De qualquer modo, a independência, todo esse luxo e opulência e especialmente a velocidade com que Cluny passou de uma economia baseada na exploração direta de um vasto domínio (910-1080) para uma economia monetária (1080-1125) (DUBY, 1990: 123) despertou a ira de muitos setores eclesiásticos. Invejas.
Com a morte do abade Hugo de Sémur (1109), a eleição de Pons (que se demitiu) e Hugo II (que governou apenas alguns meses), a ordem entrou em crise. Crise de valores: foi acusada de corrompimento. Luxo, opulência, fausto. Degeneração. Sua expansão e enriquecimento provocara ciúmes. Mas também decadência moral.
As críticas não eram novas. O bispo Adalberon de Laon (†1031) ‒ um dos criadores do ideal das três ordens ‒ já havia escrito um poema satírico, um panfleto, Graça para o rei Roberto (Carmen ad Robertum regem) denunciando Cluny e seu abade, Eudes.
O desejo de Adalberon era restabelecer os bispos como conselheiros dos reis, função então usurpada pelos monges, segundo ele, “laicos que recusam o matrimônio”, responsáveis pela perturbação social.
Eudes era o culpado: esse “mestre da ordem belicosa dos monges”, que domina um suntuoso palácio, vive como um nobre quando deveria viver como um pobre. É um usurpador.
Além disso, os cluniacenses militarizaram a oração, como vimos. Adalberon teria mandado um monge a Cluny para obter informações. Ele regressou maravilhado e convertido à mentalidade cluniacense: “Sou cavaleiro, permanecendo monge!” Adalberon ficou perplexo: monges guerreiros? Orações militarizadas? Guerra espiritual? Tolice. Trata-se de uma transgressão social (DUBY, 1982: 67-71).
Chegamos então a São Bernardo (1090-1153), o homem do século XII (SANTOS, 2001).
Um dos maiores pregadores de seu tempo, cisterciense, austero, devotado à união mística com Deus, ao papel ascético do trabalho manual, Bernardo redigiu, por volta de 1124, uma apologia (DIAS, 1997: 7-76).
Um grande amigo seu, monge cluniacense, Guilherme de Saint Thierry (próximo de Reims), escreveu-lhe uma carta com uma ordem: pôr fim a um escândalo. Os cistercienses estavam caluniando os cluniacenses (BAC, MCMXCIII: 248).
Guilherme então se queixou a Bernardo, que decidiu ceder à sua dor e responder. Logo no início da carta ele faz duas perguntas diretas e incisivas, características de seu estilo impetuoso:
Como é que eu poderia ouvir em silêncio a tua queixa acerca de mim, pela qual se diz que nós, os mais miseráveis dos homens, andrajosos e mal vestidos, das cavernas, como diz ele, julgamos o mundo e, o que é mais intolerável ainda, criticamos também a tua gloriosíssima Ordem e, sem vergonha, atacamos os santos que nela vivem tão louvavelmente e, da sombra da nossa ignobilidade, insultamos esses luminares do mundo?
Por acaso é possível que nós, não lobos vorazes sob pele de ovelhas, mas pulgas mordazes e mesmo traças destruidoras, uma vez que não o ousamos fazer às claras, destruamos, às ocultas, a vida dos bons e nem sequer lancemos o clamor da invectiva mas o sussurro da detração? (I.1. In: DIAS, 1997: 23)
Como se vê e pode-se imaginar, esse texto fez muito sucesso. Bernardo possui um estilo vigoroso. Logo se faz ouvido. Particularmente esse texto deu-lhe prestígio, tornou-o famoso nos círculos eclesiásticos (SANTOS, 2001: 53).
![]() |
| Cluny no seu 1100º aniversário |
Afirma que sempre falou bem dos monges de negro: “Sou Cisterciense, condeno por isso os Cluniacenses? De modo nenhum. Amo-os até, falo deles com elogio, louvo-os.” (IV.7) (DIAS, 1997: 33).
Apenas preferiu entrar para a Ordem de Cister por necessitar de um remédio mais forte tanto para sua alma pecadora quanto para seu corpo, antes vendido ao pecado.
Assim, antes de iniciar suas críticas aos costumes corrompidos de Cluny, Bernardo ressalva:
Na realidade, nenhuma ordem aceita algo de desordenado; o que é desordenado não é ordem. Por consequência, não me devem considerar como disputando contra a Ordem mas pela Ordem, se acaso, repreendo não a Ordem nos homens mas os vícios dos homens (...)
Se, de fato, a alguns desagradar, eles mesmos mostram que não amam a Ordem, já que não querem condenar a corrupção, isto é, os vícios. A esses respondo com aquele dito de Gregório: “É melhor que apareça o escândalo que se deixe a verdade” (VII.15) (DIAS, 1997: 47)
Suas críticas dirigem-se não só a cluniacenses, mas a todos os monges: “Quem é que no princípio, quando começou a Ordem monástica, teria pensado que os monges pudessem chegar a tal relaxamento? Oh! Como estamos longe dos tempos de Antão!” (IX.29) (DIAS, 1997: 51).
EXEMPLOS DE VIDA DOS ABADES SANTOS DE CLUNY
Santo Odilon, um abade de Cluny que modelou a Cristandade
Santo Odilon: leão pela causa da Igreja e escravo de Nossa Senhora
Santo Odon: resplandecente abade de Cluny
Seus olhos vêem vaidade e superficialidade disseminadas em todos os mosteiros. Falta de moderação. Riqueza. Luxo. O mundo monástico foi tomado pelo excesso: “...intemperança nas comidas e bebidas, nas vestes e nas roupas de dormir, nos apetrechos de cavalgar e na construção de edifícios.” (VIII.16) (DIAS, 1997: 47).
