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terça-feira, 2 de junho de 2020

Orvieto: o gótico colorido

Orvieto: catedral gótica colorida com mosaicos e mármore
Orvieto: catedral gótica colorida com mosaicos e mármore
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Uma das mais belas catedrais existentes na Itália é uma basílica gótica toda colorida em mosaico do lado de fora.

É um dos edifícios góticos mais belos do mundo.

É a Catedral de Orvieto.

Sobre uma fachada estritamente gótica podemos ver uma feeria de cores.

Não há aí o que não seja gótico, inclusive a rosácea. Ela fica dentro de um quadrado que tem qualquer coisa de clássico. Mas que se encaixa tão perfeitamente que não há o que dizer.

A cor escolhida é a mais esplendorosa das cores: o ouro. Toda a fachada é sobre fundo dourado. E esse fundo é feito com um método nobre: o do mosaico.

Trata-se de um mosaico de alta qualidade, tão rutilante, tão magnífico que, sendo esta fachada do século XIV, ela dá a impressão de terminada ontem.

Ela não apresenta a poesia do granito, que fica mais belo à medida que envelhece.

O velho granito que desafia todos os tempos e todas as intempéries tem sua beleza.

Em Orvieto dir-se-ia que a fachada foi feita no ano passado e que só conheceu verões e primaveras. A igreja está novinha como se fosse de ontem.

Orvieto: catedral gótica colorida com mosaicos e mármore, detalhe
Orvieto: catedral gótica colorida com mosaicos e mármore, detalhe

Os invernos e as tragédias da História escorregaram sobre ela sem a atingir em nada. Ela está magnífica, esplendorosa, sem alteração.

O granito fala da eternidade porque afirma a sua existência contra o tempo. Passa o tempo, o granito fica!

O mosaico de Orvieto se reporta à eternidade no sentido de que ignora o tempo!

Não resiste a ele porque não tem nada que ver com ele, o passar dos séculos não o atinge. O mosaico está lá, a basílica está lá.

Para que a impressão cromática ainda seja mais viva, há vários grupos de mosaicos.

Orvieto: catedral gótica colorida com mosaicos e mármore, detalhe
Orvieto: catedral gótica colorida com mosaicos e mármore, detalhe
Em cima está a coroação de Nossa Senhora.

Aos lados, à direita e à esquerda da rosácea, outros grupos representam: o desposório de São José e Nossa Senhora e a Apresentação do Menino Jesus no Templo.

No alto das portas, tanto dentro das ogivas como fora delas, há grupos humanos também: a Anunciação, o Batismo de Jesus, a perplexidade de São José e o Santo Natal.

Depois, mais adiante, no tímpano da porta central, mais figuras coloridas: Nossa Senhora Rainha sendo venerada pelos anjos, pelos apóstolos e pelos santos.

O colorido está por toda parte.

As cenas representam toda a vida de Nossa Senhora e de Nosso Senhor Jesus Cristo. Que magnífico!

Então se compreende bem que no topo esteja a Coroação de Nossa Senhora como rainha do Céu e da Terra.

As cores não são de estardalhaço, mas são todas muito intensas.

Os artistas não tinham o gosto das cores pálidas, discretas, que se confundem ou se fundem umas com as outras.

As cores pálidas, ou fundidas, também têm a sua beleza. Mas não é a beleza da fachada da Catedral de Orvieto.

Nela brilha a beleza das cores definidas, que têm individualidade e vida própria.

Cada cena tem coloridos tais que produzem uma sinfonia de cores especial.







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terça-feira, 19 de maio de 2020

Catedral: casa de Deus, lar dos fiéis, imagem da Jerusalém celeste, o Céu

Amalfi, catedral Santo Andre, catedrais medievais
Amalfi, Itália. Catedral Santo André
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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Na Idade Média, construía-se a casa de Deus como imagem da Jerusalém Celeste.

