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terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Abadia milenar de Solesmes, uma arca de salvação

A vida na solidão acompanhado por Deus
A vida na solidão acompanhado por Deus
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Às cinco da manhã ainda está escuro no verão e no inverno faz muito frio.

A cidade toda de Solesmes dorme bem arroupada enquanto o velho sininho da abadia se põe a repicar com sua milenar nota.

Os monges estão sendo convocados a cantar a primeira Hora do dia.

Silhuetas silenciosas se encaminham para a igreja fazendo deslizar seus hábitos pretos sobre o chão de pedra.

De ali a pouco suas vozes entoam as antífonas, leituras e salmos à glória dAquele que os convocou ali.

“Qui bene cantat, bis orat” (“Quem canta bem, reza duas vezes”) ensinou Santo Agostinho.

Em Solesmes os monges cantam sete vezes por dia, trinta e cinco horas por semana, explica o Pe. Paul-Alain.

O brilho do olhar dos monges percebe-se a plenitude do gáudio sobrenatural que enche suas almas.

O costume se repete há mil e quinhentos anos na abadia de Saint Pierre de Solesmes, na região da Sarthe, França num antegosto terrestre da vida eterna.

Não foi um milênio e meio fácil.

O inferno se abateu sobre Solesmes que foi preciso reconstruir em 1869.

Solesmes foco de restauração do canto gregoriano.
Solesmes: foco de restauração do canto gregoriano.
A Revolução Francesa não tolerou essa antessala da Corte Celeste cujo nome o igualitarismo revolucionário não conseguia sequer pronunciar sem blasfemar.

Em 1833, entre as ruínas deixadas pelo tufão do ódio revolucionário, um jovem sonhava com os monges que outrora animaram aquele lugar destruído onde os anjos pareciam chorar.

Seu nome era Prosper Pascal Guéranger, nascido em 1805, fervente admirador dos magníficos grupos escultóricos de “Les Saints de Solesmes” esculpidos nos séculos XV e XVI.

Ele haveria de se tornar eclesiástico e reunir os recursos para comprar e restaurar o priorado.

Acabaria sendo o homem símbolo da recuperação da Ordem Beneditina no século XIX e o grande restaurador do canto gregoriano.

Dom Guéranger abriu a avenida mística dos homens que por vezes com menos de 20 anos ouviram o chamado de Deus e se embrenharam pelo que os comuns chamam de deserto.

Mas eles percebiam que o deserto estava na agitação.

'Quem canta bem, reza duas vezes' ensinou Santo Agostinho
'Quem canta bem, reza duas vezes', ensinou Santo Agostinho
O Pe. Rafael tinha se graduado em Minas e um belo futuro se abria diante dele. Mas algo de enorme lhe faltava.

“A sociedade moderna só funciona por e para o dinheiro. Mas essa não é a finalidade da vida humana! Foi então que Cristo veio me colher.

“Era como se uma luz apontasse para mim e me penetrava completamente. Eu percebia uma inteligência, uma pessoa por trás dessa luz que me dizia: ‘Eu te conheço e eu te amo’.”

No 8 de dezembro de 2011, Rafael ingressava no noviciado de Saint Pierre de Solesmes.

A agenda do monge é extraordinariamente cheia. Acordar às 5:00 horas para cantar em gregoriano Matinas às 5:30 e Laudes às 7:30h. Missa às 10:00. Canto de Sexta às 13:00; Nona às 13:50; Vésperas às 17 e Completas às 20:30.

“O canto gregoriano, como toda forma de beleza, tem qualquer coisa de Deus”, explica o prior Pe. Geoffroy.

“Se há tantos visitantes tocados por Solesmes é porque eles fazem a experiência sensível da fé por meio do canto.

“Frequentemente as pessoas as mais afastadas da Igreja são as mais tocadas por esta experiência, ainda quando não entendem o latim, que lhes revela o carácter infinitamente sagrado de Deus”.

A soma das idades rumo à eternidade.
A soma das idades rumo à eternidade.
“Por vezes me ocorre a ideia, diz o escritor Julien Green, que estes religiosos vivem um imenso sonho litúrgico quando, na realidade, são eles que estão na verdade e somos nós que vivemos num sonho que a todo momento vira pesadelo”.

Toda manhã antes da Missa, cada beneditino lê um trechinho da Bíblia ou dos escritos dos Padres e Doutores da Igreja.

