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quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Faça uma visita virtual à catedral de Exeter, Inglaterra


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A catedral de Exeter está dedicada a São Pedro

Pode parecer paradoxal que uma catedral hoje em uso pelos protestantes anglicanos esteja consagrada ao Príncipe do Apóstolo contra o qual se revoltaram os chefes protestantes na pessoa do legítimo sucessor de Pedro, o Papa.

Porém é tal o prestígio da Igreja Católica que esses revolucionários que se apropriaram indevidamente da catedral católica não ousaram mexer com a dedicatória.

Fachada da catedral de Exeter, Inglaterra.
A primeira pedra da catedral de Exeter foi posta no ano 1050 em meio a um drama.

Nessa data, o bispado cuja sé é a catedral foi trasladado da vizinha cidade de Crediton, onde tinha nascido o grande São Bonifácio, apóstolo das terras germânicas.

A mudança foi forçada pela necessidade de encontrar proteção contra os “piratas” do mar, segundo os documentos da época.

Mais provavelmente se tratava dos vikings, ou “reis dos mares” que naquela época eram pagãos e pilhavam e incendiavam as cidades costeiras ou a beira rio.

Em Exeter ainda existia uma muralha construída pelos romanos que fornecia segurança. Exeter fica no condado de Devon e é uma das mais antigas cidades da Inglaterra.

Exeter, capela lateral. Foto: Dietmar Rabich.
Sua estrutura arquitetônica gótica está toda impregnada de influências normandas.

E os normandos eram os descendentes dos “vikings” que forçaram a migração, mas foram finalmente convertidos é se instalaram na atual Normandia (literalmente ‘terra dos homens do norte’)!

Guilherme o Conquistador, duque de Normandia (1035 – 1087, rei desde 1066) foi nomeado por Santo Eduardo o Confessor (1004–1066) para sucedê-lo no trono da Inglaterra.

Guilherme levou os costumes católicos franceses para Inglaterra, fato que propiciou a entrada do gótico no país.

E seu sobrinho D. William Warelwast, assim que foi nomeado bispo mandou fazer a nova catedral em estilo normando, que foi inaugurada em 1133.

Depois, foi objeto de muitas reformas até que foi completada inteiramente por volta do ano 1400.

Nota caraterística do estilo gótico normando são as imponentes torres, sobre tudo a chamada “lanterna” no transepto – portanto não na fachada mas bem no meio da nave do prédio religioso.




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quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O simbolismo divino na arte e na natureza visto pela Idade Média

Rosácea lateral da catedral de Chartres: resumo da ordem do Universo
Rosácea lateral da catedral de Chartres: resumo da ordem do Universo
com Cristo Rei no centro.



continuação do post anterior: A catedral: resumo da ordem sublime de Deus impressa no Universo


A terceira característica da arte medieval reside no fato de que ela é um código simbólico.

Desde o tempo das catacumbas [nos dias da perseguição romana], a arte cristã falava por meio de figuras, ensinando os homens a verem por detrás de uma imagem uma outra coisa superior.

O artista, segundo o imaginavam os Doutores da Igreja, deve imitar a Deus, que sob a letra da Escritura escondeu um profundo significado, e que queria que a natureza também servisse de lição para o homem.

O anjo (no alto à esquerda) segura o braço de Abraão que vai sacrificar seu filho Isaac, prefigura do sacrifício do Calvário. Catedral de Chartres
O anjo (no alto à esquerda) segura o braço de Abraão
que vai sacrificar seu filho Isaac, prefigura do sacrifício do Calvário.
Catedral de Chartres
Tal concepção de arte implica uma visão profundamente idealista do esquema do universo, e a convicção de que tanto a história quanto a natureza devem ser consideradas como grandes símbolos.

Podemos fazer uma tentativa de entender a visão medieval do mundo e da natureza.

O que é o mundo visível? Qual é o significado das miríadas de formas de vida?

O que devia pensar da Criação, o monge contemplando em sua cela, ou o Doutor meditando no claustro da catedral antes de sua palestra?

É apenas aparência, ou realidade?

A Idade Média foi unânime na sua resposta: o mundo é um símbolo.

Assim como a ideia da obra reside antes na mente do artista, da mesma maneira o universo estava na mente de Deus desde o início.

Deus criou, mas criou através da Sua Palavra, ou seja, através de Seu Filho.

O mundo, portanto, pode ser definido como “um pensamento de Deus realizado através da Palavra”.