Quer dizer a cidade ideal do Céu empíreo onde moramm as almas que se salvam.

É a admirável casa de Deus, o lugar do culto e a casa materna do povo.

A legislação eclesiástica fazia diferença entre o santuário — onde o povo não entrava — e o resto da superfície da catedral. Essa distinção era necessária.

O santuário era o local reservado para o culto, a missa, os ofícios, etc. Ocupava em geral a parte posterior a onde hoje está o altar mor, separado por véus.

Na nave central e nas laterais se faziam muitas coisas que as pessoas queriam que ficassem como embebidas de espírito religioso, sem serem atos religiosos.

Canterbury, catedrais medievais
Catedral de Canterbury, Inglaterra
O espírito do século XX ficaria chocado pela animação e as atividades que podiam se desenrolar antigamente no interior das igrejas.

Ali se dormia, se comia, se podia falar sem necessidade de cochichos.

Ali se circulava muito mais livremente do que hoje, porque não havia bancos.

Ali as pessoas se encontravam, para discutir coisas que muitas vezes não eram diretamente religiosas.

Era lá também que os representantes da comuna reuniam-se para falar dos negócios da cidade.

Cracovia, Mariacka, catedrais medievais
Basílica de Nossa Senhora, Cracóvia, Polônia, dita Mariacka
Pode-se notar que, em certas cidades que tinham comunas, e onde foram erigidas grandes catedrais, os burgueses não construíam prefeituras.

Conhece-se um texto eclesiástico interditando uma certa comuna de se servir da catedral como sala de reuniões.

Tal interdição prova que isso era fato corrente. Não era, evidentemente, um direito, mas uma tolerância da Igreja.

Em Marselha, as reuniões dos conselheiros, cônsules e dirigentes de negócios tinham lugar regularmente na Igreja de "Major".

Para se entender isso tudo, é necessário compreender que os homens viviam em contato diário com o divino.

Era-se muito mais íntimo com Nosso Senhor do que os fiéis de hoje, que, o mais das vezes, só estão com Deus Domingo de manhã, em sua igreja paroquial.



(Fonte: Jean Gimpel, "Les bâtisseurs des cathédrales", Éditions du Seuil, Paris, p. 43)




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terça-feira, 5 de maio de 2020

As catedrais de Notre-Dame e São Pedro comparadas por uma grã-duquesa russa

Notre-Dame, nave central

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
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No século XVIII, a grã-duquesa da Rússia Maria Feodorovna fez sua viagem de bodas na Europa Ocidental com seu esposo, o futuro imperador Paulo I da Rússia.

O casal viajava de “incógnito” ‒ quer dizer, não oficialmente ‒ e usava os nomes de Conde e Condessa du Nord. A baronesa de Oberkirch, nobre francesa que escreveu Memórias famosas, ia junto como dama de companhia.

A grã-duquesa russa ‒ que era cismática ‒ comparou a Basílica de São Pedro e a catedral de Notre-Dame. A baronesa de Oberkirch recolheu o comentário:
“Em São Pedro de Roma, dizia a grã-duquesa, é-se esmagado pela beleza, pela elevação e pela majestade da nave da igreja.

“Parece que não se ousa rezar ao Ser Todo Poderoso ao qual os homens levantaram um templo de tão alta categoria. Deus aparece aí alto demais e longínquo demais.

“Em Notre-Dame, pelo contrário, o mistério, essa obscuridade dos vitrais, essa arquitetura dos séculos em que a religião tinha todo o seu poder, imprime o recolhimento e o amor. Tem-se a esperança de ser ouvido por Deus e a certeza de ser atendido.

“Ama-se, espera-se. Eis, pelo menos, o que eu senti nas duas igrejas.
São Pedro interior
São Pedro
Realmente são duas igrejas completamente diferentes.

Quando vi pela primeira vez a igreja de São Pedro tive certa surpresa, julgando-a muito menor do que eu imaginava.

