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terça-feira, 15 de setembro de 2026

Origem do gótico

Catedral Notre Dame de Amiens
Catedral Notre Dame de Amiens
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs









O gótico surge como fruto de um movimento iniciado na “Ile de France”, verdadeiro núcleo geográfico dessa arquitetura e também da escolástica.

Dali se irradia, tomando características locais, mas mantendo sempre seus elementos fundamentais.

Um circulo de cinquenta léguas, ou aproximadamente 330 quilômetros, traçado de Paris como centro, abarca senão todas as igrejas ogivais do primeiro período, pelo menos aquelas em que a arte gótica primitiva se manifesta com toda a exuberância e em todo o seu esplendor.

É ali que, segundo todos aceitam, começa a alta escolástica por volta do século XII, justamente quando o sistema do alto gótico lograva seus primeiros triunfos em Chartres e Soissons; e ali é que se chegou a uma fase decisiva ou clássica em ambos os campos durante o reinado de São Luiz (1226 – 1270).

Foi no dito período que floresceram, entre os filósofos da alta escolástica, figuras como as de Alexandre de Hales, Alberto Magno, Guilherme de Auvergne, São Boaventura e São Tomás de Aquino.

Igreja de St-Germer-de-Fly
Também arquitetos do alto gótico entre os quais se contavam Jean de Loup, Jean de Orbais, Robert de Luzarches, Jean de Challes, Hugues Libergier e Pierre de Montereau; e os rasgos distintivos da alta escolástica – para diferenciá-la da primitiva – são notavelmente semelhantes aos que caracterizam a arte do alto gótico, diferenciando-o do gótico primitivo”[1].

Da França, em 1175, o novo estilo, passa para a Inglaterra com o mestre Guilherme de Sens, incumbido da reconstrução da catedral de Canterbury. Na Alemanha a influencia gótica far-se-ia sentir mais tarde.

No século XII ali ainda floresce a arquitetura românica. E só  século XIII o estilo ogival atingiria a Itália e outros países da Europa meridional.

No inicio o gótico era um estilo arquitetônico essencialmente religioso.

A casa permanecia românica, mais é que ele se espraia pelos palácios e pelos edifícios públicos, em sua incrível plasticidade.

Não é sem razão que Ruskin considera “de certo ponto de vista, o gótico não somente é melhor, mas a única arquitetura racional”[2], aquela que pode adaptar-se mais facilmente a todos os fins, dos mais nobres aos mais triviais.

Igreja abacial de Saint-Denis, Paris
Esse era o juízo de um homem que não era católico, antes pelo contrario, e que cometeu grandes injustiças contra a verdadeira Igreja em mais de um lugar de sua vasta obra de critico de arte.

Dobra-se, porém, reverente diante desse estilo arquitetônico gerado nas entranhas da Cristandade, numa época em que a unidade católica atingia seu apogeu.

O que caracteriza a primeira fase da arte gótica é o impulso para as alturas, a ascensão para o céu, não somente através de suas torres vertiginosas, mas, sobretudo no arrojo vertical de seus interiores, com a criação de um novo sentimento de espaço e a preponderância dos vãos sobre os maciços das muralhas e das paredes de pedra.


Continua no próximo post: Catedral gótica: síntese da fé em movimento

(Fonte: Catolicismo, Junho de 1960, Nº 114)


[1] Erwin Panofsky, “Arquitetura gótica e escolástica”, Versão castelhana, Ed. Infinito, Buenos Aires, 1959, p. 12.
[2] John Ruskin, “The Stones of Venice”, Ed. Allen e Unwin, Londres, 1925, Vol. II.  


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terça-feira, 28 de outubro de 2025

A luz dos vitrais refletida na catedral

Cena com elementos do campo num vitral da catedral de Chartres
Cena com elementos do campo num vitral da catedral de Chartres
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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Além dos temas de decoração propriamente religiosos — cenas bíblicas que mostram as correspondências do Novo Testamento com o Antigo, pormenores da vida da Virgem e dos Santos, quadros grandiosos do Juízo Final ou da Paixão de Cristo — os pintores e escultores tiraram largo partido do que a natureza lhes punha diante dos olhos.

Toda a flora e fauna do nosso país renascem sob o pincel ou o cinzel, com precisão e golpe de vista de um naturalista, aliados ao que a fantasia lhes sugeria.

Foi possível estudar nos pórticos das catedrais as diferentes espécies reproduzidas e descobrir flores e folhagens da Ilha de França: aqui em botão, lá em pleno desabrochar, acolá sob o aspecto recortado da folhagem outonal.

Utilizaram com igual à-vontade os motivos de decoração geométrica — folhagens, entrançados, animais estilizados — cujo modelo lhes havia sido fornecido pelo Oriente, e que os monges irlandeses tinham feito renascer com exuberância singular nas suas miniaturas.

O simbolismo das catedrais escapa ainda à ciência moderna, embora nos últimos anos se tenha dado um grande passo em frente, graças sobretudo aos trabalhos admiráveis de Emile Mâle.

