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quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Catedral gótica: síntese da fé em movimento

Catedral de Toledo, Espanha
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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“A catedral gótica, diz Charles Morey, é de fato o equivalente arquitetônico da síntese escolástica; como esta ultima resolveu pela dialética os problemas impostos pela fé, assim também os arquitetos do século XIII atingiram uma unidade integrada num conjunto de infindáveis detalhes, apesar de sua procura de espaço indeterminado.

É o espaço gótico, na arquitetura gótica, que finalmente determina seu efeito. O movimento e subtil comunicação com o espaço exterior, que dá a impressão de ligar o observador com o infinito, são potentes fatores na levitação espiritual que um interior gótico pode proporcionar; mas que ele proporciona em completa medida somente quando reforçado por sua panóplia de vitrais”[1].

O espaço gótico deixa de comensurável, de regularidade geométrica, como nos antigos interiores bizantinos, para apresentar irregular em volume e expansão.

Não se isola da amplidão exterior, mas a ela se une pelo faiscar das luzes através do clerestorio, perdendo-se o olhar pelas sombras das abobadas, pelo caprichoso emaranhar dos arcos ogivais. Em suma, é um espaço de movimento.

Catedral de Le Mans, arcobotantes
E ao mesmo tempo que o interior é místico, há perfeita ordenação racional na construção e na composição arquitetônica.

Em seu aspecto técnico, reduz-se o estilo gótico ao sistema de abobadas nervuradas por meio de arcos ogivais cruzados.

Não se deve, porém, confundir a história da arte gótica com a da abobada ogival, embora a ogiva seja uma característica essencial da nova arte que haveria de conquistar toda a Europa cristã.

Outro elemento típico do gótico é o arcobotante, que segundo a concepção dos arquitetos medievais se destinava a exercer a função técnica de transmissão do empuxo das abobadas da nave central para os contrafortes.

O sistema gótico de arcobotante não era novo, porém, no sentido construtivo. A novidade consistiu em havê-los feito visíveis em lugar de mantê-los ocultos sob as coberturas ou disfarçados nas muralhas.

Tal visibilidade é a franca afirmação estética de uma necessidade construtiva, que a sinceridade gótica transformou em expressão artística.


Continua no próximo post: A catedral gótica, musica solidificada


(Fonte: Catolicismo, Junho de 1960, Nº 114)



[1] Charles Rufus Morey, “Mediaeval Art”, Ed. W.W. Norton e Co., Inc., Nova York, 1942, pp. 265 a 266.



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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Origem do gótico

Catedral Notre Dame de Amiens
Catedral Notre Dame de Amiens
Luis Dufaur
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O gótico surge como fruto de um movimento iniciado na “Ile de France”, verdadeiro núcleo geográfico dessa arquitetura e também da escolástica.

Dali se irradia, tomando características locais, mas mantendo sempre seus elementos fundamentais.

Um circulo de cinquenta léguas, ou aproximadamente 330 quilômetros, traçado de Paris como centro, abarca senão todas as igrejas ogivais do primeiro período, pelo menos aquelas em que a arte gótica primitiva se manifesta com toda a exuberância e em todo o seu esplendor.

É ali que, segundo todos aceitam, começa a alta escolástica por volta do século XII, justamente quando o sistema do alto gótico lograva seus primeiros triunfos em Chartres e Soissons; e ali é que se chegou a uma fase decisiva ou clássica em ambos os campos durante o reinado de São Luiz (1226 – 1270).

Foi no dito período que floresceram, entre os filósofos da alta escolástica, figuras como as de Alexandre de Hales, Alberto Magno, Guilherme de Auvergne, São Boaventura e São Tomás de Aquino.

Igreja de St-Germer-de-Fly
Também arquitetos do alto gótico entre os quais se contavam Jean de Loup, Jean de Orbais, Robert de Luzarches, Jean de Challes, Hugues Libergier e Pierre de Montereau; e os rasgos distintivos da alta escolástica – para diferenciá-la da primitiva – são notavelmente semelhantes aos que caracterizam a arte do alto gótico, diferenciando-o do gótico primitivo”[1].

