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terça-feira, 17 de maio de 2022

Interior decapitado, sem ponto monárquico. “Feias como o pecado” X antecâmaras do Céu – 6

Altar-mor do santuário de Compostela
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







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continuação do post anterior: Indispensável posição monárquica do presbitério. “Feias como o pecado” ou antecâmaras do Céu? – 5



Michael Rose descreve o ambiente típico de uma igreja americana moderna.

As cadeiras circundam o altar. Não há genuflexórios, e as poltronas convidam a cruzar as pernas, passar o braço por cima do espaldar do vizinho ou pôr os pés no respaldo da frente.

As posturas informais calham bem com a atmosfera criada pela nova arquitetura.

Não há espírito de oração nem reverência. Não há arte sacra.

Há burburinho e bate-papo entre os fiéis. Uns procuram amigos e parentes com o olhar, e trocam “tchauzinhos”.

Não há ponto monárquico. Não raro o altar está baixo demais para ser visível.

O sacerdote, quando senta, desaparece. Se alguém está lendo, só se fica sabendo por causa das caixas de som. 

Nossa Senhora Rainha da Polônia, Cracóvia.
A imagem pretende ser de Jesus Crucificado

A igreja moderna não é hierárquica: tudo é igual. Não há lugar sagrado. 

O presbitério não se distingue da nave. Esta foi decapitada. É mais um local de reunião.

A igreja de Cristo Rei, em Las Vegas, é reconfigurada de tempos em tempos. Por vezes o altar está no centro, outras vezes junto a uma das paredes.

As cadeiras, ora em torno do altar, ora dispostas em asas. Os paroquianos não sabem o que os espera a cada domingo.

O atril ou ambão (pequena tribuna em forma de plano inclinado, onde se colocam livros ou pautas para serem lidos) está em alguma parte perto da mesa.

Ambiente de recolhimento e oração na catedral de Regensburg
Cantores e músicos se exibem num local proeminente, em que possam aparecer destacadamente.

Coro, pianista, guitarrista, violinista, baterista ficam olhando para a assembléia.

O chamado “ministério da música” é mais perceptível que o do altar.

E como o agradável e o comum são objetivos da nova arquitetura, a música também tem que ser prazenteira e popular.

Os cânticos dos fiéis são abafados pelo sistema de som.

O altar não faz referência ao sacrifício, assemelha-se a uma mesa de jantar.

Não há iconografia sacrifical, e poucas vezes um Crucifixo destacado.

Na hora da comunhão, muitos leigos distribuem as hóstias; e se colocam em tantos lugares, que é difícil escolher de qual deles se aproximar.

Quando a Missa termina, os fiéis saem conversando, rindo. Em instantes o “espaço de culto” fica abandonado, folhetos cobrem as cadeiras e o chão fica como após o término de partida de beisebol. Domina a sensação de vazio.


Tabernáculo no convento agostiniano
de Nossa Senhora das Graças,
Ontário, Canadá
E o Santíssimo Sacramento? Nas últimas décadas, a tendência foi levá-lo para uma sala à parte.

O tabernáculo do novo estilo pode assemelhar-se a uma gaiola de passarinhos ou até a um totem, como no convento agostiniano de Nossa Senhora das Graças, em Ontário, Canadá.

Outros são cilíndricos ou cônicos, conhecidos como “torres do sacramento”.

O ambiente em torno nada tem de sacral, acolhedor, nobre ou elevado, e não convida à adoração.

Igrejas deliberadamente não-igrejas

O que há na cabeça dos desenhistas desses “espaços de culto”? Rose reproduz axiomas de um maître-à-penser da arquitetura eclesiástica moderna, Edward Sövik.

Este arquiteto luterano de Minnesota desenhou mais de 400 projetos para igrejas católicas e protestantes.

Dois conceitos de templo e de Igreja: aqui acima a catedral de Albi, França

Ele forjou o conceito de não-igreja, ou casa do povo: uma estrutura que poderia não ser uma igreja e onde o povo pode ter seu culto. Portanto, um recinto o mais descaracterizado possível, sem respeitabilidade nem beleza.