Descobriu-se recentemente o simbolismo das pirâmides do Egito, e deve-se ver nelas o testemunho de uma ciência muito profunda, de autênticos monumentos de geometria, matemática e astronomia, embora ressalvando os exageros de alguns ocultistas.

Resta-nos descobrir o simbolismo das catedrais, dessas igrejas familiares que são um apelo à oração, ao recolhimento, talvez à mais maravilhosa das sensações humanas, que é o espanto.

Nossa Senhora de Amiens, em sua catedral.
Nossa Senhora de Amiens, em sua catedral.
Estamos longe de dominar o seu segredo.

Ainda não penetramos a fundo no porquê dos pormenores de arquitetura ou de ornamentação que as compõem, apenas sabemos que todos esses pormenores tinham um sentido.

Não há uma única dessas figuras — que rezam, fazem carantonhas ou gesticulam — colocada gratuitamente, todas possuem a sua significação e constituem um símbolo, um signo.

Nos vitrais, os nossos sábios ainda não foram capazes de descobrir a sua completa interpretação, embora os simples camponeses lessem neles como num livro.

Nem sempre conseguimos identificar esses rostos, que outrora uma criança teria podido nomear.

Sabemos que as nossas catedrais estavam orientadas, que o seu transepto reproduz os dois braços da Cruz, mas faltam-nos ainda muitas noções para podermos penetrar no seu mistério.

(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)


Vídeo: Chartres: catedral da luz imaterial e do sacrifício litúrgico perfeito





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terça-feira, 30 de abril de 2024

O gótico: estilo de uma sociedade que está bem com Deus

Transepto da catedral de Amiens, França.
foto David Iliff.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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O estilo gótico nasceu e cresceu dando passos aparentemente pequenos, até gerar um conjunto monumental como nenhum outro na História da Civilização.

Nenhum estilo histórico é uma produção de gabinete, mas é obra de uma sociedade inteira.

Os artistas não são os criadores do estilo usado por uma sociedade, mas seus intérpretes.

E isto é especialmente verdadeiro do estilo gótico ou medieval.

Nesse estilo produzido pela sociedade medieval, o prático e o belo, os elementos materiais e intelectuais se fundiram harmonicamente com a fé católica professada pela sociedade.

Do ponto de vista arquitetônico que foi tão decisivo, o estilo gótico tem como elemento característico a chamada ogiva gótica.

Segundo a tradição, num sonho, São Pedro e São Paulo teriam aparecido a um velho abade beneditino de nome Gunzo, que foi terminar seus dias na abadia de Cluny.

Os santos lhe ensinaram a ogiva, que depois se chamou gótica.

O velho monge narrou o sonho ao abade São Hugo.

Na época, por volta de 1080 d. C., Cluny estava construindo sua terceira grande igreja abacial, dedicada a São Pedro.

Ela foi a maior igreja da Cristandade até a construção da Basílica de São Pedro, no Vaticano, feita um metro maior, para afirmar assim sua superioridade universal.

O sonho do abade Gunzo que inspirou o arco gótico
na abadia de Cluny III.
Miscellanea secundum usum ordinis Cluniacensis
O monge Gunzo era cego, mas seu testemunho foi considerado fidedigno e convincente.

A parte final da nave de Cluny foi concluída no novo estilo ogival.

O exemplo de Cluny pegou fogo em toda a Europa. Construir catedrais foi um fenômeno correlato às Cruzadas.

O mesmo fervor animava os cavaleiros e os arquitetos.

O movimento se expandiu a partir da França em meados do século XII.

É por isso que na época medieval o estilo gótico era referido como art français, francigenum opus (trabalho francês) ou opus modernum (trabalho moderno).

O termo gótico foi cunhado pelo historiador renascentista da arte Giorgio Vasari (1511 —1574).

Para Vasari e seus colegas naturalistas, admiradores da arte pagã da Antiguidade, a arte da Idade Média, especialmente a arquitetura, era objeto de horror.

Eles a consideravam o oposto da perfeição, o símbolo do obscuro e do negativo que o catolicismo havia inoculado nas massas.

O século XIX recuperou o estilo gótico.
E deu o neogótico.
Catedral St Patrick, de New York
Vasari atribuiu esse horror aos godos, povo que destruiu a Roma Antiga em 410.

E inventou o termo gótico, com fortes conotações pejorativas. Ele quis designar um estilo digno apenas de bárbaros e vândalos.

No século XIX essa manipulação foi posta de lado. O gótico voltou a ser valorizado como merecia.

Poetas como Goethe ficaram fascinados pela imponência das grandes catedrais góticas na Alemanha. Literatos como Victor Hugo empolgavam seus leitores com os relatos dos monumentos medievais.

Restauradores como Viollet-le-Duc se engajaram em hercúleos trabalhos, ainda em andamento, para restaurar catedrais, abadias, castelos, palácios e outras obras insignes.

