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quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A catedral

Sainte Chapelle, Paris
No corre-corre de nossos dias tresloucados, façamos uma pausa. 

Esqueçamos por alguns minutos o trabalho, as preocupações que nos assaltam, e façamos uma visita a uma catedral medieval.

A belíssima página que a seguir transcrevemos –– de Émile Male, um historiador francês de grande envergadura, especializado em história da arte — apresenta-se como um bálsamo para as feridas que em nossas almas abriu esta época na qual vivemos.

Ele nos fala da catedral medieval, especialmente a do século XIII, na França.

Temos a impressão de estar lendo um poema que faz voar nosso espírito para longe das maldições deste século: os horrores da luta de classes, o desvario a que se chegou a propósito dos chamados direitos humanos, as invejas, os escândalos que se atropelam uns aos outros, as perversões morais, o terrorismo, a contínua insegurança e tudo o mais. Enfim, damos a palavra ao célebre autor(*). Dispensamos as aspas, pois só os intertítulos são nossos.

Catedral de BayeuxNa catedral inteira sente-se a certeza e a fé; em nenhum lugar a dúvida. Esta impressão de serenidade, a catedral ainda hoje no-la transmite, por pouco que queiramos prestar atenção.

Esqueçamos por um momento nossas inquietações, nossos sistemas. Vamos a ela.

De longe, com seus transeptos, suas flechas e suas torres, ela nos parece uma nau possante, partindo para uma longa viagem. Toda a cidade pode embarcar sem temor em seus robustos flancos.

Aproximemo-nos. No pórtico, encontramos logo Jesus Cristo, como o encontra todo homem que vem a este mundo.

Ele é a chave do enigma da vida. Em torno d’Ele está escrita uma resposta a todas as nossas questões.

Ficamos sabendo como o mundo começou e como terminará; as estátuas, das quais cada uma é símbolo de uma idade do mundo, nos dão a medida de sua duração.

Notre Dame de ParisTodos os homens cuja história nos importa conhecer, nós os temos diante dos olhos — são aqueles que na Antiga ou na Nova Lei foram símbolos de Jesus Cristo — pois os homens só existem na medida em que participam da natureza do Salvador.

Os outros — reis, conquistadores, filósofos — são apenas sombras vãs. Assim o mundo e a história do mundo se nos tornam claros.

Mas nossa própria história vem escrita ao lado da história desse vasto universo.

Nós aí aprendemos que nossa vida deve ser um combate: luta contra a natureza a cada estação do ano, luta contra nós mesmos a todos os instantes, eterna psicomaquia.

Àqueles que bem combateram, os anjos, do alto do Céu, estendem coroas.

Há lugar aqui para uma dúvida, ou para uma mera inquietação de espírito?

Nave principal da catedral de AmiensPenetremos na catedral. A sublimidade das grandes linhas verticais atua logo de início sobre a alma.

É impossível entrar na grande nave de Amiens sem se sentir purificado. Unicamente por sua beleza, ela age como um sacramento.

Ali também encontramos um espelho do mundo. Assim como a planície, como a floresta, ela tem sua atmosfera, seu perfume, sua luz, seu claro-obscuro, suas sombras. [...]

Mas é um mundo transfigurado, no qual a luz é mais brilhante que a da realidade, e no qual as sombras são mais misteriosas. Sentimo-nos no seio da Jerusalém celeste, da cidade futura.

Saboreamos a paz profunda; o ruído da vida quebra-se nos muros do santuário e torna-se um rumor longínquo: eis aí a arca indestrutível, contra a qual as tempestades não prevalecerão.

Nenhum lugar no mundo pôde comunicar aos homens um sentimento de segurança mais profundo.

Catedral de Bristol
Isto que nós sentimos ainda hoje, quão mais vivamente o sentiram os homens da Idade Média!

A catedral foi para eles a revelação total. Palavra, música, drama vivo dos Mistérios, drama imóvel das imagens, todas as artes ali se harmonizavam.

Era algo além da arte, era a pura luz, antes que ela se tivesse diversificado em fachos múltiplos pelo prisma.