Da França, em 1175, o novo estilo, passa para a Inglaterra com o mestre Guilherme de Sens, incumbido da reconstrução da catedral de Canterbury. Na Alemanha a influencia gótica far-se-ia sentir mais tarde.

No século XII ali ainda floresce a arquitetura românica. E só  século XIII o estilo ogival atingiria a Itália e outros países da Europa meridional.

No inicio o gótico era um estilo arquitetônico essencialmente religioso.

A casa permanecia românica, mais é que ele se espraia pelos palácios e pelos edifícios públicos, em sua incrível plasticidade.

Não é sem razão que Ruskin considera “de certo ponto de vista, o gótico não somente é melhor, mas a única arquitetura racional”[2], aquela que pode adaptar-se mais facilmente a todos os fins, dos mais nobres aos mais triviais.

Igreja abacial de Saint-Denis, Paris
Esse era o juízo de um homem que não era católico, antes pelo contrario, e que cometeu grandes injustiças contra a verdadeira Igreja em mais de um lugar de sua vasta obra de critico de arte.

Dobra-se, porém, reverente diante desse estilo arquitetônico gerado nas entranhas da Cristandade, numa época em que a unidade católica atingia seu apogeu.

O que caracteriza a primeira fase da arte gótica é o impulso para as alturas, a ascensão para o céu, não somente através de suas torres vertiginosas, mas, sobretudo no arrojo vertical de seus interiores, com a criação de um novo sentimento de espaço e a preponderância dos vãos sobre os maciços das muralhas e das paredes de pedra.


Continua no próximo post: Catedral gótica: síntese da fé em movimento

(Fonte: Catolicismo, Junho de 1960, Nº 114)


[1] Erwin Panofsky, “Arquitetura gótica e escolástica”, Versão castelhana, Ed. Infinito, Buenos Aires, 1959, p. 12.
[2] John Ruskin, “The Stones of Venice”, Ed. Allen e Unwin, Londres, 1925, Vol. II.  



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quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

O ódio ao gótico é ódio à Igreja Católica

Catedral de Bourges, França
Luis Dufaur
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A civilização medieval foi um todo orgânico e coeso, em suas partes. E seus inimigos não deixam de proclamá-los ao reconhecer essa identidade de espírito que uniu o gótico à escolástica.

Quando não vão frontalmente contra a Igreja, que foi a verdadeira criadora dessa civilização, investem ora contra a escolástica, ora contra o gótico, mas sabem que, atacando um, atingiram também os outros.

A revolução religiosa, política e social dos Tempos Modernos teve como uma de suas primeiras brigadas de choque o humanismo renascentista, que atuou sobretudo no campo estético.

E vem da Renascença a palavra “gótico”, tomada em sentido pejorativo, para designar algo de bárbaro, de grosseiro, que cumpria substituir pelas belezas do classicismo neopagão.

Semelhante ódio a essa expressão estética da civilização católica aparece, através dos séculos, junto a outras formas de destruição revolucionária.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Arquitetura gótica:
a teologia católica escrita com pedra

Catedral de Sens
Luis Dufaur
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Tudo vale quando se trata de demolir o que se apresenta como um tropeço à Revolução em marcha.

É comum essa má vontade em relação à arte medieval. Citemos como exemplo “The Architectural Review”, que se publica em Londres, dedicou um número especial ao gótico.

Em sua apresentação, afirmam os editores claramente que tal manifestação de interesse pela arte ogival “só se tornou possível pelo agora indisputável estabelecimento do movimento moderno como o estilo próprio de nosso século”.

Por outras palavras, pode-se falar agora abertamente do gótico, porque teria passado perigo de qualquer tentativa de restaurá-lo, estaria ele irremediavelmente morto e enterrado sob o chão duro em a arquitetura moderna orgulhosamente ergue seus mastodontes de concreto armado.

Uma surpresa, porém aguarda o leitor desprevenido. Era de esperar que publicada na terra das maravilhosas catedrais de Canterbury, de York, de Salisbury, de Peterborough, a revista se valesse desses monumentos para ilustrar os textos.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Majestade, força e seriedade: a catedral de BREMEN


Luis Dufaur
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A catedral de Bremen tem qualquer coisa de majestoso, de forte e de sério, que lembra um dos aspectos da Igreja Católica: Sua divina severidade.

Cada igreja, quando é bem construída, espelha um aspecto da “alma” da Religião Católica.

E na catedral de Bremen está expressa a solidez e a severidade da Igreja Católica.

Duas lindas torres, muito altas com o mesmo jogo do verde que se repete em cima.

Como efeito ótico, a Catedral tem duas simetrias; uma se perde meio no céu, e a outra é da pedra destacado pelo verde.

São dois golpes de vista distintos que coincidem no mesmo edifício.

E o atarracado e o severo está na parte central do edifício que fica como que esmagada entre as duas torres.

As torres cravam o pé no chão como que diz:

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O rosto de Jesus Cristo
impresso nas catedrais medievais

Luis Dufaur
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“Eu não posso me esquecer que uma das viagens que eu fiz a Paris, eu cheguei à noitinha. Jantei, e fui imediatamente ver a Catedral de Notre-Dame.

Era uma noite de verão, não extraordinariamente bonita, comum.

A Catedral estava iluminada, e o automóvel em que eu vinha passava da rive gauche para a ilha, e eu via a Catedral assim de lado, e numa focalização completamente fortuita.

Ela me pareceu desde logo, naquele ângulo tomado assim, se acaso existisse ‒ em algum sentido existe ‒ eu diria que é tomado ao acaso, eu olhei e achei tão belo que eu fiquei com vontade de dizer ao automóvel:

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

A missão divina dos povos europeus expressa em suas catedrais

Catedral de Veneza
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Deus encravou a Sede de São Pedro na Itália com tudo o que isso significa de supremo dentro da Igreja Católica.

E fez da Itália a nação eclesiástica por excelência. Nela reside como num berço glorioso o governo das almas no mundo.

Do verdadeiramente máximo governo: aquele que conduz as almas ao Céu.

E, num sentido minor, ali está a pedra de escândalo que afasta do Céu as almas dos precitos revoltados, heréticos ou revolucionários que não querem saber do esplendor da verdade, do bem e da beleza suprema.

O conúbio com a Igreja é tal, que foi comuníssimo na história que o Cardeal fosse italiano ou o próprio Papa ser habitualmente italiano.

E isso muito harmonicamente, foi visto como uma coisa conatural à Igreja.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

A Tour Saint-Jacques, de PARIS


Luis Dufaur
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A Torre de São Tiago (Tour Saint-Jacques) é, há séculos, ponto de chegada e partida dos romeiros para Santiago de Compostela.

Compostela fica a 1551 quilômetros de Paris, e a peregrinação a pé, hoje, consome mais de dois meses.

A Torre é tudo o que fica da venerada igreja de Saint-Jacques-de-la-Boucherie.

A Chronique de Turpin (século XI) diz que o templo foi fundado por Carlos Magno.

A Torre de 52 metros era o sinal para aos peregrinos.

Veja vídeo
A torre dos romeiros de Paris:
Tour Saint-Jacques
Eles vinham do norte da Europa e seguiam para o sul pelo “caminho francês”.

O “caminho francês” passa por santuários do centro da França, antes de atravessar os Pirineus e entrar na Espanha.

A Torre foi construída em gótico flamboyant nos anos 1509-1523 sob o reinado do rei Francisco I.

Até hoje peregrinos percorrem a pé o “caminho de Compostela” e recebem atestado oficial de romeiros que favorece a expedição.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

A “Bíblia dos pobres” para o “santo povo de Deus”

Catedral de Chartres: o anjo (acima à esquerda)
segura Abraão no momento que ia sacrificar Isaac (embaixo, direita)
Luis Dufaur
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A arte na Idade Média tinha uma dimensão essencialmente didática.

Tudo o que era necessário o homem conhecer – a história do mundo desde a Criação, os dogmas da religião, os exemplos dos santos, a hierarquia das virtudes, o alcance das ciências, artes e ofícios ‒ todas essas coisas eram ensinadas nas janelas da igreja ou nas estátuas dos pórticos.

