Outras formas de visualizar o blog:

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Catedral gótica: síntese da fé em movimento

Catedral de Toledo, Espanha
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








“A catedral gótica, diz Charles Morey, é de fato o equivalente arquitetônico da síntese escolástica; como esta ultima resolveu pela dialética os problemas impostos pela fé, assim também os arquitetos do século XIII atingiram uma unidade integrada num conjunto de infindáveis detalhes, apesar de sua procura de espaço indeterminado.

É o espaço gótico, na arquitetura gótica, que finalmente determina seu efeito. O movimento e subtil comunicação com o espaço exterior, que dá a impressão de ligar o observador com o infinito, são potentes fatores na levitação espiritual que um interior gótico pode proporcionar; mas que ele proporciona em completa medida somente quando reforçado por sua panóplia de vitrais”[1].

O espaço gótico deixa de comensurável, de regularidade geométrica, como nos antigos interiores bizantinos, para apresentar irregular em volume e expansão.

Não se isola da amplidão exterior, mas a ela se une pelo faiscar das luzes através do clerestorio, perdendo-se o olhar pelas sombras das abobadas, pelo caprichoso emaranhar dos arcos ogivais. Em suma, é um espaço de movimento.

Catedral de Le Mans, arcobotantes
E ao mesmo tempo que o interior é místico, há perfeita ordenação racional na construção e na composição arquitetônica.

Em seu aspecto técnico, reduz-se o estilo gótico ao sistema de abobadas nervuradas por meio de arcos ogivais cruzados.

Não se deve, porém, confundir a história da arte gótica com a da abobada ogival, embora a ogiva seja uma característica essencial da nova arte que haveria de conquistar toda a Europa cristã.

Outro elemento típico do gótico é o arcobotante, que segundo a concepção dos arquitetos medievais se destinava a exercer a função técnica de transmissão do empuxo das abobadas da nave central para os contrafortes.

O sistema gótico de arcobotante não era novo, porém, no sentido construtivo. A novidade consistiu em havê-los feito visíveis em lugar de mantê-los ocultos sob as coberturas ou disfarçados nas muralhas.

Tal visibilidade é a franca afirmação estética de uma necessidade construtiva, que a sinceridade gótica transformou em expressão artística.




(Fonte: Catolicismo, Junho de 1960, Nº 114)



[1] Charles Rufus Morey, “Mediaeval Art”, Ed. W.W. Norton e Co., Inc., Nova York, 1942, pp. 265 a 266.


GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS ORAÇÕES HEROIS CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Origem do gótico

Catedral Notre Dame de Amiens
Catedral Notre Dame de Amiens
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs









O gótico surge como fruto de um movimento iniciado na “Ile de France”, verdadeiro núcleo geográfico dessa arquitetura e também da escolástica.

Dali se irradia, tomando características locais, mas mantendo sempre seus elementos fundamentais.

Um circulo de cinquenta léguas, ou aproximadamente 330 quilômetros, traçado de Paris como centro, abarca senão todas as igrejas ogivais do primeiro período, pelo menos aquelas em que a arte gótica primitiva se manifesta com toda a exuberância e em todo o seu esplendor.

É ali que, segundo todos aceitam, começa a alta escolástica por volta do século XII, justamente quando o sistema do alto gótico lograva seus primeiros triunfos em Chartres e Soissons; e ali é que se chegou a uma fase decisiva ou clássica em ambos os campos durante o reinado de São Luiz (1226 – 1270).

Foi no dito período que floresceram, entre os filósofos da alta escolástica, figuras como as de Alexandre de Hales, Alberto Magno, Guilherme de Auvergne, São Boaventura e São Tomás de Aquino.

Igreja de St-Germer-de-Fly
Também arquitetos do alto gótico entre os quais se contavam Jean de Loup, Jean de Orbais, Robert de Luzarches, Jean de Challes, Hugues Libergier e Pierre de Montereau; e os rasgos distintivos da alta escolástica – para diferenciá-la da primitiva – são notavelmente semelhantes aos que caracterizam a arte do alto gótico, diferenciando-o do gótico primitivo”[1].

Da França, em 1175, o novo estilo, passa para a Inglaterra com o mestre Guilherme de Sens, incumbido da reconstrução da catedral de Canterbury. Na Alemanha a influencia gótica far-se-ia sentir mais tarde.

No século XII ali ainda floresce a arquitetura românica. E só  século XIII o estilo ogival atingiria a Itália e outros países da Europa meridional.

