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terça-feira, 17 de setembro de 2024

França, berço do estilo gótico

Basílica abacial de Saint-Denis, Paris, França, ábside.
foto David Iliff
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







O núcleo central do gótico tomou forma na região francesa da Île-de-France, e que abarca a zona de Paris e arredores.

Portanto, a abadia de Saint-Denis e a catedral de Notre-Dame.

Estendeu-se depois com celeridade a todo o território francês, e transpondo-o, ramificou-se por toda a Europa católica.

O estilo gótico não ficou parado, mas desenvolveu-se prodigiosamente, dando origem a inúmeras variantes cujo estudo requereu muitos tratados.

E ainda outros estão sendo escritos.

Uma catedral inspira outra, mas nenhuma é igual. Cada qual oferece e desenvolve um aspecto novo.

Nunca há ruptura com os ideais anteriores, mas antes uma assimilação de elementos novos ou antiquíssimos.

O avanço técnico é prodigioso, nas mãos das corporações de construtores, grupos formados pelos mestres anônimos a serviço das construções monásticas ou episcopais, que se movem livremente de obra em obra e elaboram novas técnicas.

A decoração interna e externa dos edifícios tornou-se complexa e requintada.

A perfeição da geometria das formas se inspirava no Templo de Salomão, que Deus revelou como está nas Escrituras. Mas em certo sentido a superava.

Vitrais, estátuas e baixo relevos narram a Bíblia, a vida dos santos, a teologia, a filosofia, descrevem os grandes homens da Antiguidade inclusive greco-romana, as atividades das profissões, as estações dos anos, a disposição dos astros.

Em resumo: a Ordem do Universo. 

Iluminura representando peregrinos rumo a Santiago de Compostela.
Iluminura representando peregrinos rumo a
Santiago de Compostela.
O estilo gótico é contagiante e persuasivo.

Penetrou na sociedade em toda espécie de prédios, inclusive em moradias da burguesia, em prédios públicos, hospitais e outras construções citadinas.

Não ficou só na arquitetura.

Gerou uma escultura própria, que se afirmou pela primeira vez na catedral de Chartres.

A pintura gótica teve seu apogeu entre 1300 e 1350, mas seus primeiros passos foram dados na Inglaterra e na França por volta de 1200; na Alemanha, em torno de 1220; e na Itália, de 1300 e 1400.

As iluminuras constituem os vitrais dos manuscritos.

Figuras e imagens estão integradas num ambiente arquitetônico de fundo gótico e exibem as mesmas expressões graciosas da decoração das catedrais.

A bênção de Deus desceu sobre aquelas magníficas realizações, dotando-as com a mais fina ponta do encanto, que atrai milhões de peregrinos ou simples curiosos do III milênio.

Bibliografia 

BARROS, José D'Assunção. O Romantismo e o Revival Gótico no século XIX . ArteFilosofia – Revista do Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade Federal de Ouro Preto, vol.VI, abr/2009. UFOP. Ouro Preto: UFOP, 2009.
FERRATER MORA. Diccionario de Filosofía. México: Editorial Atlante, 1944.
PANOFSKY, Erwin. O Abade Suger de S. Denis. In, Significado nas Arte Visuais. São Paulo: Perspectiva, 2002.
TONAZZI, Pascal. Florilège de Notre-Dame de Paris (anthologie). Paris: Editions Arléa, 2007.
DROSTE-HENNINGS, Julia, DROSTE, Thorsten. Paris-Eine Stadt und ihr Mythos. Köln: DuMont Buchverlag, 2000.
JANSON, H. W. História da Arte. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1992.
JAXTHEIMER, Bodo W., Die Baukunst-Stillkunde Gotik. Augsburg: Bechtermünz Verlag, 1982.
Estilo gótico, Wikipedia, https://pt.wikipedia.org/wiki/Estilo_g%C3%B3tico, 20/09/2015 16:35:47






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terça-feira, 14 de maio de 2024

A catedral gótica: resumo da ordem do universo,
onde Deus faz suas delícias

Catedral de Soissons, França. foto David Iliff.
Catedral de Soissons, França.
foto David Iliff.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








No contexto medieval dos séculos XI e XII, as escolas monásticas e episcopais sediavam grandes escolas de teologia.

Essas escolas procuraram explicitar a fundo a ordem posta por Deus na Criação para a Sua maior glória. A ordem do universo contida na Bíblia foi cotejada com os ensinamentos aproveitáveis dos gênios gregos e romanos da antiguidade.

O estudo, a contemplação, a meditação e a oração permitiram aos mestres espirituais medievais atingir um conhecimento profundamente raciocinado da grandiosidade e do simbolismo da glória de Deus e da Igreja, impressos na imensa catedral divina que é o Universo.

O gótico nasceu como sendo o estilo mais adequado para exprimir a fisionomia com que Deus que Se faz conhecer na Criação.

Por isso a catedral, que já era a casa de Deus por excelência, tinha que conter em si, embora em miniatura, a majestosa ordenação espiritual, metafísica e material de toda a estrutura e de toda a beleza do criado.

Na hora de reconstruir a abadia real de Saint-Denis, hoje na periferia de Paris, o abade beneditino Suger vivificou a primeira catedral gótica.

Ele reuniu de modo indissociável a ordem monárquico-aristocrática divina, refletida entre os homens pela monarquia francesa, e a glória da Igreja Católica, Corpo Místico de Cristo, governada pelos sucessores de São Pedro e dos Apóstolos.

Ambulatório da igreja de St-Germain l'Auxerrois, Paris, França. Foto David Iliff
O abade Suger apelou para incontáveis progressos arquitetônicos medievais registrados nos quatro cantos da França, fazendo vir de toda parte mestres-de-obras, escultores e artistas.

E aplicou pela primeira vez, de modo generalizado, a ogiva gótica. Os muros subiram a alturas nunca vistas, e as delicadas paredes sustentadas por abóbadas de nervuras e arcobotantes se abriam para a entrada gloriosa da luz.

Cristo é a Luz que ilumina todas as coisas. Pela primeira vez, os artistas começaram a pintar com luz, a qual passou a dar sentido e vida aos vitrais como o espírito ilumina e vivifica a matéria.

Nos vitrais, Deus passou a Se dar a conhecer através da luz, como Cristo no Tabor.

Basílica abacial de St Denis, Paris, França, rosácea do transepto norte. foto David Iliff
Basílica abacial de St Denis, Paris, França, rosácea do transepto norte.
foto David Iliff
O estilo gótico afirmou uma nova filosofia. Deus pôs harmonia e proporção no Universo criando-o com “número, peso e medida”, como ensinam as Escrituras. Aprofundando essa verdade, os mestres medievais abriram os olhos dos homens para as relações matemáticas sapienciais, musicais, existentes em todas as coisas.

E a ordem clara e hierárquica, impregnada de simbolismo e que governa todas as coisas, ficou explícita e Deus refletido nela foi adorado.

Como São Tomás de Aquino, Suger lia, admirava e comentava a teologia de Pseudo-Dionísio, o Areopagita, a hierarquia luminosa dos anjos e a fabulosa riqueza de seres, como as estrelas no céu as areias no mar.

E após considerar o oceano de perfeições que Deus pôs ao nosso alcance, procurava imaginar as insondáveis belezas que Deus nos tem reservado para a eternidade. E aspirava por uma representação material dessa Jerusalém Celeste que ajudasse os homens a atravessar este vale de lágrimas.

A luz é a comunicação do divino, do sobrenatural, é o veículo real para a comunhão com o sagrado. Através dela o homem comum pode admirar a glória de Deus e aperceber-se melhor da sua mortalidade e inferioridade.

Através dos vitrais, a luz cria uma áurea de misticismo. Catedral São Pedro, Beauvais, França.
Através dos vitrais, a luz cria uma áurea de misticismo.
Catedral São Pedro, Beauvais, França.
A luz exerce um papel crucial no interior da catedral.

Através dos grandes vitrais, ela se difunde numa áurea de misticismo, enquanto a verticalidade das ogivas reforça a carga simbólica e o empuxe ascensional rumo às hierarquias celestes.

As paredes, libertas da sua função de apoio, sobem em altura gerando um espaço gracioso e etéreo que toca no Céu e na eternidade.

A catedral não é enigmática nem esotérica como os templos do paganismo do Oriente. Ela é acessível ao homem comum, atraindo-o de modo palpável.

A criança é capaz de assimilar e compreender suas imagens e vitrais.

Nelas ela aprende o catecismo, a História Sagrada, os rudimentos da Fé e da filosofia, da vida dos santos e das lendas, bem como histórias de seu país.

Mais ainda. O templo gótico torna-se o ponto de contato com o divino, é um livro de pedra onde o simples fiel ouve a Deus e como que fala com Ele e O vê com seus santos e seus anjos.

Nossa Senhora está ali e a maioria das novas catedrais medievais lhe é dedicada – a Notre-Dame.




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