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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Cluny, monges-guerreiros e “anjos do Apocalipse” na Jerusalém celeste encarnada (4)



Dos sonhos aos mortos

Eles conquistaram as graças do povo. Um fato crucial para essa devoção popular foi a criação da liturgia dos mortos. Dia dos finados. Assumiam assim as funções eucarísticas.

Um “mistério magnífico” que trouxe grandes benefícios às almas dos fiéis defuntos. Os monges de Cluny eram guerreiros de luz que combatiam as trevas. Ao cantarem ininterruptamente, resgatavam as almas penadas, os perdidos, os errantes que estavam condenados ao abismo infernal.



Por volta de 1030 Cluny organizou a liturgia da comemoração dos defuntos - a data foi fixada em 02 de novembro. Era sua vocação. Pierre, o Venerável, oitavo abade de Cluny (1122-1156) escreveu uma coletânea de relatos de milagres (De miraculis): visões ‒ celestiais e diabólicas (sim, o diabo tentava a abadia, daí sua santidade) ‒, sonhos e aparições de mortos.


Sobre os prédios de Cluny (celeiro, torres, fachada, etc.) ver também:



A obra possui dez relatos de aparições de mortos. Especialmente através de sonhos: os monges cluniacenses recebiam regularmente a visita de mortos em seus sonhos. Anunciações, avisos, premonições.

A tradição de Cluny obrigava que o visitado avisasse à comunidade para que fossem celebradas missas salutares em honra ao morto onírico visitante (SCHMITT, 1999: 90-97).

Assim, além do contato e do auxílio aos mortos, o mosteiro, com seu canto e suas missas ininterruptas, libertavam almas perdidas para o demônio. Mais uma vez Raul Glaber nos conta:

Sabe que esse mosteiro não tem outro que se lhe iguale no mundo romano, sobretudo para libertar as almas que caíram no poder do demônio. Imola-se nesse lugar tão freqüentemente o sacrifício vivificante, que quase não passa um dia sem que, por tal mediação, não sejam arrancadas almas ao poder dos malignos demônios.

Com efeito, neste mosteiro, nós próprios fomos testemunhas disso, um uso tornado possível pelo grande número dos seus monges, determinava que se celebrasse sem interrupção missas desde a primeira hora do dia até a hora do repouso; e punha-se nisso tanta dignidade, tanta piedade, tanta veneração, que se acreditava ver mais anjos do que homens (citado em DUBY, 1986: 217).



Anjos, eles eram anjos de verdade que desceram dos céus para cantarem próximo de nós. Esses monges de negro, com suas vozes, entoadas em uníssono perfeito, salvariam o mundo da perdição e os homens estariam livres dos horrores do fim dos tempos.

Cluny veio para preparar o mundo para o Apocalipse, amenizar o sofrimento dos espíritos inquietos.


(Fonte: Ricardo da Costa (Ufes), "Cluny, Jerusalém celeste encarnada", in: Revista Mediaevalia. Textos e Estudos 21 (2002), p. 115-137 (ISSN 0872-0991).

A bibliografia está no último post desta série.


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