No inicio o gótico era um estilo arquitetônico essencialmente religioso.

A casa permanecia românica, mais é que ele se espraia pelos palácios e pelos edifícios públicos, em sua incrível plasticidade.

Não é sem razão que Ruskin considera “de certo ponto de vista, o gótico não somente é melhor, mas a única arquitetura racional”[2], aquela que pode adaptar-se mais facilmente a todos os fins, dos mais nobres aos mais triviais.

Igreja abacial de Saint-Denis, Paris
Esse era o juízo de um homem que não era católico, antes pelo contrario, e que cometeu grandes injustiças contra a verdadeira Igreja em mais de um lugar de sua vasta obra de critico de arte.

Dobra-se, porém, reverente diante desse estilo arquitetônico gerado nas entranhas da Cristandade, numa época em que a unidade católica atingia seu apogeu.

O que caracteriza a primeira fase da arte gótica é o impulso para as alturas, a ascensão para o céu, não somente através de suas torres vertiginosas, mas, sobretudo no arrojo vertical de seus interiores, com a criação de um novo sentimento de espaço e a preponderância dos vãos sobre os maciços das muralhas e das paredes de pedra.


Continua no próximo post: Catedral gótica: síntese da fé em movimento

(Fonte: Catolicismo, Junho de 1960, Nº 114)


[1] Erwin Panofsky, “Arquitetura gótica e escolástica”, Versão castelhana, Ed. Infinito, Buenos Aires, 1959, p. 12.
[2] John Ruskin, “The Stones of Venice”, Ed. Allen e Unwin, Londres, 1925, Vol. II.  


GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS ORAÇÕES HEROIS CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

terça-feira, 1 de setembro de 2026

O ódio ao gótico é ódio à Igreja Católica

Catedral de Bourges, França
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs









A civilização medieval foi um todo orgânico e coeso, em suas partes. E seus inimigos não deixam de proclamá-los ao reconhecer essa identidade de espírito que uniu o gótico à escolástica.

Quando não vão frontalmente contra a Igreja, que foi a verdadeira criadora dessa civilização, investem ora contra a escolástica, ora contra o gótico, mas sabem que, atacando um, atingiram também os outros.

A revolução religiosa, política e social dos Tempos Modernos teve como uma de suas primeiras brigadas de choque o humanismo renascentista, que atuou sobretudo no campo estético.

E vem da Renascença a palavra “gótico”, tomada em sentido pejorativo, para designar algo de bárbaro, de grosseiro, que cumpria substituir pelas belezas do classicismo neopagão.

Semelhante ódio a essa expressão estética da civilização católica aparece, através dos séculos, junto a outras formas de destruição revolucionária.

Assim é que na Revolução Francesa são arrasados os últimos resquícios do mundo gótico e feudal, ou da Cristandade como expressão política. E a fúria do barrete frigio se exerceu não somente contra as instituições, mas também contra os castelos, contra os conventos, contra as abadias, contra as catedrais.

Catedral de Troyes, Champagne, França
Até hoje são visíveis as cicatrizes e as ruínas que assinalaram a passagem dessa horda de vândalos.

Em 1793, por exemplo, Saint-Just e La Bas ordenaram a destruição das imagens da catedral de Strasburg para transformar esse esplendido exemplo do alto gótico em “templo da razão”.

Alguém sabendo do que ia acontecer, apressadamente e às escondidas removeu para sua própria casa e instalou em seu jardim duas estatuas, verdadeiras obras primas que simbolizam a Igreja e a Sinagoga.

Mas ainda, para salvar da sanha revolucionaria os altos-relevos do “tímpano” da entrada principal, ocultou-os sob um grosseiro painel de tabuas, no qual fez escrever as palavras mágicas: “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”...

Da parte dos inimigos da Cidade de Deus, convenhamos que esse ódio ao gótico é logicamente fundamentado. Para demonstrá-lo basta que atentemos para a história desse estilo.

A arquitetura gótica não teve inicio na decadência de um estilo, mas é produto de uma nova civilização que então se estruturava e que criou novos padrões estéticos, os quais progressivamente foram se impondo a todo o mundo cristão.

Justamente o contrario da arquitetura românica, que se originou do esforço dos monges e do povo por continuar a fazer algo parecido com os edifícios romanos, cujas ruínas se espalhavam um pouco por toda parte.