O homem confinado numa classe social, numa profissão, disperso, esmagado pelo trabalho de todos os dias e pela vida, nela retomava o sentimento de unidade da sua natureza; ele ali encontrava o equilíbrio e a harmonia.

A multidão, reunida para as grandes festas, sentia que ela era a própria unidade viva; ela tornava-se o corpo místico de Cristo, cuja alma se confundia com sua alma.

Os fiéis eram a humanidade, a catedral era o mundo, o espírito de Deus pairava ao mesmo tempo sobre o homem e a criação.

Nave da catedral de AlbiA palavra de São Paulo tornava-se uma realidade: vivia-se e movia-se em Deus.

Eis o que sentia confusamente o homem da Idade Média, no belo dia de Natal ou de Páscoa, quando os ombros se tocavam, quando a cidade inteira lotava a imensa igreja.



Harmonia entre as classes sociais

Símbolo de fé, a catedral foi também um símbolo de amor. Todos para ela trabalharam.

O povo ofereceu o que tinha: seus braços robustos. Ele se atrelava aos carros, carregava as pedras nas costas, tinha a boa vontade do gigante São Cristóvão.

O burguês deu seu dinheiro, o barão sua terra, o artista seu gênio. Durante mais de dois séculos, todas as forças vivas da França colaboraram: daí vem a vida possante que se irradia dessas obras.

Até os mortos associavam-se aos vivos: a catedral era pavimentada de pedras tumulares; as gerações antigas, com as mãos juntas sobre suas lápides mortuárias, continuavam a rezar na velha igreja. Nela, o passado e o presente uniam-se num mesmo sentimento de amor. Ela era a consciência da cidade. [...]

No século XIII, ricos e pobres têm as mesmas alegrias artísticas. Não há de um lado o povo e de outro uma classe de pretensos eruditos.

A igreja é a casa de todos, a arte traduz o pensamento de todos. [...] A arte do século XIII exprime plenamente uma civilização, uma idade da História.

A catedral pode substituir todos os livros.

E não é somente o gênio da Cristandade, é o gênio da França que desabrocha aqui.

Sem dúvida, as idéias que tomaram corpo nas catedrais não nos pertencem com exclusividade: elas são o patrimônio comum da Europa católica.

Mas a França aqui se reconhece em sua paixão pelo universal. [...]

Quando compreenderemos que, no domínio da arte, a França jamais fez algo de maior?



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* Émile Mâle, L´Art religieux du XIIIe siècle en France, Le Livre de Poche, Paris, 1969, pp. 448 ss (primeira edição: 1898). Obra premiada pela Académie Française e pela Académie des Inscriptions et Belles-Lettres.

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quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Catedral de São Marcos, VENEZA: “Igreja Católica é isto! Ó Igreja Católica!”


É noite em Veneza. Na Praça de São Marcos a onda de turistas está ausente, os pombos estão dormindo, a catedral apresenta-se em sua majestosa solidão, esplendidamente iluminada, deixando perceber o branco reluzente do mármore, seus pormenores e a linha geral do conjunto.

Nesta magnífica catedral de São Marcos distinguem-se três profundidades.

Em primeiro lugar as arcadas, que têm como centro um arco maior apresentando magnífico mosaico, e acima dele um terraço.

Em seguida a parte superior desse primeiro corpo do edifício, com uma espécie de ogiva central muito grande onde se percebem os famosos cavalos, dois torreões, e de cada lado ogivas bem abertas encimadas com figuras.

A terceira parte é constituída pela cúpula da catedral e algumas torrezinhas.

A iluminação ressalta a parte branca do edifício, que assim parece constituída de tijolinhos de açúcar.

Mas notam-se também sombras cheias de mistério nessa esplêndida galeria de arcos do andar térreo.

Diante desta catedral, forma-se em nossa mente uma impressão marcante: o espírito de fé com que ela foi construída; e, a partir desse espírito de fé, a aspiração do maravilhoso e do grandioso manifestada em louvor de São Marcos.

É uma das mil cintilações deslumbrantes do espírito católico, levando-nos a exclamar: “Igreja Católica é isto! Ó Igreja Católica!”.


(Fonte: Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, 11/01/1989. “Catolicismo”, outubro 2010.  Excertos sem revisão do autor.)



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