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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Cluny, como viviam os monges da Jerusalém celeste encarnada (5)


O monetário oriundo das doações que afluiu para Cluny foi também direcionado pelo abade para os mais pobres. Como afirmei no início desse texto e volto a insistir, a economia monástica não visava o lucro, estava voltada para a comunidade ‒ num sentido mais amplo, para o corpo cristão.

Reitero: nem o abade, nem os monges, nem seu tempo tinham a mentalidade capitalista. É inútil vê-los com esse olhar moderno. Não era esse o foco.

Há de se fazer um esforço de compreensão, é necessário. Historiador, liberte-se de suas amarras materiais, sinta o ambiente e as prioridades de então. Coloque-se no lugar, pense na Idade Média, não a Idade Média (LIBERA, 1999: 68).

Perde-se perspectiva, claro, mas ganha-se compreensão, amplia-se o horizonte do entendimento histórico.



Assim, pelo contrário, cada vez mais ricos, os monges deveriam ter mais tempo para os mortos, para a liturgia, para seu objetivo primeiro: salvar as almas do povo, protegê-las contra os perigos invisíveis ‒ lembre que, para os homens da Idade Média, o mundo invisível era mais importante que o visível. Claro, este perecerá, aquele permanecerá, permanece, é eterno.

Planta de Cluny III


Mais ricos, eles deveriam se libertar ainda mais das tarefas domésticas para se dedicar ao Opus Dei, ao canto. E eles cantavam. Cantavam e cantavam, cantavam cada vez mais, “a plenos pulmões”, todos juntos, em uníssono, seis, oito horas, sete vezes por dia (DUBY, 1979: 80).



Veja vídeo
Exibição no 1100º aniversário
da abadia de Cluny

Seu coro era másculo e violento, um verdadeiro canto de guerra ‒ uma guerra espiritual e ininterrupta contra as forças do mal. Esse canto buscava o sagrado, deveria harmonizar-se com os hinos dos serafins que rodeavam Deus (DUBY, 1988: 26).

Por esse motivo, o trabalho físico dos monges em Cluny passou cada vez mais a ser simbólico (DUBY e ARIÈS, 1990: 58). Além de embelezar o santuário ‒ a casa de Deus deveria ser semelhante à luz transbordante e gloriosa do céu do Senhor ‒ mais livres, os monges poderiam também realizar melhor outro ideal cluniacense: o da caridade, a caridade beneditina (DUBY, 1990: 113).


Ao analisar o orçamento de Cluny no final do século XI, Georges Duby descobriu uma quantidade surpreendente de pessoas que estavam ligadas à riqueza alimentícia cluniacense: serviçais (que, além de usufruírem da caridade, também trabalhavam no mosteiro para sustentar a família), pensionistas pobres, visitantes de passagem, dignitários ricos e peregrinos nobres (e seus cavalos), crianças entregues por sua linhagem (DUBY e ARIÈS, 1990: 63), todos fielmente alimentados como os monges!

Reconstituição de Cluny

Cluny realizava verdadeiras epopéias distributivas: as esmolas. Na Quaresma, por exemplo, pasme, leitor, 16 mil indigentes repartiam 250 porcos salgados preparados pelas duas cozinhas do mosteiro.

O consumo de pão era igualmente desmedido: 2 mil cargas de asnos, muitas vezes oriundos de longe (DUBY, 1990: 109).

Por esse motivo, a economia cluniacense rapidamente entrou em crise ‒ some-se a isso o fato de as cobranças das famílias camponeses instaladas nas terras do mosteiro serem muito suaves (as corvéias eram insignificantes, lembrem-se do ideal de caridade), existiam muitos alódios nos arredores (terras camponesas livres de cobranças), e um terço do excedente ainda era destinado aos hóspedes e às esmolas para os pobres (DUBY, 1990: 110).


Sobre os prédios de Cluny (celeiro, torres, fachada, etc.) ver também:


Por fim, as necessidades de consumo da abadia (grãos e vinho) estimularam a produção agrícola local. Os camponeses prosperaram, não só vendendo sua produção para os monges mas também trabalhando no canteiro de obras que se tornou a construção daquela imensa igreja abacial (DUBY, 1990: 115).

(Fonte: Ricardo da Costa (Ufes), "Cluny, Jerusalém celeste encarnada", in: Revista Mediaevalia. Textos e Estudos 21 (2002), p. 115-137 (ISSN 0872-0991).

As fontes bibliográficas utilizadas estão elencadas no último post desta série.


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