(Fonte: Catolicismo, Junho de 1960, Nº 114)


GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS ORAÇÕES HEROIS CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Arquitetura gótica:
a teologia católica escrita em pedra

Catedral de Sens
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Tudo vale quando se trata de demolir o que se apresenta como um tropeço à Revolução em marcha.

É comum essa má vontade em relação à arte medieval. Citemos como exemplo “The Architectural Review”, que se publica em Londres, dedicou um número especial ao gótico.

Em sua apresentação, afirmam os editores claramente que tal manifestação de interesse pela arte ogival “só se tornou possível pelo agora indisputável estabelecimento do movimento moderno como o estilo próprio de nosso século”.

Por outras palavras, pode-se falar agora abertamente do gótico, porque teria passado perigo de qualquer tentativa de restaurá-lo, estaria ele irremediavelmente morto e enterrado sob o chão duro em a arquitetura moderna orgulhosamente ergue seus mastodontes de concreto armado.

Uma surpresa, porém aguarda o leitor desprevenido. Era de esperar que publicada na terra das maravilhosas catedrais de Canterbury, de York, de Salisbury, de Peterborough, a revista se valesse desses monumentos para ilustrar os textos.

Que vemos, todavia? Em lugar de tantos puros góticos ingleses, com ar de derrisão aparecem nas várias páginas desse número especial de “The Architectural Review” quase que exclusivamente reproduções de obras primas do mau gosto, autenticas contrafações do estilo ogival, que os editores foram buscar na tentativa de restauração gótica timidamente surgida na Inglaterra dos séculos XVIII e XIX.

Essas ilustrações, escolhidas talvez facciosamente, sugerem um problema: uma vez perdido o espírito que provocou o nascimento do gótico na Idade Média, como restaurar um estilo que foi fruto genuíno da plena aceitação da concepção católica da vida? Como fundir a estátua enquanto permanece quebrado o molde?

Catedral de Chartres: Cristo glorioso
Um estilo arquitetônico é filho de um estilo de vida e não se pode impor artificialmente, não obstante seja isto o que fazem modernamente os governos totalitários que dispõem do necessário poder discricionário e dos não menos necessários e ciclópicos recursos econômicos. Nosso propósito é bem outro.

Queremos demonstrar, tomando como ponto de partida o gótico, que a plena aceitação da verdade católica é capaz de gerar, não somente um autentico e inconfundível estilo de vida, mais também um estilo arquitetônico, uma estética própria.

Segundo Wilheim Woringer, foi Godofredo Semper, com sua atitude parcial em favor do classicismo, quem primeiro empregou a expressão “escolástica de pedra” numa canhestra tentativa de desacreditar o estilo ogival.

Mas diz o mesmo autor, “este juízo tão exato sobre a arte gótica não pode significar descrédito, a não ser para os que, incapazes de superar o estreito ponto de vista moderno, não conseguem contemplar em conjunto o grande fenômeno da escolástica”.



(Fonte: Catolicismo, Junho de 1960, Nº 114)


GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS ORAÇÕES HEROIS CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

terça-feira, 28 de abril de 2026

SIENA: formosura e praticidade

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs









A Catedral de Siena é uma catedral lindíssima construída na técnica da basílica de Orvieto.

Não foto pode-se ver o aspecto global da fachada.

Notem aquele lindo mosaico em cima, nos tímpanos das portas os belos mosaicos.

Depois outras esculturas, e a torre, listrada de mármore branco de acordo com o estilo existente em Florença e em outras cidades da Toscana.

O batistério. Em certas igrejas antigas a pia batismal ficava colocada fora da igreja, num apêndice dela.

Eram edifícios redondos.

Observem a beleza do chão.

O púlpito na catedral está inteiramente destacado de qualquer coluna e de qualquer parede.

É como que um edificiozinho isolado e grande. O pregador tinha possibilidade de se mover em todas as direções.


Tinha uma razão prática. É que essas igrejas eram muito grandes e enchiam de fiéis inteiramente.

Não havia ― felizes deles ― auto-falantes e coisas desse gênero.

E o pregador para se fazer ouvir tinha que se colocar em posições diversas no púlpito, para fazer pregação ora para este lado, ora para aquele outro, etc., para não desfavorecer excessivamente uma parte do público que estava na igreja.




Autor: Plinio Corrêa de Oliveira. Sem revisão do autor.




GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS ORAÇÕES HEROIS CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS