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terça-feira, 27 de outubro de 2026

A Suma Teológica traduzida em linguagem artistica

Catedral de Halbertstadt
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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E a decoração também assume aspecto novo e característico, do mesmo modo que a estrutura. Assim é que a escultura puramente ornamental toma um papel cada vez maior de elemento revelador da verdade.

A estatuaria, afastando-se da excessiva estilização da arte romana e oriental, passa a ser não apenas decorativa, mas também meio de expressão espiritual e até de formação catequética. São temas que se apresentam à meditação dos observadores, são lições que não faltam muitas vezes um tom ingênuo e mesmo grotesco.

Por exemplo: a inconstância é figurada por um monge que abandona seu habito à porta do convento. Os ornatos são tirados de motivos simples da vida quotidiana, da fauna e da flora que cercava o homem medieval.

Os vitrais, recém descobertos, passam a guarnecer os vãos abertos nas muralhas e paredes, vazados por janelas ogivais ao longo das naves, ou, nas fachadas, por rosáceas que iluminam o interior co luz difusa e colorida, por preferência às pinturas murais ou afrescos, para os quais não há lugar.

Catedral de Nuremberg, naveta
Mas há a pintura dos retabulos, as obras de madeira, de marfim, de metal e até mesmo de cerâmica, tudo em uma enorme variedade e riqueza de detalhes, formando, não obstante, um todo homogêneo, uma verdadeira suma teológica traduzida em linguagem artística e na qual os elementos racionais, a estrutura lógica e coerente do conjunto se harmonizam inteiramente com as varias partes componentes.

O gótico se preocupa não só do admiravelmente grande, mas também dos ínfimos detalhes.

“Um coroamento de pináculo é uma catedral em miniatura, e quem quer que mergulhe no caos artístico de um fragmento experimentará em escala reduzida a mesma embriaguez de formalismo lógico que no conjunto do edifício. A unidade da vontade de forma e sua integral realidade resplandecem aqui com inegável clareza”

Erwin Panofsky, em fascinante estudo, nos dá os traços essenciais dessa escolástica de pedra.

“Como a Summa da alta escolástica, diz ele, a catedral do alto gótico procurava antes de tudo a totalidade, e portanto tendia a aproximar-se, por síntese bem como por eliminação, a uma solução perfeita e definitiva; por isso podemos falar do plano do alto gótico ou do sistema do alto gótico com muito mais segurança do que seria possível em qualquer outro período.

“Com suas imagens, a catedral do alto gótico tratou de incorporar a totalidade do conhecimento cristão, tanto teológico quanto moral, natural e histórico, pondo cada coisa em seu lugar e suprimindo aquilo para o que não houvesse lugar”.



(Fonte: Catolicismo, Junho de 1960, Nº 114)

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terça-feira, 13 de outubro de 2026

A catedral gótica, musica solidificada

Alcobaça, Portugal
Luis Dufaur
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O principio básico do sistema é a decomposição dos elementos construtivos em ativos e passivos. São considerados elementos ativos as nervuras das abobadas, os pilares, os arcobotantes e os contrafortes.

Os passivos são as muralhas, as paredes de vedação, o recheio das abobadas, que, por não exercerem nenhuma função ativa, podem simplificar-se e até mesmo suprimir-se.

Consequência desse principio vem a ser uma estrutura elástica, isto é, uma combinação de elementos construtivos que atuam uns sobre os outros em intima correlação, mas com certa liberdade de movimento.

Ao contrario, por exemplo, da construção românica, na qual todo o edifício é um imenso bloco monolítico.

No estilo gótico, aquilo que delimita o espaço, ou seja, as muralhas e as paredes sólidas e maciças, fica como que anulado, e as funções construtivas e estéticas recaem sobre as ossaturas do edifício, sobre os elementos estáticos ativos da estrutura.

Esta fundamental mudança na maneira de conceber o conjunto arquitetônico havia de produzir seu efeito natural na configuração externa.

Se observarmos uma catedral do alto gótico por dentro, teremos a impressão de musica solidificada. Parece inconcebível como podem descansar as abobadas sobre os pilares tão frágeis.

Catedral de Beauvais, França
O edifício inteiro dá a impressão de haver ficado livre de todo peso material, de toda contenção terrestre.

Os pilares se erguem altos e flexíveis para, através das nervuras, se confundirem com as abobadas num vôo vertiginoso.

E essas nervuras, que por todos os lados se levantam do solo e aderem aos pilares como forças vivas, estruturam a abobada sem provocar a sensação de esforço e de fadiga.

Tudo nessas igrejas lembram a sensibilidade da alma medieval.

“A mística e a escolástica, as duas grandes potencias vitais da Idade Média... permanecem intimamente unidas, profundamente compenetradas. Se o espaço interior é místico, o exterior é todo escolástico.

“Une-os o mesmo afã de transcendentalismo, que se serve de diferentes meios expressivos.

“A mística do espaço interior é uma escolástica vertida ao intimo, desviada no sentido da sensação orgânica”.



(Fonte: Catolicismo, Junho de 1960, Nº 114)


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terça-feira, 29 de setembro de 2026

Catedral gótica: síntese da fé em movimento

Catedral de Toledo, Espanha
Luis Dufaur
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“A catedral gótica, diz Charles Morey, é de fato o equivalente arquitetônico da síntese escolástica; como esta ultima resolveu pela dialética os problemas impostos pela fé, assim também os arquitetos do século XIII atingiram uma unidade integrada num conjunto de infindáveis detalhes, apesar de sua procura de espaço indeterminado.

É o espaço gótico, na arquitetura gótica, que finalmente determina seu efeito. O movimento e subtil comunicação com o espaço exterior, que dá a impressão de ligar o observador com o infinito, são potentes fatores na levitação espiritual que um interior gótico pode proporcionar; mas que ele proporciona em completa medida somente quando reforçado por sua panóplia de vitrais”[1].

O espaço gótico deixa de comensurável, de regularidade geométrica, como nos antigos interiores bizantinos, para apresentar irregular em volume e expansão.

Não se isola da amplidão exterior, mas a ela se une pelo faiscar das luzes através do clerestorio, perdendo-se o olhar pelas sombras das abobadas, pelo caprichoso emaranhar dos arcos ogivais. Em suma, é um espaço de movimento.

Catedral de Le Mans, arcobotantes
E ao mesmo tempo que o interior é místico, há perfeita ordenação racional na construção e na composição arquitetônica.

Em seu aspecto técnico, reduz-se o estilo gótico ao sistema de abobadas nervuradas por meio de arcos ogivais cruzados.

Não se deve, porém, confundir a história da arte gótica com a da abobada ogival, embora a ogiva seja uma característica essencial da nova arte que haveria de conquistar toda a Europa cristã.

Outro elemento típico do gótico é o arcobotante, que segundo a concepção dos arquitetos medievais se destinava a exercer a função técnica de transmissão do empuxo das abobadas da nave central para os contrafortes.

O sistema gótico de arcobotante não era novo, porém, no sentido construtivo. A novidade consistiu em havê-los feito visíveis em lugar de mantê-los ocultos sob as coberturas ou disfarçados nas muralhas.

Tal visibilidade é a franca afirmação estética de uma necessidade construtiva, que a sinceridade gótica transformou em expressão artística.




(Fonte: Catolicismo, Junho de 1960, Nº 114)



[1] Charles Rufus Morey, “Mediaeval Art”, Ed. W.W. Norton e Co., Inc., Nova York, 1942, pp. 265 a 266.


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terça-feira, 15 de setembro de 2026

Origem do gótico

Catedral Notre Dame de Amiens
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Luis Dufaur
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O gótico surge como fruto de um movimento iniciado na “Ile de France”, verdadeiro núcleo geográfico dessa arquitetura e também da escolástica.

Dali se irradia, tomando características locais, mas mantendo sempre seus elementos fundamentais.

Um circulo de cinquenta léguas, ou aproximadamente 330 quilômetros, traçado de Paris como centro, abarca senão todas as igrejas ogivais do primeiro período, pelo menos aquelas em que a arte gótica primitiva se manifesta com toda a exuberância e em todo o seu esplendor.

É ali que, segundo todos aceitam, começa a alta escolástica por volta do século XII, justamente quando o sistema do alto gótico lograva seus primeiros triunfos em Chartres e Soissons; e ali é que se chegou a uma fase decisiva ou clássica em ambos os campos durante o reinado de São Luiz (1226 – 1270).

Foi no dito período que floresceram, entre os filósofos da alta escolástica, figuras como as de Alexandre de Hales, Alberto Magno, Guilherme de Auvergne, São Boaventura e São Tomás de Aquino.

Igreja de St-Germer-de-Fly
Também arquitetos do alto gótico entre os quais se contavam Jean de Loup, Jean de Orbais, Robert de Luzarches, Jean de Challes, Hugues Libergier e Pierre de Montereau; e os rasgos distintivos da alta escolástica – para diferenciá-la da primitiva – são notavelmente semelhantes aos que caracterizam a arte do alto gótico, diferenciando-o do gótico primitivo”[1].

