O mais importante centro da reforma monástica foi Cluny.
Raul Glaber (†1044), o melhor historiador do ano mil, também ele cluniacense, nos conta que a abadia de Cluny era um asilo de sabedoria, pois fez renascer a Regra de São Bento ‒ embora com uma ênfase diferente, como veremos mais adiante.
A raça cluniacense tornou-se, segundo suas palavras, “um exército do Senhor que se espalhou rapidamente numa grande parte da terra” (citado em DUBY, 1986: 188).
Um modelo de perfeição, um modo de vida totalmente harmonizado com os desígnios do Criador, Cluny foi um dos maiores projetos monásticos de todos os tempos. Desde sua fundação em 932, a abadia não parou de crescer. Doado em 910 (ou 909) por Guilherme, mais tarde chamado de o Piedoso, duque da Aquitânia e conde de Mâcon, o domínio (villa) encontrava-se ao sul da Borgonha, no Saône e Loire, próximo do Ródano (MARTÍNEZ, 1997: 192).
Havia uma capela no local (chamada de Cluny A) - as escavações arqueológicas dataram-na entre os séculos VI e VIII (IOGNA-PRAT, 1998: 107).
Chegaram seis monges, liderados por Bernon (910-924), abade de Baume e Gigny, que se propôs construir um pequeno santuário (chamado pelos especialistas de Cluny I), com 35 metros de comprimento (HEITZ, s/d: 132).
Em seu testamento, o duque Guilherme diz:
Para aqueles que consideram as coisas com bom senso é evidente que a Divina Providência aconselha os ricos a utilizar devidamente os bens que possuem de maneira transitória, se desejam recompensa eterna (...) Por esta razão , eu, Guilherme, pela Graça de Deus conde e duque, tendo ponderado estas coisas e desejando, enquanto é tempo, tomar medidas para a minha salvação, achei justo e mesmo necessário dispor, para proveito da minha alma, de algumas das possessões temporais que me foram concedidas (...)
Portanto, a todos aqueles que vivem na unidade da fé e que imploram a misericórdia de Cristo, a todos os que lhes sucederem e viverem até à consumação dos séculos, faço saber que por amor de Deus e do nosso Salvador Jesus Cristo, dou e entrego aos santos apóstolos Pedro e Paulo a vila de Cluny, que fica sobre o rio chamado Grosne, com as suas terras e reserva senhorial, a capela dedicada em honra de Santa Maria Mãe de Deus e de São Pedro Príncipe dos Apóstolos, com todas as coisas que pertencem a essa vila: capelas, servos dos dois sexos, vinhas, campos, prados, florestas, águas e cursos de água, moinhos, colheitas e rendas, terras lavradas e por lavrar, sem restrições (...)
Celeiro da abadia de Cluny
Dou com a condição de que seja construído em Cluny um mosteiro regular, em honra dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo; que aí formem uma congregação de monges vivendo sob a regra de São Bento; que a possuam para sempre, detenham e governem, de tal maneira que este venerável domicílio esteja incessantemente cheio de votos e preces; que todos procurem nela, com o vivo desejo e um fervor íntimo, a doçura da comunicação com o Céu e que as preces e súplicas sejam sem cessar daí dirigidas para Deus, tanto por mim como por aquelas pessoas acima lembradas (...)
Vézelay, abadia dependente de Cluny
Foi de nosso agrado registar neste testamento que de este dia em diante os monges unidos na congregação de Cluny fiquem por completo libertos do nosso poder, do dos nossos parentes e da jurisdição da real grandeza, e nunca se submetam ao jugo de qualquer poder terreno, nem ao de nenhum príncipe secular, conde ou bispo, nem ao do pontífice da sé Romana, mas apenas a Deus... (citado em ESPINOSA, 1981: 284-285)
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| Video: Cluny fez 1100 anos |
Temente a Deus e preocupado com a salvação de sua alma, pois acredita que recebeu dos céus como graça a nobreza de sua posição social, Guilherme dá um pouco do que tem. Reparte. Deve ser generoso: não reter nada nas mãos é o ideal cavaleiresco que aos poucos se difunde por entre a nobreza: largueza é o termo que define esse gesto. Os cavaleiros deveriam ser largos, generosos.
Sobre os prédios de Cluny (celeiro, torres, fachada, etc.) ver também:
Mas o que quero ressaltar aqui são duas de suas condições ‒ sua dádiva tem preço, pois ele parece conhecer a degradação humana: os monges que ali vivessem deveriam se comprometer a cumprir estritamente as normas beneditinas e eleger livremente seu abade.
Assim, ninguém poderia interferir na vida da comunidade e, o que acho mais importante, neste testamento, Guilherme dá o tom da crença da época: Cluny, ou melhor, o mosteiro que eles deveriam construir em Cluny, seria um portal de comunicação com o céu! Um elo de ligação cheio de doçura. Cluny seria a Jerusalém celeste encarnada, o paraíso novamente concretizado. Como um ponto de luz na escuridão, um foco de bondade em meio à turbulência do século, as preces e súplicas dos monges seriam a causa de sua reunião.
É por esse motivo que o duque os liberta das indesejáveis intromissões de nobres e bispos: os monges deveriam ser livres para melhor obrar junto a Deus!
Eram intermediários, intercessores entre “a ordem imutável do universo celeste e a perturbação, a miséria e o medo deste mundo” (DUBY, 1988: 03).
EXEMPLOS DE VIDA DOS ABADES SANTOS DE CLUNY
Santo Odilon, um abade de Cluny que modelou a Cristandade
Santo Odilon: leão pela causa da Igreja e escravo de Nossa Senhora
Santo Odon: resplandecente abade de Cluny
Guilherme confiou essa missão a Bernon por sua fama: o abade era conhecido por ter restaurado a disciplina monástica em vários mosteiros (PACAUT, 1996: 393-394).
Essa iniciativa estava bem de acordo com a época. Relação dialética: os seculares, os mais corrompidos, se interessavam pela renovação; os clérigos, igualmente corrompidos, aceitaram renovar. Um movimento social que partiu das consciências, uma mutação das consciências baseada na crença em um além, em uma salvação.
De todas as partes do corpo social brotou um desejo de mudança.
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