Mas é porque eu estou com meus padrões deteriorados pelos apartamentos de São Paulo.

Mas houve uma preocupação de disfarçar a altura dela.

Porque naquele tempo, em que o materialismo não havia feito o progresso que fez em nossos dias, era bonito realçar a proporção e esconder o tamanho.

Porque o tamanho é matéria e a proporção é espírito. O espírito deve dominar a matéria.

Mas a igreja de São Pedro é toda influenciada pela Renascença. E, portanto, do ponto de vista artístico, é uma reapresentação no século XVI de elementos de beleza clássica que não tem, absolutamente, o espírito católico da Idade Média.

A basílica de São Pedro é composta.

Sua pompa está à altura do que os homens podem dispor para venerar a Sé de Pedro e ser, nesse sentido, a primeira igreja da Cristandade. Mas o homem não tem aí a sensação de proximidade de Deus que tem na catedral de Notre-Dame de Paris.

A impressão da Condessa du Nord poderia ser traduzida assim:

Na igreja de São Pedro há uma tentativa de o homem elevar-se num esforço de piedade, até Deus.

Notre Dame, capela Santissimo SacramentoNa igreja de Notre-Dame eu vejo Deus que desce até os homens. Por causa disso, a proximidade de Deus é muito maior na catedral Notre-Dame do que na igreja de São Pedro.

Deus está mais próximo do homem em Notre-Dame. Então, Notre-Dame tem mais grandeza do que uma igreja maior que ele fez como uma escada para tentar chegar até Ele.

Mas acontece que a Comtesse du Nord era herdeira de um trono e tinha obrigação de não criar problema com os católicos, nem com a Santa Sé, em sua viagem e seus comentários.

Então, ela não faz uma crítica à igreja de São Pedro, a não ser indireta. Vemos aqui o estilo diplomático do tempo.

Ela faz isso com enorme delicadeza e prudência.

São PedroComeça dizendo um elogio: que São Pedro tem tanta beleza que esmaga. Mas, acaba dizendo, jeitosamente, que a nave é esmagadora.

A ideia da escalada do homem até Deus está jeitosamente insinuada. O homem fez um edifício tão grande, tão magnífico, que dá medo de Deus. É uma tendência a subir até Deus, mas que amedronta.

Mas depois ela faz o elogio de Notre-Dame:
Em Notre-Dame, pelo contrário, esse mistério, essa obscuridade dos vitrais, essa arquitetura dos séculos, quando a religião tinha tanto poder imprime o recolhimento e o amor.
É a igreja perfeita. Mas ela diz “pelo contrário”. Notre-Dame, ao contrário de São Pedro, imprime recolhimento e amor.

Então, ela passou a descalçadeira na igreja de São Pedro e fez um grande elogio na catedral de Notre-Dame.

Tomou partido em termos tão leves, tão delicados, tão femininos e tão diplomáticos que não se comprometeu com nada.

Savoir dire. Encantos da tradição católica quando ela se exprimia em Língua francesa.


(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, 18/5/76. Sem revisão do autor.)



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terça-feira, 21 de abril de 2020

O gótico é fruto de séculos de pregação dos santos

Asís

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
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Quando há uma sociedade que vive em uníssono, e que deseja muito uma mesma coisa, aparecem os artistas que, imbuídos do mesmo desejo, fazem o que a sociedade quer.

A obra de arte é uma consonância de um homem, ou de alguns homens, dotados de um talento especial para fazer o que a sociedade deseja.

Então, quem fez o gótico?

A prática da religião assídua, séria, reta, por séculos, levou as almas a desejarem o gótico.

Em certo momento, quando o artista primeiro, que não se sabe qual é, começou a desenhar o gótico, todo o mundo disse: “É mesmo!”

terça-feira, 7 de abril de 2020

O segredo das catedrais

Colônia, Alemanha
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
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O enigma profundo das catedrais e dos homens que as conceberam e realizaram em tão grande número e variedade nos conduz a considerações que superam a própria ciência e à própria técnica.