Para Sövik, “se o local é reservado para a liturgia, logo vai ser interpretado como ‘casa de Deus’, vai ser visto como um lugar santo, enquanto outros locais serão vistos como profanos ou seculares” (U, 157). A santidade e a sacralidade da 'casa de Deus' é o mal a ser evitado!

... um outro conceito da religião e da igreja: conjunto paroquial ‘S. Tiago Apóstolo', Ferrara, Itália
O padre católico Richard Vosko, LDC da nova catedral de Los Angeles, EUA, explicou à imprensa que não quis criar um lugar sagrado, mas uma “forma arquitetônica que possa acolher formas rituais de uma religião, seja ela judaica, católica, muçulmana, ou não seja nada” (U, 170). Portanto, válida para qualquer crença ou erro: para falsos deuses!

“Móveis e instrumentos simbólicos, pregou ainda Sövik, devem ser portáteis, variados, para serem trocados, mudados de lugar ou abandonados, na medida que o desejarem os paroquianos do futuro” (U, 157).

Tudo deve ser perecível, banal, incapaz de transmitir tradições, tidas como um mal a evitar.

continua no próximo post: Vias para uma restauração na arquitetura católica. “Feias como o pecado” ou antecâmaras do Céu? – 7




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terça-feira, 10 de maio de 2022

A indispensável posição monárquica do presbitério. “Feias como o pecado” ou antecâmaras do Céu? – 5

Altar-mor da catedral Santo Estévão de Viena, Áustria

continuação do post anterior: Visibilidade, hierarquia e simbolismo da igreja. “Feias como o pecado” ou antecâmaras do Céu? – 4

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
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A igrejaarca de salvação está ordenada em função do presbitério, local do altar do sacrifício e do tabernáculo, que está dirigido para o Oriente.

É o equivalente cristão ao Santo dos Santos dos hebreus, no deserto e no Templo de Salomão.

O nível do presbitério é mais alto que o da nave. A ele se destinam os mais ricos materiais e a arte mais elaborada.

Desta forma, lembra-se ao fiel que a Igreja é hierárquica, composta de membros diferentes, sendo Nosso Senhor a cabeça, representado pelo Papa, bispos e sacerdotes, e com os religiosos e leigos cumprindo suas funções na Igreja militante.

O arquiteto Ralph Adams Cram explicou que “cada linha, cada massa, cada detalhe deve ser concebido e disposto para exaltar o altar, conduzir a ele” (U, 84).

Outro elemento indispensável no presbitério é um Crucifixo, que o Abade Suger chamava de “estandarte da salvação”.

As funções do coro e dos vitrais nas igrejas

Vitrais da capela de Nossa Senhora, catedral de Amiens, França
O Concílio de Trento dispôs que o coro e os instrumentos ficassem na galeria acima do nártex. Não é desejável que músicos e coristas sejam visíveis.

Eles devem ir à igreja como fiéis, e não como artistas. As “vozes desencarnadas” do coro evocam o canto dos anjos, proveniente de cima para baixo e ressoando de modo belo nas abóbadas da igreja.

Os vitrais ocupam um lugar especial na arquitetura eclesiástica.

O Abade Suger, na Idade Média, chamou-os “janelas radiantes que iluminam as mentes dos homens de maneira que, por meio da luz, possam chegar à percepção da luz divina”.

Ele dizia serem “sermões que tocavam o coração, através dos olhos, ao invés de entrar pelo ouvido” (U, 77). Toda outra forma artística no recinto sagrado, como pintura e escultura, está concebida para ser vista sob uma luz filtrada.

O artista deve pintar com a luz de Deus, explica o Dr. Rose. Quando o sol se põe, através dos vitrais a luz projeta figuras multicolores no interior da igreja, criando uma sensação do além, uma faísca da beleza do Céu.

Projeto de nova catedral de Belo Horizonte
Projeto de nova catedral de Belo Horizonte
O contraste do modernismo: igrejas “sem-rosto”

A seguir, o autor fornece exemplos da revolução da arquitetura eclesiástica moderna em seu país, os EUA, e que apresenta casos análogos no Brasil.