Chefes de Estado como o Kaiser da Alemanha, Luís II da Baviera, Napoleão III ou a rainha Victória promoveram essas fabulosas restaurações ou até novas realizações em estilo medieval.

O Parlamento de Londres e o Big Ben são um exemplo acabado da arte gótica.

A restauração do gótico ficou associada ao movimento contrarrevolucionário do século XIX.

E onde não havia catedral gótica para restaurar, os católicos se punham a erigir novas: St. Patrick, em Nova York, a catedral de São Paulo, ou as basílicas de Luján, na Argentina, e de Las Lajas, na Colômbia, para dar alguns exemplos.

Nesse momento nasceu o neogótico, marcado pelos elementos decorativos ogivais.


Cluny "alma da Idade Média" (reconstituição virtual)





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terça-feira, 5 de setembro de 2023

AMIENS: a pedra cinza resplandecente de cores

Chartres ostenta a beleza da pedra pura
Chartres ostenta a beleza da pedra pura
Luis Dufaur
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Quem admira os monumentos góticos se compraz em ver não só suas linhas, sua altaneria, etc., mas a pedra com que são feitos.

Em geral são de granito cinzento, ou de uma cor meio indefinida, constituindo massas enormes que parecem sair da terra à maneira de um chafariz imenso que jorrasse granitos da pré-história.

Assim nós temos as catedrais, os castelos, as torres que emergem do chão e que impressionam a quem olha as coisas da Idade Média.

Se há uma cor que parece com a não-cor é o cinza. Contudo, o granito cinzento tem uma beleza própria. É uma maravilha, não há que discutir.

Mas poder-se-ia perguntar se numa catedral são cabíveis outras formas de beleza. E, admitindo que sim, poder-se-ia perguntar qual das formas de beleza é maior.

Pessoas de meia cultura e de gosto mediano, fanáticas do purismo gótico, mas que entendem pouco desse estilo, acham que pintar uma catedral seria uma blasfêmia! “Deve ser de pedra e não pode ser de uma outra coisa!”.

A pedra nua tem uma forma de beleza tal que não haveria lágrimas suficientes para chorar o seu desaparecimento.

Mas, daí a dizer que é a única forma possível de beleza e que constitui uma blasfêmia imaginá-la pintada, contraria, antes de tudo, a realidade histórica.

Amiens: pintura colorida medieval restaurada com canhões laser
Amiens: pintura colorida medieval restaurada com canhões laser
Estudos acurados têm demonstrado que as estátuas exteriores de catedrais como Notre-Dame de Amiens e de outros monumentos eram pintadas.

E que foi com a decadência do gosto do povo pelo gótico que aos poucos as tintas foram caindo, não sendo renovadas.

A catedral de Amiens é a mais ampla da França (7.700 m2) e forma o arquétipo do gótico clássico juntamente com as catedrais também dedicadas a Nossa Senhora em Chartres e Reims, e a de Santo Estêvão em Bourges.

É também o prédio mais alto da região: ele atinge 112,7 metros na flecha exterior e 42,30 metros nos arcos góticos interiores. Sua extensão é de 145 metros, sendo capaz de acolher toda a população da cidade no tempo de sua construção (cerca de 10.000 pessoas).

Amiens: pintura colorida medieval restaurada com canhões laser
Amiens: pintura colorida medieval restaurada com canhões laser
Com estas dimensões pode-se fazer uma ideia das centenas de imagens e dos milhares de detalhes escultóricos que a Catedral ostenta em seu exterior.

A catedral com mais estátuas exteriores é a de Nossa Senhora de Reims: 2.303!

O número depende de um programa teológico destinado a glorificar a Deus e a ordem de sua Criação.

Mas serve de livro legível até por um iletrado, pois ilustra os rudimentos da Fé e da moral, a História Sagrada, da vida dos Santos e da ordem suprema do universo espiritual e material.

Na década de 1990 foram feitos trabalhos de limpeza da estatuária de Amiens com raios laser. Foi possível então descobrir e preservar restos da policromia original.

O estudo desses restos de pintura mostrou que a catedral estava não só pintada, mas com cores de uma variedade e de uma intensidade insuspeitada.

Amiens: beleza e intensidade das cores medievais surpreende
Amiens: beleza e intensidade das cores medievais surpreende
Nasceu então a ideia de utilizar canhões de raios laser para iluminar a catedral durante as noites de verão. E, desse modo, reconstituir como seria a pintura, ainda que de modo artificial, com as cores que ela ostentava na era medieval.’

E o resultado é surpreendente.

Durante alguns instantes da noite podemos agora admirar aquilo que os cidadãos da Amiens medieval e os romeiros que iam venerar as preciosas relíquias da catedral (como o crânio de São João Batista) habitualmente viam.

Os homens que conceberam essas maravilhas góticas as imaginaram em cores porque suas almas aspiravam a se preparar para um dia contemplar face a face Deus, fonte de toda beleza, e sua faustosa corte celeste.



Vídeo: catedral colorida como na Idade Média: Amiens





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