O nome de Biblia PauperumBíblia dos pobres – que os impressores do século XV deram a um de seus primeiros livros pode ser bem atribuído às catedrais e igrejas.

Nelas, o simples, o ignorante, todos aqueles que pertenciam à chamada “sancta plebs Dei” ‒ a santa plebe de Deus ‒ aprendiam com seus olhos quase tudo o que sabiam sobre sua fé.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Sentimentos que inspiram as grandes igrejas da Idade Média

Capela do College de Exeter, Grã-Bretanha.
Capela do College de Exeter, Grã-Bretanha.
Luis Dufaur
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Comparando as obras arquitetônicas dos últimos três séculos com as da Idade Média, a maravilhosa superioridade desta última deve impressionar todo observador atento, escreveu o célebre criador do Big Ben A.W.Pugin.

A mente é levada naturalmente a refletir sobre as causas que produziram esta imensa mudança, e esforçar-se para rastrear a queda de gosto arquitetônico, a partir do período de seu primeiro declínio até os dias atuais.

O grande teste de beleza arquitetônica é a adequação do projeto ao fim a que se destina.

O estilo de um edifício deve corresponder ao uso para o qual foi criado e o espectador deve perceber logo de vez o objetivo para o qual foi erguido.

Agindo sobre este princípio, diferentes nações deram origem a muito variados estilos de arquitetura, cada um adequado a seu clima, costumes e religião.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Edifícios nobres da Idade Média
ou prédios de gosto decadente de hoje?

Pugin: o estilo gótico exprime as verdades do culto católico. Igreja de São Domingos em Londres.
Pugin: o estilo gótico exprime as verdades do culto católico.
Igreja de São Domingos em Londres.
Luis Dufaur
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Em seu histórico ensaio “Contrastes”, o arquiteto A. W. Pugin que desenhou o Big Ben de Londres, faz um paralelismo entre os edifícios nobres da Idade Média, notadamente os religiosos, e os modernos prédios de gosto decadente que predominam hoje.

Eis alguns excertos livres:


A arquitetura influencia a fé dos fiéis que frequentam o templo. Isso é particularmente sensível nas igrejas católicas onde todos os elementos arquitetônicos são concebidos em função dos ensinamentos e da liturgia da Igreja.

Nelas a bênção da graça divina se torna como que sensível, toca os corações falando uma linguagem toda especial e como que pessoal para cada um.

Essa influencia da graça de Deus está ligada muitas e muitas vezes a esta ou aquela imagem, a este ou aquele vitral.

É porque esses elementos artísticos transmitem um mundo de imponderáveis, de valores e sentimentos inefáveis.

Foi por isso que o protestantismo logo se assanhou contra a arquitetura e a arte católica, seus templos, imagens e símbolos.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A ciência dos números e a harmonia do universo no templo de suprema beleza

Relógio astronômico da catedral de Lund, Suécia
Relógio astronômico da catedral de Lund, Suécia
Luis Dufaur
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A construção das catedrais participa da ciência dos números, esses números que são a harmonia do mundo, e que foram consagrados pela liturgia católica.

0 3 é o algarismo da Trindade, algarismo divino por excelência, que reconduz tudo à unidade e representa as três virtudes teologais.

0 4 é o algarismo da matéria: dos quatro elementos; dos quatro temperamentos humanos; dos quatro evangelistas tradutores da palavra de Deus; das quatro virtudes cardeais, que devem ser praticadas pelo homem na condução da sua vida terrestre.

0 7, que alia o divino ao humano, é o algarismo de Cristo, e depois dele o algarismo do homem resgatado: os quatro temperamentos físicos unidos às três faculdades mentais (intelecto, sensibilidade, instinto).

Ao mesmo tempo, uma outra combinação de 3 e 4 dá 12, o algarismo do universo, dos doze meses do ano, dos doze signos do zodíaco, símbolo do ciclo universal.