A igreja moderna não pode ser localizada a olho nu nem pelo som dos sinos. Uma sinalização Church Parking (estacionamento da igreja) avisa que a estrutura ao lado é uma “casa de culto”, e o mapa confirma que é uma moderna igreja católica.

A fachada dessa igreja é sem-rosto. Não evangeliza, não ensina, não catequiza. Até se confunde com outros prédios da rua.

A fachada é sem-rosto porque concebida para ser só uma “pele da ação litúrgica”, no linguajar da nova arquitetura. É uma estética agnóstica, que não reflete nem a tradição católica nem a História.

Arquitetos e consultores de projeto litúrgico — LDC, sigla do inglês Liturgical design consultant — de igrejas modernas evitam os símbolos católicos como o Crucifixo ou a cruz latina.

No máximo, quando colocam a cruz, ela aparecerá como um signo a ser decifrado –– por exemplo, na estrutura metálica que sustenta a vidraça exterior.

Portas da catedral de Oakland, Califórnia,
"falam" que o prédio não é sagrado
Espaços interiores mudam, segundo o capricho da moda

A arquitetura moderna apresenta portas semelhantes às de um prédio público ou supermercado.

Sandra Schweitzer, LDC na renovação da catedral dos SS. Pedro e Paulo, em Indianápolis, EUA, explicou:

“Substituímos as portas pesadas, grossas, de metal, pelas portas de vidro que dizem 'vocês são sempre bem-vindos aqui’” (U, 101). Essas portas inculcam a idéia de que o prédio não é sagrado, observa Rose.

Após essas portas, a igreja moderna inclui um espaço vasto e vazio. É um local de reunião após a Missa, bem iluminado e despojado.

Nossa Senhora Rainha da Polônia, Cracóvia.
O monstruoso ateu em lugar do belo religioso
Se há algum objeto de devoção, situa-se num canto, junto a um bebedouro, às toaletes ou a um telefone público. Nesse espaço pode encontrar-se uma fonte batismal estilo banheira.

Nos anos 80, o progressismo exaltou o batismo de imersão. A forma preferida foi a sauna, conhecida pelo nome comercial Jacuzzi.

Na verdade, como escreveu a consultora de desenho litúrgico Christine Reinhard, a pia batismal “desde o Vaticano II, tem girado um pouco por toda a igreja. De início, os litúrgicos julgavam fundamental que ela ficasse bem visível. Agora, o consenso é que a visibilidade é o menos importante...” (U, 105).

Baptistério do conjunto paroquial Santo Inácio,
Ampurias, Itália (projeto aprovado)
pode ser interpretado como outra coisa.
Um muda-muda caprichoso e errático, próprio de uma religiosidade em contínua evolução rumo ao ignoto.

A partir dos anos 90, tornou-se moda incluir obras de arte temporárias de “símbolos universalmente reconhecíveis”, como o pagão e gnóstico yin-yang, quadros de “modelos contemporâneos”, de “testemunhas do batismo”, projeções ou encenações.

Os personagens e os temas vão mudando sobre um fundo laicizante ou esquerdizante: Martin Luther King ou o teólogo contestatário Hans Kung, por exemplo.


continua no próximo post: Interior decapitado, sem ponto monárquico. “Feias como o pecado” ou antecâmaras do Céu? – 6



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terça-feira, 3 de maio de 2022

Visibilidade, hierarquia e simbolismo da igreja. “Feias como o pecado” X antecâmaras do Céu – 4

Catedral de Mogúncia (Mainz) Alemanha
Catedral de Mogúncia (Mainz) Alemanha
Luis Dufaur
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continuação do post anterior: Le Corbusier cria igrejas-máquina, ou de pesadelo. “Feias como o pecado” ou antecâmaras do Céu? – 3

Para os construtores de igrejas, diz Dr. Rose, as palavras de Cristo são normativas. E o Divino Mestre ensinou no Sermão das Bem-aventuranças:

“Não pode se esconder uma cidade que está situada sobre um monte. Nem os que acendem uma luzerna a metem debaixo do alqueire, mas põem-na sobre o candeeiro, a fim de que ela dê luz a todos que estão na casa” (Mt 5, 14-15).