Ao referir-se à alimentação, Bernardo é tão incisivo que seu tom beira a denúncia. Ele quer trazer os monges de volta à razão, aos valores espirituais, à busca da elevação da alma:
O Reino de Deus está dentro de vós, isto é, não na exterioridade do vestir ou dos alimentos do corpo mas nas virtudes do homem interior (VI.12)
(...) De fato, o exercício espiritual é tanto mais frutuoso que o corporal, quanto o espírito é superior ao corpo. (VII.13) (DIAS, 1997: 43)
Sobre as refeições e a bebida nos mosteiros cluniacenses, ele aponta:
Trazem-se pratos de comida uns após outros e, em vez dum simples prato de carnes, de que se faz abstinência, servem-se dois grandes peixes (...) Com tanta arte e cuidado as coisas são preparadas pelos cozinheiros que, depois de se ter devorado quatro ou cinco pratos, os primeiros não impedem os últimos nem a saciedade diminui o apetite (...)
Se fazem misturas dumas coisas com outras, e, desprezando os sabores naturais que Deus lhes incutiu, provoca-se a gula com sabores adulterados... (IX.20) (DIAS, 1997: 51-53)
Um escândalo! Os cluniacenses adulteram os sabores das coisas. Reviram, transformam a natureza! Repare na escolha minuciosamente proposital das palavras: adultério (sabores adulterados). Pecado mortal. Culinária? Perda de tempo, causa para a gula, outro pecado mortal. Peixes à macheia ‒ sinal de grande riqueza, compras regulares nos mercados locais. E os ovos? Quantos ovos! ‒ vimos atrás que terças, quintas, sábados e domingos os cluniacenses comiam quatro ovos.
O frigir dos ovos propicia a Bernardo um ritmo, uma cadência pulsante no texto:
Quem seria capaz de dizer de quantos modos (...)
Só os ovos se deitam e batem, com que cuidado se viram, se reviram, mal passados, bem passados, se reduzem e se servem ora cozidos, ora estrelados, ora recheados, ora mexidos, ora sós? Para quê tudo isso senão para prevenir o fastio? (IX.20) (DIAS, 1997: 53)
Quem sofre é o pobre estômago do monge, cheio, com grandes arrotos. Mas nem assim o cluniacense pecador e guloso satisfaz sua curiosidade. Repare que um vício leva a outro: movimento circular. A curiosidade é, para Bernardo, o primeiro grau da soberba, porque “lança os olhos e demais sentidos em direção a coisas que não lhe interessam” (BAC, MCMXCIII: 169).
Os olhos deveriam estar voltados para a terra, para que o néscio se conhecesse. “A terra te dará tua própria imagem, pois eras terra e à terra há de retornar” (BAC, MCMXCIII: 213).
Sobre os prédios de Cluny (celeiro, torres, fachada, etc.) ver também:
Os olhos dos monges são os culpados: o estômago não tem olhos. Mais um motivo para o texto ser lido como um banquete imaginário, em um andamento rítmico e melódico de grande impacto discursivo:
Enquanto os olhos são seduzidos pelas cores, o paladar pelos sabores, o pobre estômago, que nem conhece as cores nem aprecia os sabores, é obrigado a receber tudo e violentado, fica ainda mais sobrecarregado do que refeito.” (IX.20) (DIAS, 1997: 53)
Apesar de todo esse fastio, Bernardo ainda sabe de terceiros que muitos jovens sãos mentem que estão doentes para poderem comer carne! Ridículo se for verdadeiro (Ridiculum vero est) Qual o objetivo desses jovens monges? Imagine: aperfeiçoar a boa aparência do corpo. Então ele pergunta: “Que frouxidão é essa, ó bons soldados?” (IX.22) (DIAS, 1997: 55). Ele debocha desses soldados de Cristo. São beberrões, inclusive, esses cluniacenses. Três, quatro cálices cheios de vinho em cada refeição. Vinhos aromatizados com mel e misturados com pós de corantes. Suas veias ficam saturadas de álcool, a cabeça palpita. Ao invés de rezarem à noite, muitos deles dormem. Claro.
Bernardo faz um trocadilho: canto/pranto: “Ora, se és obrigado a levantar-te para as vigílias com a digestão por fazer, não executarás o canto mas antes o pranto” (IX.21) (DIAS, 1997: 55).
Como não associar a denúncia de Bernardo das orgias alimentares cluniacenses ao enriquecimento material que tomou conta do ocidente medieval na virada do século XII? Crescimento populacional, desenvolvimento de novas técnicas agrícolas, arroteamentos, conquista do solo (LE GOFF, 1983: 87-92).
Desejaria receber as novas postagens de 'Catedrais Medievais' em meu Email gratuitamente
GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS ORAÇÕES HEROIS CONTOS CIDADE SIMBOLOS







CATEDRAIS





0 comentários:
Postar um comentário
Obrigado pelo comentário! Escreva sempre. Este blog se reserva o direito de moderação dos comentários de acordo com sua idoneidade e teor. Este blog não faz seus necessariamente os comentários e opiniões dos comentaristas. Não serão publicados comentários que contenham linguagem vulgar ou desrespeitosa.