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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

A catedral e a luz imaterial do sacrifício litúrgico perfeito

Missa numa capela lateral de uma catedral
Missa numa capela lateral de uma catedral
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





O conhecimento geral da liturgia facilita a tarefa do artista, que se verga quase por instinto às suas exigências.

Assim, nos nossos dias o altar está a maior parte das vezes mais elevado, para permitir aos fiéis seguir com a vista as cerimônias.

Outrora, era sobretudo através do canto e das orações vocais que os fiéis a elas se associavam, donde o extremo cuidado com a acústica: alternância das arcadas, ordenação das abóbadas, etc.

Sobretudo há o problema da luz. Certas épocas preferiram igrejas sombrias, pois considerava-se que a obscuridade favorece o recolhimento.

Mas na Idade Média se amava a luz, e a grande preocupação foi ter santuários cada vez mais claros.

Pode-se dizer que todas as descobertas da técnica arquitetônica tenderam a possibilitar mais espaços livres na construção, para que as imensas vidraças pudessem deixar passar cada vez mais sol e iluminar sempre melhor o esplendor do ofício religioso.

Em Beauvais, por exemplo, a parede serve apenas para enquadrar as partes de vitral, e o faz com uma ligeireza assustadora, excessiva mesmo, já que o edifício nunca pôde ser continuado para além do transepto.

No entanto, mais ainda do que a beleza, a solidez é que era visada. Nada se compreendeu de uma catedral gótica antes de se saber que o volume de pedra enterrado no solo, para o trabalho das fundações, ultrapassa o da pedra erguida para o céu.

Sob essa aparente fragilidade, sustentando as gráceis colunetas e as flechas rendilhadas, esconde-se uma poderosa armação de pedra, obra paciente e robusta.

Todas as obras da Idade Média possuíam sólida fundação, que não se descobre à primeira vista, tal é a ligeireza e a fantasia com que sabe ocultar-se.

Sob a aparente fragilidade de gráceis colunetas e flechas rendilhadas, esconde-se uma poderosa armação de pedra. Catedral de Rouen, França.
Sob a aparente fragilidade de gráceis colunetas e flechas rendilhadas,
esconde-se uma poderosa armação de pedra. Catedral de Rouen, França.
Quanto à decoração, também a beleza não provém senão da utilidade.

Não há pormenor de ornamentação que não esteja submetido a um pormenor de arquitetura, nada é deixado ao acaso naquilo que nos parece pura exuberância de imaginação.

Em certas igrejas os painéis esculpidos seguem rigorosamente a disposição do aparelho. É muito visível em Reims, no famoso baixo-relevo da Communion du Chevalier (Comunhão do Cavaleiro).

Zomba-se por vezes da rigidez, da “ingenuidade” (sempre ela!) de certas estátuas, como as que ornamentam o pórtico de Chartres, mas trata-se na realidade de uma rigidez intencional, de nenhum modo rígida, uma vez que a estátua mais não é do que a animação do fuste, devendo as suas linhas subordinar-se às linhas retas e apertadas de uma fileira de colunas.

Quando contemplamos essas pedras cinzentas das nossas catedrais, e as suas esculturas, somos tentados a ver nelas o triunfo do desenho, mas de fato a cor explodia em toda parte.

Não apenas nas pinturas ou no vitral, mas também na pedra.

Não é exato falar-se do tempo em que as catedrais eram “brancas”, pois nelas a explosão da cor, tanto no interior como no exterior, prolongava a da luz. Era um mundo cintilante, em que tudo se animava.

É claro que os tons eram sabiamente combinados. Por vezes vivos e exuberantes, vastos frescos cobriam espaços hoje insípidos.

Catedral de Salisbury, Inglaterra: a solidez ancorada na terra e a delicadeza da fantasia requintada
Catedral de Salisbury, Inglaterra: a solidez ancorada na terra
e a delicadeza da fantasia requintada
Um conjunto como o de Saint-Savin, ou os restos de pinturas de Saint-Hilaire de Poitiers, bastam para dar uma idéia do efeito produzido.

Noutros locais, sublinhavam com um simples friso a curva de uma ogiva, faziam sobressair uma aresta ou salientavam uma viga.

Realçavam igualmente as esculturas, não por meio das mornas gradações que fizeram a lamentável reputação dos modernos “objetos de piedade”, mas com tons francos fazendo corpo com a pedra.

Os seus vestígios, infelizmente demasiado raros, manifestam a mestria com que a Idade Média soube manejar a cor, e a ousadia com que a utilizou.

Nas suas catedrais, mais uma vez, o mundo medieval é um mundo colorido.

Infelizmente, é raro encontrar nelas os quadros e as estátuas pintadas que outrora as ornavam, sendo que nos museus eles estão arrancados do seu enquadramento e colocados em condições totalmente diferentes daquelas para que foram criados.

Vitrais como os de Chartres ou de Saint-Denis, por exemplo, nos permitem imaginar a intensidade e a perfeição das cores medievais, confirmando o que se pode ver em manuscritos de miniaturas, ciosamente guardados (talvez ciosamente demais) nas nossas bibliotecas.


(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)


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terça-feira, 6 de janeiro de 2026

YORK: a poesia das flechas inexistentes,
mas imagináveis

York: a poesia das flechas inexistentes
York: a poesia das flechas inexistentes
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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A catedral gótica de York, na Inglaterra, apresenta algumas características que à primeira vista impressionam pouco, mas cuja beleza é preciso saber saborear.

O gosto pelo princípio de unidade e transcendência nos levaria a desejar que as torres terminassem bem mais altas, por uma série de lances menores e com uma ponta altiva e elegante.

Pois não é propriamente segundo o espírito contra-revolucionário uma torre sem ponta, sem uma flecha.

As duas torres do fundo não têm pontas, mas os ângulos estão flanqueados por alguns florões que causam à primeira vista a impressão de torreões.

Flechas inexistentes, mas imagináveis
Flechas inexistentes, mas imagináveis
Onde está a beleza dessas torres?

Pode-se dizer que estão inacabadas, e que não possuem toda a beleza com a qual sonhou para elas o arquiteto.

Mas a beleza própria delas é justamente por não terem cone, pois há nelas algo que nos leva a imaginar as pontas que não existem e a sonhar com elas.

Na ordem da natureza as sombras têm sua beleza, e às vezes são mais belas do que a realidade.

Também os cumes e as pontas inexistentes ficam insinuados, quando a base é feita com talento.

E por meio da insinuação, qualquer um pode formar certa ideia subconsciente daquilo que poderia existir.

Nas duas torres há algo que ajuda a imaginação de quem as vê, a elevar-se até o cone.

De fato, prestando atenção, desprende-se dela certa poesia, que é a do cone inexistente, mas imaginável.

A catedral está rodeada por casas meio ligadas umas às outras, sem muita ordenação, formando um bricabraque de acordo com a fantasia.

O batistério está quase imerso no meio de um emaranhado de dependências da catedral e de casas.

Todo o conjunto é agradável e interessante
Todo o conjunto é agradável e interessante
Há um arvoredo também, meio entrelaçado com as construções.

Nesse conjunto temos o contrário do urbanismo moderno, no qual nada é entrelaçado.

O que fariam os urbanistas contemporâneos?

Derrubariam todo o casario, para a catedral ficar à vista por todos os lados, e substituiriam por uma praça vazia, com gramado e árvores.

Resultado: perderia algo na linha do aconchego, do convívio íntimo entre peças diferentes.

Todo o conjunto é agradável e interessante — diferente do perpétuo quadrilátero das ruas modernas.


(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, excertos de conferência em 22 de maio de 1985, sem revisão do autor. Fonte: Agência Boa Imprensa).


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terça-feira, 22 de julho de 2025

YORK: desponsório com a sublimidade de Deus

York: fachada principal
York: fachada principal
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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Os primeiros cristãos que saíram das catacumbas depois do Edito de Constantino não fizeram uma nova civilização.

Eles simplesmente cristianizaram o Império Romano, aproveitando o que tinha de bom e tirando o que tinha de ruim.

E começaram a viver num contexto cultural católico que entretanto, não era uma nova civilização.

Na Idade Média, a Igreja inspirou um passo a mais. Ela inspirou toda uma nova civilização.

Tudo quanto previamente foi animado pelos católicos foi preservado pela Idade Média. Foi ciosamente recolhido como tesouro precioso.

Mas, foi acrescido algo inteiramente novo. Nasceu assim a grande tradição medieval.

O que foi esse “a mais” que puseram os medievais?

Os católicos medievais fizeram um peculiar desponsório de alma com o sublime.

Em primeiro lugar, eles como que foram especialmente chamados para considerar e ver a sublimidade de Deus.

Em segundo lugar, eles viram a sublimidade total de Deus.

A torre-lanterna típica do gótico normando foi adotada felizmente pelo gótico inglês
A torre-lanterna típica do gótico normando foi adotada felizmente pelo gótico inglês
Quer dizer, como que viram a sublimidade de Deus no seu totum, na sua totalidade e não apenas enquanto refletida num aspecto.

E porque viram a sublimidade de Deus considerada no seu conjunto, a cultura medieval ficou imersa no lirismo do sublime.

Eles ganharam a capacidade de considerar todas as coisas em função do sublime. Eles se identificaram com o sublime.

E esta identificação deu a clave do espírito medieval.

A catedral de York está ali a testemunhar esse desponsório dos católicos medievais com a sublimidade total de Deus.



História e estilo

A Catedral de York (York Minster, em inglês) é a maior catedral de estilo gótico do norte europeu, localizada na cidade de York, Inglaterra.

É a sede do Arcebispo de York e catedral da Diocese de York.

A primeira Igreja no local foi uma estrutura de madeira construída às pressas em 627 para o batismo de Eduíno, rei da Nortúmbria. Uma estrutura de pedra foi completada em 637 por Osvaldo da Nortúmbria e foi dedicada a São Pedro.

Reis da Inglaterra
Reis da Inglaterra no altar
Em 741, a igreja foi destruída por um incêndio. Foi reconstruída como uma estrutura ainda mais impressionante, contendo trinta altares. Houve uma série de arcebispos beneditinos, incluindo Santo Osvaldo, São Wulfstan e São Ealdred.

O estilo ogival nas catedrais tinha chegado na Inglaterra em meados do século XII. Então, o arcebispo Walter de Gray ordenou a construção de uma estrutura gótica que se comparasse à Catedral de Cantuária.

A construção da catedral de York, um dos polos religiosos e culturais da Inglaterra católica, teve início em 1220. Mas, só foi completada e consagrada em 1472.

Tem uma planta em forma de cruz, com uma sala capitular octogonal ligada ao transepto norte, uma torre central e duas torres na frente oeste.

A pedra usada para a construção um calcário de cor branco-creme, extraído na cidade vizinha de Tadcaster.

A catedral tem 148 metros de comprimento e cada uma das suas três torres tem 60 metros de altura. O coro, que tem uma altura interior de 31 metros, só é superado em altura, na Inglaterra, pelo coro da Abadia de Westminster.

É a maior catedral de estilo gótico do norte europeu.

Alguns dos vitrais da Catedral de Iorque remontam ao século XII. A Grande Janela Oriental, com 76 pés de altura, foi criada no início do século XV, sendo o maior exemplo de vitral medieval no mundo.

Outras janelas espetaculares da catedral incluem uma rosácea ornamentada e a janela "Cinco Irmãs", com cinquenta pés de altura. Devido ao grande período de tempo ao longo do qual o vidro foi instalado.

Diferentes tipos de envidraçamento e técnicas de pintura que evoluíram durante centenas de anos podem ser vistas nas diferentes janelas.

Há cerca de 2 milhões de peças individuais de vidro que compõem os 128 vitrais da catedral.

A Reforma Protestante saqueou grande parte dos tesouros da catedral e roubou grande parte das terras da arquidiocese católica que foi supressa e, por fim, usurpada por um arcebispo anglicano cismático.

Só uma vista aérea permite apreciar a grandeza e a beleza da imensa catedral
Só uma vista aérea permite apreciar a grandeza e a beleza da imensa catedral

A rainha anglicana Elizabeth I presidiu um esforço concertado para remover todos os traços da Igreja Católica Apostólica Romana da Catedral. Ocorreram muitas destruições de túmulos, janelas e altares.

Nos séculos XIX e XX foi feito um trabalho de restauração bem orquestrado que continua até os presentes dias.

Video: Catedral de York: maravilha da Cristandade





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terça-feira, 10 de junho de 2025

Gótico: estilo bom para restaurar a sociedade e a religião em crise, ensinou famoso arquiteto inglês – 2

Sala dos Lords, trono da rainha, Pugin
Sala dos Lords, trono da rainha, Pugin
Luis Dufaur
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Continuação do post anterior: Gótico: estilo bom para restaurar a sociedade e a religião em crise, ensinou famoso arquiteto inglês – 1





Pugin levou seu combate para o coração das cidades industriais de Birmingham e Sheffield, as quais achava “minas inesgotáveis de mau gosto”, infestadas de “edifícios gregos, chaminés fumegantes, agitadores radicais e dissidentes”.

A igreja de São Chad, que Pugin construiu em Birmingham no meio da sujeira do bairro dos fabricantes de armas, tornou-se a primeira catedral inglesa construída após a de Saint Paul.

Politicamente, Pugin poderia ser definido como um radical conservador.

A igreja de St Giles em Cheadle é um exemplo da arquitetura de Pugin
A igreja de St Giles em Cheadle
é um exemplo da arquitetura de Pugin
Ele queria reformar a sociedade levando-a de volta a uma hierarquia benigna, a um medievalismo romântico.

Nessa nova ordem medieval cada classe poderia olhar para aquela que lhe era superior e dela receber apoio, enquanto os de cima aceitavam a responsabilidade de proteger os que estavam embaixo.

Em 1841, ele publicou a segunda edição do Contrastes, acrescentando todo um panorama moral.

A cidade medieval, com seus capiteis graciosos e suas sólidas muralhas, era confrontada com o seu equivalente moderno de muros em cacos, capiteis em ruínas e o horizonte dominado por olarias e fábricas.

Seus imitadores – todos eles mais vulgares e despreocupados – lhe roubaram grande parte da clientela.

Seu trabalho no Parlamento de Westminster havia se tornado uma rotina monótona e mal paga.

Por uma triste ironia, seu último projeto, feito em janeiro de 1852, estava destinado a ser o mais famoso: a torre do relógio do Palácio de Westminster, o célebre Big-Ben.

Ele morreu em setembro de 1852, aos 40 anos de idade.


(Fonte: Rosemary Hill, autora de Arquiteto de Deus: Pugin e construção da Grã-Bretanha romântica (Penguin Ed.). Clarin Arquitectura, Buenos Aires, 2012/05/03)


Vídeo: Pugin: o arquiteto de Deus




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