cada parte.

Na Sainte Chapelle encontramos isso. Todas essas colunas são bonitas, as pinturas acentuam tal beleza, os vitrais etc. Mas o conjunto é muito mais belo.


Vista posterior da Sainte-Chapelle

Nota:

Sainte Chapelle de Paris, construída junto ao Palais de la Cité, hoje Palais de Justice, pelo arquiteto Pierre de Montereau, ou de Montreuil, durante o reinado de São Luís IX, século XIII, para conter as preciosas relíquias trazidas, de Constantinopla, pelo santo monarca. Dividida em 2 andares: capela alta, destinada a receber as relíquias; capela baixa, reservada para acolher as sepulturas de dignitários eclesiásticos.

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Extratos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 12 de abril de 1989. Sem revisão do autor.


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quarta-feira, 7 de julho de 2010

REIMS: catedral da França monárquica para coroar o representante temporal de Deus na Terra





Após os horrores revolucionários da Revolução Francesa e as não menos revolucionárias nem menos sangüentas guerras de Napoleão, os príncipes legítimos da casa de Bourbon, retornaram a Paris.

O primeiro em entrar na antiga capital do reino, foi o Conde de Artois ‒ futuro Carlos X ‒ irmão caçula do decapitado rei Luis XVI.

A entrada do Conde de Artois em Paris foi um episódio de fábula.

Se não fosse o caráter pagão das “Mil e uma Noites”, a gente diria uma fábula das “Mil e uma Noites”.

Ele era um príncipe feito mais de cristal do que de carne, tendo todas as graças e os charmes da delicadeza francesa, tendo todas as finuras, os raffinements, as cortesias da elegância francesa.

Tendo, ao mesmo tempo, uma atitude paternalíssima em relação ao povo.

Entrada do conde de Artois em Paris
E o povo notou essa paternalidade e ficou encantado, chegou a abraçar os cavalos dele, não sem algum perigo do cavalo de repente dar um coice.

E o Conde de Artois avançava sem se perturbar, enquanto o povo abria caminho.

O povo da Áustria fica simplesmente derretido e emocionado quando um arquiduque da casa imperial volta, depois de uma longa perseguição. É a volta de um pai inocente.

No caso da França não. O príncipe é o sonho que todo o mundo gostaria de ter, que gostaria de viver, com o qual se pensava quando os canhões brutais soavam perto de Paris anunciando as violentas vitórias de Napoleão.

No fundo os corações do povo de Paris pensavam no toque dos sinos da Catedral de Reims quando era coroado um rei da França.
Nossa Senhora, Reims

Eles batiam pensando na cerimônia da coroação, uma das mais belas cerimônias da Cristandade.

A catedral de Reims é a catedral feita pela França monárquica para prestar culto ao representante temporal de Deus na Terra.



(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, 31/3/95. Sem revisão do autor)


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quarta-feira, 30 de junho de 2010

As curas de REIMS: sinal do aprazimento de Deus com a monarquia francesa




O primeiro rei da França foi Clóvis, rei dos francos e esposo da princesa da Burgúndia, Santa Clotilde. São Remígio, bispo de Reims, celebrou missa com a catedral toda ornada.

Muito bonita para os gostos talvez um pouco bárbaros do tempo mas, enfim, a catedral estava toda ornada.

Quando o bispo entrou com o rei, Clóvis achou a igreja tão bonita que perguntou a São Remígio: “Meu pai, este é o reino dos céus?”

Conta a tradição que enquanto São Remígio sagrava Clóvis, apareceu uma pomba trazendo no bico um frasco de cristal com o óleo com o qual Clóvis deveria ser ungido.

Desde então, sistematicamente, todos os reis da França até Carlos X foram ungidos com esse óleo.

Foi um milagre de Deus fazendo uma pomba romper o “muro” invisível que separa a esfera sobrenatural da natural, e receber de um anjo esse frasco. E vir para que um santo, São Remígio, fizesse a sagração do primeiro rei.

A idéia é de conferir algo de sagrado ao pináculo da ordem temporal que é o rei. De maneira que as duas ordens ‒ a espiritual e a temporal ‒ se tocam sem se confundirem nem se nivelarem.

A ordem temporal quando ela se põe no ápice de si mesma ela toca com o dedo no teto que é a ordem espiritual. E forma a bela continuidade das obras de Deus.

A unção conferida aos reis da França pelo bispo de Reims, sucessores de São Remígio, era um sacramental que dava aos reis da França uma qualidade participativa da ordem espiritual.

Havia antigamente uma doença da pele chamada escrofulose. É um nome horrendo para um mal horrendo também que produz na pele umas úlceras purulentas chamadas de escrófulas.