Por isso, a igreja não pode ficar dissimulada ou escondida. A igreja tem que sobressair no panorama. Esse destaque deve ser audível também.

Os sinos lembram a presença de Nosso Senhor na Terra, convocam à oração, marcam os acontecimentos transcendentais da vida, espantam os demônios.

Porque é sagrada, a igreja tem uma superioridade natural sobre os prédios profanos que a circundam. O bom encaixe estético e hierárquico foi bem alcançado com uma transição harmônica. 

Notre Dame de Chartres, detalhe fachada
Onde possível, uma praça ou um largo, que pertencem à esfera temporal, faz o primeiro espaço de transição. Logo vem o átrio, pátio aberto que lembra o átrio do Templo de Salomão, e que pertence à igreja.

A fachada é o rosto da igreja. Ela evangeliza, ensina, catequiza.

Na Idade Média, bastava ao catequista explicar o significado das inúmeras estátuas e cenas entalhadas na pedra, para dar aulas perfeitas sobre as verdades fundamentais da fé, as virtudes e os vícios opostos, a História Sagrada, a ordem do Universo, a hierarquia das ciências, etc.

No coração da fachada de Notre Dame encontra-se a rosácea. Ela forma a coroa da Santíssima Virgem.

A rosa é emblema de Nossa Senhora. Na Idade Média, quase todas as catedrais foram dedicadas à Mãe de Deus.

A rosácea é denominada “olho de Deus”, porque antecipa a visão beatífica.

Representa também a perfeição, o equilíbrio e a harmonia da alma purificada, que se prepara para ingressar no Reino Celeste eternamente.

A nave da igreja representa a “Arca de Salvação”
A nave, símbolo da Arca da Salvação e da maternidade da Igreja

O nártex (vestíbulo sob o coro) é o primeiro espaço sagrado da casa de Deus. Também é conhecido como galilé, porque dali parte a procissão que, no início da Missa, dirige-se até o altar, simbolizando a jornada de Cristo desde a Galiléia até Jerusalém, rumo ao sacrifício do Calvário.

No nártex, a água benta lembra o batismo, a necessidade do perdão dos pecados, e tem efeito exorcístico sobre o demônio e as tentações.

A nave encarna a “Arca de Salvação”. A Igreja, Ela própria, é essa arca, a Barca de Pedro. Simboliza também o seio materno, pois a Igreja gera as almas para o Céu.

Ela é ainda imagem do Corpo Místico de Cristo posto a serviço de sua cabeça: Deus Nosso Senhor. Um famoso diagrama coloca o Crucificado sobre a planta de uma igreja típica.

Sua divina cabeça repousa no presbitério, os braços no transepto, o corpo e as pernas na nave. As colunas da nave representam os Apóstolos, e as colunas do cruzeiro simbolizam os quatro Evangelhos.

Os genuflexórios servem para a posição corporal essencial do culto: a genuflexão, que é própria da adoração, necessária para se obter o perdão dos pecados.

Confessionário na Basílica de São Pedro, Roma
Confessionário na Basílica de São Pedro, Roma

São Carlos Borromeo recomendou que os confessionários sejam situados nas partes laterais da igreja; que o penitente nele esteja ajoelhado, separado do confessor por uma tela, numa posição onde possa ver o presbitério.

O púlpito, de preferência hexagonal, encontra-se no lado norte da igreja, à direita de quem entra.

Como no hemisfério setentrional o norte é o lado menos luminoso, simboliza as trevas, a barbárie e o erro, que os sermões devem dissipar, ou devem ser eliminados pela pregação destemida das verdades evangélicas.

Também no lado norte deve situar-se a pia batismal, pois as crianças que ali chegam ainda não pertencem à Igreja.

As igrejas devem apontar para o Oriente, pois de lá veio o Salvador, e por ali chegará em sua segunda vinda, em pompa e majestade.



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