Alguns fazem verdadeiros trabalhos de pesquisa que culminam em publicações. Livros são lidos durante as refeições e a biblioteca da abadia é de uma riqueza inaudita.

Além do trabalho intelectual, eles têm o manual: alguns são padeiros, outros alfaiates, sapateiros, jardineiros, encadernadores, carpinteiros ... Todos ao serviço da comunidade monástica.

O irmão Lionel diz “eu rezo trabalhando a madeira. Com o trabalho manual o homem está chamado a participar na obra da Criação.

O trabalho manual é obrigatório
O trabalho manual é obrigatório
“E ainda cometendo erros o trabalho humano é infinitamente preferível ao da máquina.

“À perfeição maquinal se opõe a perfeição da alma humana, e de Deus que está nela, completando a obra criadora.

“Olhe esta tábua de madeira com seus nós e imperfeições: não é a imagem da alma humana com suas asperezas e seus limites que Deus vem a encher com sua graça?”

O irmão Lionel parte para atender seus pobres miseráveis que vem de toda parte da França porque sabem que em Solesmes, em conformidade com a Regra de São Bento, são recebidos como se eles fossem o próprio Cristo.

E então para o que é que serve um monge no século XXI?

“O monge por definição não serve para nada aos olhos do mundo, responde frei Geoffroy.

“Não se pode esperar de nós nem eficácia nem rentabilidade”.

Eles só fazem uma coisa aos olhos de outros: fascinam. São procurados ainda que mais não seja para passar perto deles um instante, de vê-los rezar e sentir um pouco da paz que reside neles.

“O homem no seu cerne está animado pelo desejo do infinito, diz frei Boralevi,

A vida monástica, reflexo da vida celeste.
A vida monástica, reflexo da vida celeste.
“Ele tem a necessidade de sentir que é possível existir uma relação como a que nós temos com Deus.

“Essa relação constante de coração a coração com nosso Criador é a vocação derradeira de todo ser humano”.

Alguns que batem na porta do mosteiro estão a anos luz da religião cristã, mas todos são acolhidos.

O atrativo é enorme, mas poucos são os que se engajam. É difícil renunciar às solicitações da vida moderna.

“Elas oferecem uma ilusão de liberdade e uma ideia aliás muito pálida da felicidade.

“Só a fé em nosso Salvador pode encher a alma humana, porque ela comunica uma esperança imensa”, completa frei Geoffroy.


(Fonte: “No segredo de uma abadia milenar”, Ghislain de Montalembert, “Le Figaro Magazine”, 20 de dezembro de 2019, págs. 50-61)




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terça-feira, 28 de janeiro de 2020

York: a poesia das flechas inexistentes,
mas imagináveis

York: a poesia das flechas inexistentes
York: a poesia das flechas inexistentes
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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A catedral gótica de York, na Inglaterra, apresenta algumas características que à primeira vista impressionam pouco, mas cuja beleza é preciso saber saborear.

O gosto pelo princípio de unidade e transcendência nos levaria a desejar que as torres terminassem bem mais altas, por uma série de lances menores e com uma ponta altiva e elegante.

Pois não é propriamente segundo o espírito contra-revolucionário uma torre sem ponta, sem uma flecha.

As duas torres do fundo não têm pontas, mas os ângulos estão flanqueados por alguns florões que causam à primeira vista a impressão de torreões.

Flechas inexistentes, mas imagináveis
Flechas inexistentes, mas imagináveis
Onde está a beleza dessas torres?

Pode-se dizer que estão inacabadas, e que não possuem toda a beleza com a qual sonhou para elas o arquiteto.

Mas a beleza própria delas é justamente por não terem cone, pois há nelas algo que nos leva a imaginar as pontas que não existem e a sonhar com elas.

Na ordem da natureza as sombras têm sua beleza, e às vezes são mais belas do que a realidade.

Também os cumes e as pontas inexistentes ficam insinuados, quando a base é feita com talento.

E por meio da insinuação, qualquer um pode formar certa ideia subconsciente daquilo que poderia existir.

Nas duas torres há algo que ajuda a imaginação de quem as vê, a elevar-se até o cone.

De fato, prestando atenção, desprende-se dela certa poesia, que é a do cone inexistente, mas imaginável.

A catedral está rodeada por casas meio ligadas umas às outras, sem muita ordenação, formando um bricabraque de acordo com a fantasia.

