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terça-feira, 19 de novembro de 2019

A catedral: resumo da ordem sublime de Deus
impressa no Universo

Coroação de Nossa Senhora, fachada da catedral de Reims.
Os anjos fazem de assistentes da cerimônia.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Primeiramente, a Idade Média tinha paixão pela ordem.

Os medievais organizaram a arte como tinham organizado o dogma, o aprendizado temporal e a sociedade.

A representação artística de temas sagrados era uma ciência regida por leis fixas, que não podia ser quebrada pelos ditames da imaginação individual.

A arte da Idade Média é uma escritura sagrada, cujos caracteres todo artista deve aprender.

Ele deve saber que a auréola circular colocada por trás da cabeça serve para expressar a santidade, enquanto a aureola com uma cruz é o sinal da divindade e sempre usada para pintar qualquer uma das três Pessoas da Santíssima Trindade.

A segunda característica da iconografia medieval é a obediência às regras de uma espécie de matemática sagrada. Posição, agrupamento, simetria e número são de extraordinária importância.

A simetria era considerada a expressão de uma misteriosa harmonia interior.

O artista fazia o paralelismo dos doze Patriarcas e dos doze Profetas da Antiga Lei e dos doze Apóstolos da Nova, e dos quatro principais Profetas com os quatro Evangelistas.

Esquemas desse tipo pressupõem uma crença fundamentada no valor dos números.

E, de fato, a Idade Média nunca duvidou que os números tivessem relação com o poder divino, oculto a nossos olhos.

São Lucas Evangelista é representado pelo boi. Catedral de Reims, detalhe da fachada.
São Lucas Evangelista é representado pelo boi.
Catedral de Reims, detalhe da fachada.
O boi era sacrificado no Templo de Jerusalém e São Lucas
nos fala dos sofrimentos que padeceu Nosso Senhor.
Esta doutrina vinha dos Padres da Igreja, que a herdaram das escolas antigas e fez reviver o gênio de Pitágoras.

É evidente que Santo Agostinho considerava os números como os pensamentos de Deus.

Em muitas passagens ele afirma que cada número tem seu significado divino.

“A Sabedoria Divina é refletida nos números e está impressa em todas as coisas”.

Da mesma forma, o edifício do mundo material e do mundo moral está baseado nos números eternos.

Nós sentimos que o encanto da dança está no ritmo, quer dizer, no número; mas temos de ir mais longe, a beleza é em si uma cadência, um número harmonioso.

A ciência dos números então é a ciência da ordem do universo, e os números nos ensinam sua ordem profunda.

Alguns exemplos nos fornecem certa ideia do método. De Santo Agostinho em diante todos os teólogos interpretaram o significado do número doze da mesma forma.

Doze é o número da Igreja universal, e foi por razões profundas que Jesus quis que o número de Seus apóstolos fosse doze. Agora, doze é o produto de três vezes quatro.

Apóio para as leituras sagradas, catedral de Reims. Ouvindo a palavra de Deus, a alma deve se elevar aos Céus como a águia que levanta vôo.
Apoio para as leituras sagradas, catedral de Reims.
Ouvindo a palavra de Deus, a alma deve se elevar aos Céus
como a águia que levanta vôo.
Três, que é o número da Trindade e, por consequência, da alma feita à imagem da Trindade, simboliza todas as coisas que são espirituais.

Quatro, o número de elementos, é o símbolo de coisas materiais – o corpo e o mundo – que resultam de combinações dos quatro elementos.

O significado místico da multiplicação de três por quatro é a infusão do espírito na matéria, de proclamar as verdades da fé para o mundo, para estabelecer a Igreja Católica, de que os Apóstolos são o símbolo.

Os Doutores que comentaram a Bíblia nos ensinam que, se Gedeão partiu com trezentos companheiros, não foi sem alguma razão simbólica e que o número esconde um mistério.

Em grego, trezentos é representado com a letra Tau (T).

Mas o T é a figura da Cruz; portanto, por trás de Gedeão e de seus companheiros, devemos ver Cristo e a Cruz.

A Divina Comédia de Dante é o exemplo mais famoso, pois está ordenada em função de números.