Essa doença era muito freqüente antigamente pela falta de remédios.

Até a queda da monarquia, quando terminava a coroação dentro da catedral com esplendor magnífico, com a flor da nobreza e todo o episcopado presente, os sinos da catedral de Reims revoavam fazendo ouvir em todos as redondezas a alegria da Igreja e da nação porque lhe tinha sido dado um novo rei.

Do lado de fora da igreja, um espetáculo doloroso e aflitivo se acumulava: eram os escrufulosos da França inteira que tinham ouvido falar que iria ser coroado um novo rei.

E acreditava-se pela tradição que quando o rei saísse da igreja de dentro daquele esplendor supremo e tocasse um por um os doentes dizendo: “Le roi te touche, Dieu te guérisse” (“o rei toca em ti e Deus te cure”, ele operava numerosas curas.

Podemos imaginar os pobres coitados que ficavam livres da doença como ficariam alegres. Era uma cena que quase repetia a alegria daqueles que foram curados por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Assim eram os lampejos de aparentes contradições formosíssimas em que se compraz a Igreja e o espírito católico.

“O rei toca em ti e Deus te cure”
De um lado esplendor, riqueza, luxo e poder difíceis de imaginar. Do lado de fora, colada na porta, uma miséria de fazer a gente chorar.

Mas, entre uma coisa e outra não há a infame luta de classes imaginada por Marx. Na ordem católica há colaboração das classes.

O rei é o pai dos pobres e por causa disso ele sai e com sua mão que acaba de ser ungida, ele toca a escrófula asquerosa de cada doente, e diz a fórmula: “o rei toca em ti ‒ ele não dizia que o rei te cura, mas ‒ Deus te cure.”

Como é bonito ver a majestade real curvar-se com afeto sobre cada filho escrufuloso e obter do Céu que pelo intermédio dessa mão que acaba de ser sagrada, a graça de Deus cure aquele pobre coitado.

Pobres e ricos, grandes e pequenos, ficavam unidos sem serem confundidos numa cerimônia dessa natureza.

(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, 5/10/94. Sem revisão do autor)

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quarta-feira, 23 de junho de 2010

“Le roi te touche, Dieu te guerisse”
‒ “O rei te toca, Deus te cure”

Catedral de Reims, nave central



A catedral de Nossa Senhora de Reims ergue-se no lugar onde Clóvis, rei pagão dos francos, se fez batizar.

Por causa disto, os reis posteriores se faziam coroar na lindíssima catedral da capital de Champagne.

O prédio atual foi construído posteriormente no auge do gótico.

Na coroação do rei fazia-se uma cerimônia religiosa durante uma missa em que estava presente todo o episcopado, muitos dignitários eclesiásticos, o representante do Papa, todos os representantes da nobreza e do povo.

Todos estavam representados dentro da Catedral de Reims e outros fora, porque não cabiam todos dentro.

Em determinado momento, o rei era ungido com o óleo com que São Remígio tinha ungido Clóvis por ocasião do batismo.

Ampola contendo o óleo para a unção dos reis da França
O arcebispo que coroava o rei ungia o monarca como tenente de Deus na Terra, para governar o doce reino da França em nome de Deus.

E depois, ele punha a coroa na cabeça do rei e o sentava num trono num lugar eminente.

No momento da coroação soltavam, dentro da Catedral, um grande número de pombos.

Eles significavam a alegria da pomba que tinha trazido no bico a Santa Ampola com o óleo com que Clóvis e seus sucessores foram ungidos.

Roupas dos arautos na coroação
Essa ampola conteve o mesmo óleo até o tempo de Luís XVI.

Esse óleo serviu para a coroação dos reis até Carlos X, o último monarca da França já no século XIX.

Os sinos tocavam com todo o vôo, abriam-se as portas, a multidão entrava e era uma alegria geral.

Réplica da coroa de Carlos X
O rei depois saia em procissão da Catedral e na praça pública estavam alinhados os doentes que sofriam de um mal especial chamado escrofulose.

E o rei curava-os em virtude de um carisma que recebia na unção e na coroação.

Chegavam, às vezes, a mil e muitos doentes alinhados ali, com doenças repugnantes.

São Luis toca os doentes
O rei tocava no doente fazendo uma cruzinha e dizia:

“Le roi te touche, Dieu te guérisse” ‒ “O rei te toca, Deus te cure.”

E eram numerosos os escrofulosos que se curavam.

Isso aumentava a alegria geral e era uma festa enorme que repercutia pela Europa inteira.

Assim era a coroação de um rei da França na catedral de Nossa Senhora de Reims.



(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, 14/7/90. Sem revisão do autor)





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