O nosso sistema métrico não tomou em conta esses “números-chave”, mas deve-se observar que a atual numeração, um tanto abstrata e rudimentar, não conseguiu adaptar-se, por exemplo, às fases solares e lunares, e continua a ser suplantada em quase toda parte, nos campos, por medidas ao mesmo tempo mais simples e mais sábias.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A natureza refletida nas pedras e vitrais da catedral

Cena com elementos do campo num vitral da catedral de Chartres
Cena com elementos do campo num vitral da catedral de Chartres
Luis Dufaur
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Além dos temas de decoração propriamente religiosos — cenas bíblicas que mostram as correspondências do Novo Testamento com o Antigo, pormenores da vida da Virgem e dos Santos, quadros grandiosos do Juízo Final ou da Paixão de Cristo — os pintores e escultores tiraram largo partido do que a natureza lhes punha diante dos olhos.

Toda a flora e fauna do nosso país renascem sob o pincel ou o cinzel, com precisão e golpe de vista de um naturalista, aliados ao que a fantasia lhes sugeria.

Foi possível estudar nos pórticos das catedrais as diferentes espécies reproduzidas e descobrir flores e folhagens da Ilha de França: aqui em botão, lá em pleno desabrochar, acolá sob o aspecto recortado da folhagem outonal.

Utilizaram com igual à-vontade os motivos de decoração geométrica — folhagens, entrançados, animais estilizados — cujo modelo lhes havia sido fornecido pelo Oriente, e que os monges irlandeses tinham feito renascer com exuberância singular nas suas miniaturas.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

MILÃO: catedral no cerne da Igreja universal

Fachada
Luis Dufaur
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A catedral de Milão é uma tal obra de arte e tem uma tal importância na História da Igreja Universal que tudo o que toca nela afeta a Igreja Universal.

É uma catedral de uma cidade cuja importância envolve o bem geral da Igreja.

Mas ela não apareceu do nada. Ela de alguma maneira já nasceu nas almas dos primeiros cristãos.

Com efeito, desde o momento da descida do Espírito Santo em Pentecostes até o ponto mais alto da Idade Média, a grande linha geral da Igreja foi de um crescimento contínuo.

Embora houvesse fases de crise, de decadência, essas foram episódicas e sem reflexo na linha geral da História da Igreja.

Os declínios foram seguidos por progressos em que a Igreja cresceu muito em formosura.

Assim, o anseio que palpitava nas almas dos católicos das catacumbas acabou se explicitando enormemente na Idade Média.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

A catedral e a luz imaterial do sacrifício litúrgico perfeito

Missa numa capela lateral de uma catedral
Missa numa capela lateral de uma catedral
Luis Dufaur
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O conhecimento geral da liturgia facilita a tarefa do artista, que se verga quase por instinto às suas exigências.

Assim, nos nossos dias o altar está a maior parte das vezes mais elevado, para permitir aos fiéis seguir com a vista as cerimônias.

Outrora, era sobretudo através do canto e das orações vocais que os fiéis a elas se associavam, donde o extremo cuidado com a acústica: alternância das arcadas, ordenação das abóbadas, etc.

Sobretudo há o problema da luz. Certas épocas preferiram igrejas sombrias, pois considerava-se que a obscuridade favorece o recolhimento.

Mas na Idade Média se amava a luz, e a grande preocupação foi ter santuários cada vez mais claros.

Pode-se dizer que todas as descobertas da técnica arquitetônica tenderam a possibilitar mais espaços livres na construção, para que as imensas vidraças pudessem deixar passar cada vez mais sol e iluminar sempre melhor o esplendor do ofício religioso.

Em Beauvais, por exemplo, a parede serve apenas para enquadrar as partes de vitral, e o faz com uma ligeireza assustadora, excessiva mesmo, já que o edifício nunca pôde ser continuado para além do transepto.

No entanto, mais ainda do que a beleza, a solidez é que era visada. Nada se compreendeu de uma catedral gótica antes de se saber que o volume de pedra enterrado no solo, para o trabalho das fundações, ultrapassa o da pedra erguida para o céu.

Sob essa aparente fragilidade, sustentando as gráceis colunetas e as flechas rendilhadas, esconde-se uma poderosa armação de pedra, obra paciente e robusta.