Os nove círculos do inferno correspondem aos nove terraços do monte do Purgatório e aos nove céus do Paraíso.

Nesse poema inspirado, nada foi deixado apenas à inspiração; Dante determinou que cada parte de sua trilogia deveria ser dividida em trinta e três cantos, em homenagem aos 33 anos da vida de Cristo.

Dante aceitava a lei que rege os números como um ritmo divino, ao qual o universo obedece.


(Autor: Émile Mâle, The Gothic Image: Religious Art in France of the Thirteenth Century, New York, Harper, 1958, pp 1-2, 5, 9-15, 29).


continua no próximo post: O simbolismo divino na arte e na natureza visto pela Idade Média



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terça-feira, 22 de outubro de 2019

Vitrais da catedral de REIMS:
Luz que convida à contemplação

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
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Chamamos as obras do engenho humano de “netas” de Deus porque, sendo a alma humana filha de Deus, aquilo que o espírito humano engendra é “neto” de Deus.

Engendrando os “netos” de Deus, que são as verdadeiras obras de arte, o homem prepara-se para, quando comparecer diante do eterno Juiz, eterna Verdade e eterna Beleza, voar de entusiasmo rumo a Ele.

Não vou elogiar aquilo que salta aos olhos: a harmonia magnífica dessa esplêndida “neta” de Deus, que é a catedral de Reims, onde se coroavam os reis de França.

No interior desse templo religioso podemos admirar rosáceas tão bonitas, que dir-se-ia ter sido o prédio construído para dar sustentação à beleza delas.

É verdade que as rosáceas existem para que a luz entre no interior do edifício, mas não a luz clara de todos os dias, e sim a luz um pouco coada, um tanto filtrada, que convida à contemplação e cria um ambiente místico de recolhimento.

Além disso, os medievais aproveitavam os vitrais para representação de cenas da história da Igreja, de histórias do Antigo e do Novo Testamento e de mil símbolos da doutrina católica, para ensinar os povos por meio de figuras.

As catedrais eram denominadas na Idade Média "bíblias dos analfabetos".

Uma pessoa que não soubesse ler e escrever podia compreender toda a História Sagrada através dos vitrais!





Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, 10 de fevereiro de 1974. Sem revisão do autor.


Vídeo: Vitrais da catedral de Reims






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terça-feira, 8 de outubro de 2019

A Sainte-Chapelle: arca cheia de tesouros

Sainte Chapelle: capela inferior para os domésticos do Palacio real.
Sainte Chapelle: capela inferior para os domésticos do Palácio real.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
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A Sainte-Chapelle é uma capela gótica situada na Ilha de la Cité em Paris.

Iniciada em 1246, foi consagrada em abril de 1248.

Foi construída no século XIII por São Luís IX. O patrono foi esse santo rei francês.

Ele a destinou para capela do palácio real.

Ela foi feita para ser um imenso relicário: o da coroa de espinhos de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Sainte Chapelle construída no século XIII por São Luís IX.
Sainte Chapelle construída no século XIII por São Luís IX.
São Luís fez vir a Coroa com enorme despesa.

O rei santo assumiu as dívidas de Bizâncio por 135.000 libras, mas a construção da capela custou “só” 45.000.

Hoje a Coroa de espinhos está na catedral Notre-Dame.

A Sainte-Chapelle está encravada no Palácio da Justiça e se compõe de duas capelas sobrepostas.

A inferior era destinada aos domésticos e funcionários do palácio.

A parte superior era destinada para a família real e sua corte.

Os vitrais são emoldurados por delicado trabalho em pedra.

A Revolução Francesa instalou nela um tribunal terrorista.

Veja vídeo
Sainte Chapelle:
imenso relicário
feito de vitrais
Os vitrais foram tapados com enormes armários; os assentos do coro e o painel do altar foram destruídos; o pináculo do teto foi deitado abaixo, e muitas das relíquias foram dispersas.

No século XIX, Viollet-le-Duc iniciou a restauração a Sainte-Chapelle, mas os trabalhos continuam até os presentes dias.

Se tirarmos os vitrais, só resta uma caixa: uma estrutura de pedra

Como esses muros sustentam os arcos e o teto? O segredo do prédio está na estrutura

A capela inferior com dupla série de colunetas e arcos ogivais forma um alicerce sólido para o edifício.
Sainte Chapelle: capela superior
Sainte Chapelle: capela superior

14 colunas de pedra formam a estrutura da capela superior onde os vitrais dissimulam a espessura da pedra, criando uma urna de vidro.

Eis o golpe de gênio: dois cintos de ferro reforçam a pedra. É o segredo material do edifício. Por vez primeira foram associados ferro e pedra.

Pináculos e teto estabilizaram os muros e só restou então reforçar o edifício com uma imponente fachada

Sainte Chapelle: capela superior
Sainte Chapelle: capela superior
Em algumas construções góticas desponta o sonho de abolir o granito e transformar tudo em cristal. Esse sonho germina na Sainte-Chapelle de Paris.

Ela conserva apenas a pedra necessária para suportar o teto e servir de encaixe para os vitrais.

Se quem a concebeu pudesse fazer um edifício todo de cristal, sentir-se-ia realizado.

A alma do medieval era como uma arca cheia de tesouros. Ele ia tirando tesouro por tesouro, porque sua alma era profundamente católica.

Isso lhe vinha da devoção filial, enlevada e varonil a Nossa Senhora. Por meio d’Ela, o medieval subia como um jato para Jesus Cristo.

O medieval foi manifestando essas riquezas até chegar por fim ao gótico.

O que mais faltava?

Ele atingiu a perfeição que enche de paz a alma católica.


Vídeo: Sainte-Chapelle: imenso relicário feito de vitrais



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terça-feira, 24 de setembro de 2019

Nossa Senhora de Las Lajas:
um santuário neomedieval fora da Idade Média!

Nossa Senhora de Las Lajas, Ipiales, Colômbia
Nossa Senhora de Las Lajas, Ipiales, Colômbia
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
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A história que vamos reproduzir embaixo não é da Idade Média, mas bem poderia sê-lo. Pois, a Idade Média não é apenas uma era histórica, mas também uma categoria moral, religiosa, social, cultural e de devoção a Nossa Senhora!

Las Lajas quer dizer, em português, As Lajes. A pintura ao lado está impressa num rochedo existente numa gruta localizada ao sul do território colombiano, junto à fronteira do Equador.

São reproduzidas nesta contracapa as duas figuras principais. É um como que quadro. Tem todas as características de ter sido pintado mediante o concurso de um anjo.

Qual é a beleza da referida pintura?

Devemos distinguir nela dois aspectos: as pessoas de Nossa Senhora e Nosso Senhor, e o colorido.

O colorido todo expressa uma idéia de realeza muito pronunciada. As cores de fundo do quadro são faustosas.

Por outro lado, esse vermelho – que tende para o vinho – do traje de Nossa Senhora é uma cor quente, rica, sendo toda essa vestimenta bordada a ouro, o que reforça também a impressão de um traje de rainha.

O santuário de Nossa Senhora de Las Lajas, em Ipiales, Colômbia
O santuário de Nossa Senhora de Las Lajas, em Ipiales, Colômbia
* * *

Quanto às pessoas de Nossa Senhora e do Menino Jesus, chama a atenção primeiramente a grande coroa na cabeça da Mãe de Deus, que não figurava na pintura original.

Tão grande que se diria exagerada, se não estivesse tão bem calculada. Não fica pesada demais, mas é a maior que poderia ser. É impossível imaginar uma coroa maior do que essa para a figura que a porta.

Detalhe curioso é a cabeleira da Virgem Santíssima. Os cabelos d’Ela estão soltos, mas de tal maneira que parecem um manto real.

Há um bom gosto, uma noção de majestade e uma arte na disposição desses cabelos, que é uma coisa extraordinária.

Na fisionomia de Nossa Senhora, merece ser ressaltada a altaneria da cabeça. Ela olha de cima, de um modo sério e investigador, de quem deseja ser obedecida.

É fisionomia de Mãe, mas de uma Mãe que foi pintada numa hora em que não está sorrindo.

Ela não está fixando o olhar com expressão de ameaça ou reprimenda, mas está com a disposição de alguém que, se notar qualquer coisa de errado, passa um pito ou faz uma advertência. É uma realeza exercida com força.