Da França, em 1175, o novo estilo, passa para a Inglaterra com o mestre Guilherme de Sens, incumbido da reconstrução da catedral de Canterbury. Na Alemanha a influencia gótica far-se-ia sentir mais tarde.

No século XII ali ainda floresce a arquitetura românica. E só  século XIII o estilo ogival atingiria a Itália e outros países da Europa meridional.

No inicio o gótico era um estilo arquitetônico essencialmente religioso.

A casa permanecia românica, mais é que ele se espraia pelos palácios e pelos edifícios públicos, em sua incrível plasticidade.

Não é sem razão que Ruskin considera “de certo ponto de vista, o gótico não somente é melhor, mas a única arquitetura racional”[2], aquela que pode adaptar-se mais facilmente a todos os fins, dos mais nobres aos mais triviais.

Igreja abacial de Saint-Denis, Paris
Esse era o juízo de um homem que não era católico, antes pelo contrario, e que cometeu grandes injustiças contra a verdadeira Igreja em mais de um lugar de sua vasta obra de critico de arte.

Dobra-se, porém, reverente diante desse estilo arquitetônico gerado nas entranhas da Cristandade, numa época em que a unidade católica atingia seu apogeu.

O que caracteriza a primeira fase da arte gótica é o impulso para as alturas, a ascensão para o céu, não somente através de suas torres vertiginosas, mas, sobretudo no arrojo vertical de seus interiores, com a criação de um novo sentimento de espaço e a preponderância dos vãos sobre os maciços das muralhas e das paredes de pedra.


Continua no próximo post: Catedral gótica: síntese da fé em movimento

(Fonte: Catolicismo, Junho de 1960, Nº 114)


[1] Erwin Panofsky, “Arquitetura gótica e escolástica”, Versão castelhana, Ed. Infinito, Buenos Aires, 1959, p. 12.
[2] John Ruskin, “The Stones of Venice”, Ed. Allen e Unwin, Londres, 1925, Vol. II.  


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terça-feira, 1 de setembro de 2026

O ódio ao gótico é ódio à Igreja Católica

Catedral de Bourges, França
Luis Dufaur
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A civilização medieval foi um todo orgânico e coeso, em suas partes. E seus inimigos não deixam de proclamá-los ao reconhecer essa identidade de espírito que uniu o gótico à escolástica.

Quando não vão frontalmente contra a Igreja, que foi a verdadeira criadora dessa civilização, investem ora contra a escolástica, ora contra o gótico, mas sabem que, atacando um, atingiram também os outros.

A revolução religiosa, política e social dos Tempos Modernos teve como uma de suas primeiras brigadas de choque o humanismo renascentista, que atuou sobretudo no campo estético.

E vem da Renascença a palavra “gótico”, tomada em sentido pejorativo, para designar algo de bárbaro, de grosseiro, que cumpria substituir pelas belezas do classicismo neopagão.

Semelhante ódio a essa expressão estética da civilização católica aparece, através dos séculos, junto a outras formas de destruição revolucionária.

Assim é que na Revolução Francesa são arrasados os últimos resquícios do mundo gótico e feudal, ou da Cristandade como expressão política. E a fúria do barrete frigio se exerceu não somente contra as instituições, mas também contra os castelos, contra os conventos, contra as abadias, contra as catedrais.

Catedral de Troyes, Champagne, França
Até hoje são visíveis as cicatrizes e as ruínas que assinalaram a passagem dessa horda de vândalos.

Em 1793, por exemplo, Saint-Just e La Bas ordenaram a destruição das imagens da catedral de Strasburg para transformar esse esplendido exemplo do alto gótico em “templo da razão”.

Alguém sabendo do que ia acontecer, apressadamente e às escondidas removeu para sua própria casa e instalou em seu jardim duas estatuas, verdadeiras obras primas que simbolizam a Igreja e a Sinagoga.

Mas ainda, para salvar da sanha revolucionaria os altos-relevos do “tímpano” da entrada principal, ocultou-os sob um grosseiro painel de tabuas, no qual fez escrever as palavras mágicas: “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”...

Da parte dos inimigos da Cidade de Deus, convenhamos que esse ódio ao gótico é logicamente fundamentado. Para demonstrá-lo basta que atentemos para a história desse estilo.

A arquitetura gótica não teve inicio na decadência de um estilo, mas é produto de uma nova civilização que então se estruturava e que criou novos padrões estéticos, os quais progressivamente foram se impondo a todo o mundo cristão.

Justamente o contrario da arquitetura românica, que se originou do esforço dos monges e do povo por continuar a fazer algo parecido com os edifícios romanos, cujas ruínas se espalhavam um pouco por toda parte.



(Fonte: Catolicismo, Junho de 1960, Nº 114)


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