O batistério está quase imerso no meio de um emaranhado de dependências da catedral e de casas.

Todo o conjunto é agradável e interessante
Todo o conjunto é agradável e interessante
Há um arvoredo também, meio entrelaçado com as construções.

Nesse conjunto temos o contrário do urbanismo moderno, no qual nada é entrelaçado.

O que fariam os urbanistas contemporâneos?

Derrubariam todo o casario, para a catedral ficar à vista por todos os lados, e substituiriam por uma praça vazia, com gramado e árvores.

Resultado: perderia algo na linha do aconchego, do convívio íntimo entre peças diferentes.

Todo o conjunto é agradável e interessante — diferente do perpétuo quadrilátero das ruas modernas.


(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, excertos de conferência em 22 de maio de 1985, sem revisão do autor. Fonte: Agência Boa Imprensa).




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terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Notre-Dame será reconstruída tal como era

Notre Dame de Paris.
Fundo: Grande Cruz das Três Ordens Militares (Cristo, Santiago, Avis)
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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A “Bíblia de Pedra” que é a catedral de Notre-Dame de Paris, durante oito séculos resistiu a toda espécie de guerras, revoluções e intempéries.

Mas esteve a ponto de ruir no incêndio do telhado e da agulha em 15 de abril de 2019, deixando o mundo estupefato.

A catástrofe simbolizou a grave crise que devora a própria Igreja Católica que essa legendária catedral representa.

O resgate quase milagroso do Santíssimo Sacramento e das mais preciosas relíquias da catedral, como a Coroa de Espinhos e a túnica de São Luís, soou como uma promessa da restauração católica depois da infernal “penetração da fumaça de Satanás no templo”, tantas vezes rememorada.

Mas as ruínas fumegantes da catedral foram alvo de polêmica.

Sob o pretexto de modernizar a catedral, o presidente francês Emmanuel Macron anunciou um “gesto arquitetônico contemporâneo”, tendo sido adiantados projetos ecologistas, tribalistas ou psicodélicos que deformariam grotescamente a catedral gótica.

Em sentido contrário, imenso setor da população parisiense, francesa e mundial clamou por uma restauração “à l’identique” (segundo o modelo original da Idade Média), acrescido de aperfeiçoamentos congruentes dos séculos posteriores, e requintado no século XIX pelo genial arquiteto Eugène Viollet-le-Duc (1814-1879).

Felizmente, a disputa está perto de se resolver sensatamente.

A nova estrutura do telhado e agulha de Notre Dame replicará a medieval destruída pelo incêndio, inclusive – e com destaque – usando a madeira de carvalho tal como era, informou a revista francesa “Le Point”.

O general de exército Jean-Louis Georgelin, chefe do estabelecimento público responsável pela restauração da Catedral de Notre Dame, ficou convencido pelos especialistas: a reconstrução idêntica é a solução mais rápida, a mais barata e a mais confiável.

Também é a única opção realizável no prazo de cinco anos fixado pelo Presidente da República Emmanuel Macron!

Ele deve dar a máxima luz verde, apesar do lobby intenso das empresas de construção e de alguns arquitetos ansiosos pela glória… de desfigurar o Palácio de Nossa Senhora de Paris!

E malgrado as ansiedades do presidente socialistoide Macron pelos projetos mais exibicionistas e extravagantes!

A estrutura de Notre-Dame, e de outras catedrais medievais, feita com troncos inteiros de carvalho aguentou oito séculos sem o menor sinal de fraqueza!

Bernard Thibaut, especialista em biomecânica de árvores no CNRS, declarou após o incêndio que poderia ter durado outros mil anos. O CNRS é o Centre National de la Recherche Scientifique e tem uma importância comparável ao de um ministério, e é um  dos maiores centros do mundo na área científica.

Nenhum outro material pode se orgulhar dessa longevidade mantendo suas qualidades.

O carvalho é o material mais sofisticado e moderno do mundo, porque flexível, resistente, isolante e indestrutível.

Os vitrais ficaram praticamente intactos
Os vitrais ficaram praticamente intactos
Longe da umidade, ele resiste aos insetos quase para sempre.

“Quanto à sua inflamabilidade, você deve saber que as vigas de madeira resistem por várias horas antes de desabar.
“Isso permitiu aos bombeiros de Notre-Dame salvar vários objetos preciosos.

“Se a armação tivesse sido feita de concreto ou aço, a salvatagem não poderia ter sido efetivada por medo de um colapso repentino”, especifica Thibaut a “Le Point”.

Voltando ao incêndio, a combustibilidade da madeira não está em questão, a desconfiança aponta para o sistema informatizado de detecção de fogo que falhou completamente.

Outra enorme vantagem de uma reconstrução idêntica é que não há estudos a serem realizados.

Os arquitetos já os fizeram em escala milimétrica em 2015.

Em 2014, a empresa Graphic Art & Heritage, por sua própria iniciativa, montou uma réplica digital da estrutura fiel ao milímetro.

A estrutura de Notre-Dame solicitou no século XIII apenas mil carvalhos, 97% dos quais com menos de 60 anos, de um diâmetro de 25 a 30 centímetros.

Os outros, ou seja, de uns trinta anos, eram mais velhos, com cerca de cinquenta centímetros de diâmetro.

Os mestres carpinteiros medievais “foram capazes de enfrentar esse desafio de maneira brilhante ao projetar uma estrutura complexa, mas equilibrada, estável para si e para as paredes, com muitos dispositivos de rigidez nas treliças, reforços nos laços, duplicação das triangulações”, explica Frédéric Épaud, especialista em estruturas medievais no CNRS.

E para obter os mil carvalhos necessários, os silvicultores limparam uma área de apenas três hectares no meio da floresta.

Os mestres carpinteiros medievais fizeram uma obra insuperável com simples troncos
Ali plantaram carvalhos em uma densidade muito alta. “A forte competição os forçou a crescer muito rapidamente em direção à luz em altura, não em espessura”.

Nada de fantasias anticlericais ou ambientalistas que falam de florestas inteiras devastadas para a construção de catedrais góticas, escreve Frédéric Épaud.

Só três hectares.

Mas hoje para a reconstrução de Notre-Dame nem isso será necessário.

A França tem seis milhões de hectares de carvalho plantados sistematicamente há décadas senão algum século, em certos casos.

Não haverá dificuldade para os silvicultores encontrarem as mil árvores necessárias.

Eles serão então abatidos, tomando as precauções ecológicas necessárias, analisados com as tecnologias modernas para garantir sua perfeita condição interna e, finalmente, colocados na praça de Notre-Dame para serem imediatamente trabalhados lá.

Sim, você leu certo: “imediatamente”!

Frédéric Épaud explica que na Idade Média a madeira não era seca antes de ser modelada.

“Os documentos à nossa disposição e os estudos de outras grandes estruturas do século XIII nos permitem responder que a madeira usada nas molduras medievais nunca foi seca por anos antes de ser usada, mas cortada em verde e colocada logo após a derrubada”, confirma a “Le Point”.

Portanto, não há razão para aguardar pela reconstrução.

O machadinho dito 'doloire' foi o instrumento ideal para os carpinteiros da catedral. Na foto sobre uma pedra de afiar
O machadinho dito 'doloire'
foi o instrumento ideal para os carpinteiros da catedral.
Na foto sobre uma pedra de afiar
Uma segunda regra medieval deve ser observada: não use uma serra para cortar as toras, mas apenas o doloire, um pequeno machado.

Serrar produz vigas bem retas, mas à custa do grão da madeira. Como resultado, a resistência da madeira é muito menor.

“As madeiras trabalhadas com o doloire são mais sólidas e mais bem sustentadas do que as serradas, se deformam muito menos com a secagem, as perdas são mínimas, o trabalho é mais bonito, respeitando as formas naturais”, confirma Frédéric Épaud.

Apenas algumas empresas mantiveram esse conhecimento medieval, e será necessário treinar vários carpinteiros modernos para esse requinte tecnológico.

A estrutura será montada no chão para fazer os ajustes, depois desmontada; e içada em pedaços no topo da catedral e remontada.

Tudo isso pode ser relativamente rápido, segundo Frédéric Épaud, segundo o que ele aprendeu quando estudava a catedral de Bourges.

“A construção de sua estrutura do século XIII exigiria apenas 19 meses de trabalho para uma equipe de 15 a 20 carpinteiros, desde a renderização dos 925 carvalhos até o levantamento das fazendas.

Mestre de obras distribui os serviços.
Nos operários não há luta de classes mas muita vontade pela glória de Deus.
Embora populares, todos se vestem com grande dignidade
“Em resumo, se os carvalhos forem derrubados no próximo inverno (2020), a estrutura estará pronta para ser instalada no verão de 2022.

“Mas antes disso, teremos que consolidar a catedral, examinar e restaurar as paredes.

“Mas, novamente, isso não deve ser um problema.

“Várias de nossas catedrais já arderam na Idade Média ou no Renascimento, sem que sua reconstrução apresentasse o menor problema.

“Quanto aos vitrais, além de uma boa limpeza, eles não precisam de mais nada.

“Em resumo, podemos começar a esperar uma inauguração, como prometido, em 24 de abril de 2024.

“Vamos agora a cortar o carvalho. Não falta mais nada”, concluiu.

Falta, nos desculpe o especialista, tal vez o mais difícil: que o socialistoide presidente Macron tenha a honradez de assinar o decreto com os conselhos dos cientistas que verdadeiramente sabem sobre  catedrais.




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terça-feira, 3 de dezembro de 2019

O simbolismo divino na arte e na natureza
visto pela Idade Média

Rosácea lateral da catedral de Chartres: resumo da ordem do Universo
Rosácea lateral da catedral de Chartres: resumo da ordem do Universo
com Cristo Rei no centro.
Luis Dufaur
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continuação do post anterior: A catedral: resumo da ordem sublime de Deus impressa no Universo


A terceira característica da arte medieval reside no fato de que ela é um código simbólico.

Desde o tempo das catacumbas [nos dias da perseguição romana], a arte cristã falava por meio de figuras, ensinando os homens a verem por detrás de uma imagem uma outra coisa superior.

O artista, segundo o imaginavam os Doutores da Igreja, deve imitar a Deus, que sob a letra da Escritura escondeu um profundo significado, e que queria que a natureza também servisse de lição para o homem.

O anjo (no alto à esquerda) segura o braço de Abraão que vai sacrificar seu filho Isaac, prefigura do sacrifício do Calvário. Catedral de Chartres
O anjo (no alto à esquerda) segura o braço de Abraão
que vai sacrificar seu filho Isaac, prefigura do sacrifício do Calvário.
Catedral de Chartres
Tal concepção de arte implica uma visão profundamente idealista do esquema do universo, e a convicção de que tanto a história quanto a natureza devem ser consideradas como grandes símbolos.

Podemos fazer uma tentativa de entender a visão medieval do mundo e da natureza.

O que é o mundo visível? Qual é o significado das miríadas de formas de vida?

O que devia pensar da Criação, o monge contemplando em sua cela, ou o Doutor meditando no claustro da catedral antes de sua palestra?

É apenas aparência, ou realidade?

A Idade Média foi unânime na sua resposta: o mundo é um símbolo.

Assim como a ideia da obra reside antes na mente do artista, da mesma maneira o universo estava na mente de Deus desde o início.

Deus criou, mas criou através da Sua Palavra, ou seja, através de Seu Filho.

O mundo, portanto, pode ser definido como “um pensamento de Deus realizado através da Palavra”.

São João Batista anuncia o Cordeiro de Deus: Cristo Catedral de Chartres
São João Batista anuncia o Cordeiro de Deus: Cristo
Catedral de Chartres
Se isto é assim, então em cada ser se esconde um pensamento divino; o mundo é um livro escrito pela mão de Deus, no qual toda criatura é uma palavra carregada de significado.

O ignorante vê as formas – as letras misteriosas – sem compreender nada do seu significado, mas o sábio, a partir do visível, se eleva ao invisível, e na leitura da natureza lê os pensamentos de Deus.

O verdadeiro conhecimento, então, não consiste no estudo das coisas em si mesmas – as formas exteriores –, mas em penetrar no significado profundo delas, que Deus pôs para a nossa instrução.

Desse modo, nas palavras de Honório de Autun, “cada criatura é uma sombra da verdade e da vida”.

Todo ser manifesta em suas profundezas um reflexo do sacrifício de Cristo, a imagem da Igreja, das virtudes e dos vícios.

O mundo material e o mundo espiritual refletem uma só e derradeira realidade.


(Autor: Émile Mâle, The Gothic Image: Religious Art in France of the Thirteenth Century, New York, Harper, 1958, pp 1-2, 5, 9-15, 29).



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