Por outro lado, o Menino Deus está portando uma coroa – igualmente acrescentada à pintura original – também muito grande para a sua cabeça, mas não desproporcionada.

Interior do santuário com a imagem miraculosa no fundo
Interior do santuário com a imagem miraculosa no fundo
Ele está muito amavelmente voltado para quem reza. Ao invés do quadro clássico – o Menino Jesus sério e Nossa Senhora risonha – nota-se o contrário: Ele se distrai com o laço voltando-se para o pecador, enquanto sua Mãe está séria.

O que representa uma troca de posições, parecendo inverter-se o papel da Medianeira. Na realidade, o pensamento que aí está expresso é muito profundo:

Ele é misericordioso porque está sentado no trono da misericórdia – nos braços de Nossa Senhora. Se assim não fosse, Ele não exprimiria tal misericórdia extraordinária, essa alegria de dar e sorrir.

* * *

No total, o que há de mais interessante no quadro é que, depois de se ter olhado para o Divino Infante e Sua Mãe Santíssima, percebe-se como a maternidade d’Ela está expressa na pintura.

Parece que Ela não está prestando uma atenção próxima no Menino, mas há uma intimidade enorme entre os dois. Nossa Senhora O sustém, como uma mãe carrega um filho inteiramente chegado a Ela, para deixar claro seu sentimento materno. Senso materno, por conseguinte, voltado para o pecador, de quem Ela também é Mãe.

Nossa Senhora Rainha e Mãe: é o que expressa admiravelmente esse quadro, que eu considero verdadeiramente uma obra-prima no gênero.

(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, excertos de conferência em 19.10.1974. Sem revisão do autor).


Origem do quadro de Nossa Senhora de Las Lajas

A índia Maria Mueses com Rosa, sua filha cega miraculosamente curada
A índia Maria Mueses com Rosa,
sua filha cega miraculosamente curada
No século XVIII, depois de vários fatos sobrenaturais ocorridos numa gruta nas ladeiras de Las Lajas, a índia Maria Mueses de Quiñones, (ao lado, uma imagem sua, carregando sua filha Rosa) descendente dos caciques de Potosí, encontra sua filhinha de joelhos venerando um quadro da Virgem, tendo nos braços o Menino Jesus e ladeada por São Francisco e São Domingos. A festa se comemora no 16 de setembro

Informados do ocorrido, os habitantes do local acorreram para venerar a Virgem, logo denominada de Las Lajas. Em fins do século XIX, foi construído um magnífico Santuário em estilo gótico no local.

Detenha-se o leitor na consideração desta fisionomia da Santíssima Virgem. Porte majestoso, régio, ao mesmo tempo maternal, acessível.

Fronte reluzente de uma superior inteligência. Nariz encantador com traçado firme. Lábios bem talhados que denotam decisão. Cabelos negros característicos de uma latino-americana.

Sobrancelhas altas, emoldurando olhos igualmente negros, penetrantes, que parecem sondar as regiões recônditas da alma de quem os fita. Mas ao mesmo tempo, revelam a grandeza dAquela que é Esposa do Divino Espírito Santo.

Nossa Senhora de Las Lajas, Ipiales, Colômbia
Nossa Senhora de Las Lajas, Ipiales, Colômbia
Tudo aí é bem proporcionado, manifestando um superior equilíbrio. E o Menino Jesus segura um cordão, parecendo distrair-se com ele a fim de que as atenções se voltem com mais empenho para a Medianeira de todas as graças.

Quem teria pintado com tanta maestria este quadro? Em que museu famoso estará ele exposto?

Pintou-o não um artista comum, mas celeste mão, talvez de um Anjo, tendo sido a milagrosa obra de arte descoberta em meados de século XVIII.

E como tela escolheu lajes brutas de um desfiladeiro ignoto da Colômbia, nas cercanias da cidade de Ipiales, penetrando-as com misteriosa tinta que, ainda que se raspe ou talhe profundamente a pedra, lá se encontram sempre as mesmas cores e matizes.

Este é o milagre estupendo, permanente, que se pode observar em Las Lajas, o Santuário onde se encontra a referida obra prima do celeste Autor.




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