A primeira e mais imediata consideração é sobre a sabedoria dos construtores.

Monges, teólogos, arquitetos, artistas, simples pedreiros, neles parecia habitar uma sabedoria que ia muito além de suas naturezas humanas, por vezes rudes e imperfeitas.

Pelos frutos se conhece a árvore. Pela catedral se conhece a alma dos construtores.

Como foi possível tal afloração simultânea de homens com almas sólidas e plácidas, fortes e delicadas, lógicas e jeitosas, como as que fizeram essas Bíblias de pedra?

Homens que foram a encarnação da virtude da sabedoria. Da sabedoria sobrenatural que só a graça divina dispensa às suas almas mais amadas.

E essa é uma segunda consideração de natureza espiritual.

Foi essa sabedoria sobrenatural, de que a Igreja Católica é a tesoureira, que gerou aqueles homens e suas catedrais.

Longe da Igreja, o homem do terceiro milênio sente-se apequenado, tristonho e cheio de incertezas.

terça-feira, 24 de março de 2020

As torres inconclusas de Notre Dame


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
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Por mais que se tente completar as torres de Notre-Dame — talvez um grande arquiteto consiga — não se chega a nenhuma solução satisfatória.

Isso quer dizer que, à maneira de negação, tem-se uma certa noção da torre que se poria lá.

Mas não é nenhuma das que cogitamos.

O que tem a catedral de Notre-Dame que a mim me delicia, me subjuga e me assume, é que aquilo, como está, é tão bonito, que se diria que não se pode pôr nada mais além daquilo.

Ora, era para pôr! Logo, o acréscimo tem que ser um bonito na linha gótica.

terça-feira, 10 de março de 2020

O espírito que deu alma às catedrais medievais

Beauvais, catedral São Pedro

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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O espírito épico é como um prisma que permite interpretar a Idade Média.

Os historiadores hodiernos, entretanto não sabem discerni-lo. E nos seus relatos esse espírito épico está volatilizado.

Entretanto, este é verdadeiramente o prisma para estudar a Idade Média.

Cada vez mais nós estamos caindo em estudos de caráter puramente historicista, e econômico, e político. Mas desprovidos de alma.

O resultado é que o aluno sente confusamente que o historiador no pegou o fundo da coisa, não entendeu a alma da Idade Média. Então, o estudo fica cassetérrimo.

Os medievais trabalhavam com espírito épico. Esse espírito está presente até na hora de fazer um campanário ou uma catedral.

Eles, então, faziam uma obra para lá de arrojada em relação aos meios do tempo.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Abadia milenar de Solesmes, uma arca de salvação

A vida na solidão acompanhado por Deus
A vida na solidão acompanhado por Deus
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
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Às cinco da manhã ainda está escuro no verão e no inverno faz muito frio.

A cidade toda de Solesmes dorme bem arroupada enquanto o velho sininho da abadia se põe a repicar com sua milenar nota.

Os monges estão sendo convocados a cantar a primeira Hora do dia.

Silhuetas silenciosas se encaminham para a igreja fazendo deslizar seus hábitos pretos sobre o chão de pedra.

De ali a pouco suas vozes entoam as antífonas, leituras e salmos à glória dAquele que os convocou ali.

“Qui bene cantat, bis orat” (“Quem canta bem, reza duas vezes”) ensinou Santo Agostinho.

Em Solesmes os monges cantam sete vezes por dia, trinta e cinco horas por semana, explica o Pe. Paul-Alain.

No brilho do olhar dos monges percebe-se a plenitude do gáudio sobrenatural que enche suas almas.

O costume se repete há mil e quinhentos anos na abadia de Saint Pierre de Solesmes, na região da Sarthe, França, num antegosto terrestre da vida eterna.

Não foi um milênio e meio fácil.

O inferno se abateu sobre Solesmes que foi preciso reconstruir em 1869.