São João Batista anuncia o Cordeiro de Deus: Cristo Catedral de Chartres
São João Batista anuncia o Cordeiro de Deus: Cristo
Catedral de Chartres
Se isto é assim, então em cada ser se esconde um pensamento divino; o mundo é um livro escrito pela mão de Deus, no qual toda criatura é uma palavra carregada de significado.

O ignorante vê as formas – as letras misteriosas – sem compreender nada do seu significado, mas o sábio, a partir do visível, se eleva ao invisível, e na leitura da natureza lê os pensamentos de Deus.

O verdadeiro conhecimento, então, não consiste no estudo das coisas em si mesmas – as formas exteriores –, mas em penetrar no significado profundo delas, que Deus pôs para a nossa instrução.

Desse modo, nas palavras de Honório de Autun, “cada criatura é uma sombra da verdade e da vida”.

Todo ser manifesta em suas profundezas um reflexo do sacrifício de Cristo, a imagem da Igreja, das virtudes e dos vícios.

O mundo material e o mundo espiritual refletem uma só e derradeira realidade.

(Autor: Émile Mâle, The Gothic Image: Religious Art in France of the Thirteenth Century, New York, Harper, 1958, pp 1-2, 5, 9-15, 29).



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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

A catedral: resumo da ordem sublime de Deus
impressa no Universo

Coroação de Nossa Senhora, fachada da catedral de Reims.
Os anjos fazem de assistentes da cerimônia.

Primeiramente, a Idade Média tinha paixão pela ordem. Os medievais organizaram a arte como tinham organizado o dogma, o aprendizado temporal e a sociedade.

A representação artística de temas sagrados era uma ciência regida por leis fixas, que não podia ser quebrada pelos ditames da imaginação individual.

A arte da Idade Média é uma escritura sagrada, cujos caracteres todo artista deve aprender.

Ele deve saber que a auréola circular colocada por trás da cabeça serve para expressar a santidade, enquanto a aureola com uma cruz é o sinal da divindade e sempre usada para pintar qualquer uma das três Pessoas da Santíssima Trindade.

A segunda característica da iconografia medieval é a obediência às regras de uma espécie de matemática sagrada. Posição, agrupamento, simetria e número são de extraordinária importância.

A simetria era considerada a expressão de uma misteriosa harmonia interior. O artista fazia o paralelismo dos doze Patriarcas e dos doze Profetas da Antiga Lei e dos doze Apóstolos da Nova, e dos quatro principais Profetas com os quatro Evangelistas.

Esquemas desse tipo pressupõem uma crença fundamentada no valor dos números. E, de fato, a Idade Média nunca duvidou que os números tivessem relação com o poder divino, oculto a nossos olhos.

São Lucas Evangelista é representado pelo boi. Catedral de Reims, detalhe da fachada.
São Lucas Evangelista é representado pelo boi.
Catedral de Reims, detalhe da fachada.
O boi era sacrificado no Templo de Jerusalém e São Lucas
nos fala dos sofrimentos que padeceu Nosso Senhor.
Esta doutrina vinha dos Padres da Igreja, que a herdaram das escolas antigas e fez reviver o gênio de Pitágoras.

É evidente que Santo Agostinho considerava os números como os pensamentos de Deus.

Em muitas passagens ele afirma que cada número tem seu significado divino.

“A Sabedoria Divina é refletida nos números e está impressa em todas as coisas”.

Da mesma forma, o edifício do mundo material e do mundo moral está baseado nos números eternos.

Nós sentimos que o encanto da dança está no ritmo, quer dizer, no número; mas temos de ir mais longe, a beleza é em si uma cadência, um número harmonioso.

A ciência dos números então é a ciência da ordem do universo, e os números nos ensinam sua ordem profunda.

Alguns exemplos nos fornecem certa ideia do método. De Santo Agostinho em diante todos os teólogos interpretaram o significado do número doze da mesma forma.

Doze é o número da Igreja universal, e foi por razões profundas que Jesus quis que o número de Seus apóstolos fosse doze. Agora, doze é o produto de três vezes quatro.

Apóio para as leituras sagradas, catedral de Reims. Ouvindo a palavra de Deus, a alma deve se elevar aos Céus como a águia que levanta vôo.
Apóio para as leituras sagradas, catedral de Reims.
Ouvindo a palavra de Deus, a alma deve se elevar aos Céus
como a águia que levanta vôo.
Três, que é o número da Trindade e, por conseqüência, da alma feita à imagem da Trindade, simboliza todas as coisas que são espirituais.

Quatro, o número de elementos, é o símbolo de coisas materiais – o corpo e o mundo – que resultam de combinações dos quatro elementos.

O significado místico da multiplicação de três por quatro é a infusão do espírito na matéria, de proclamar as verdades da fé para o mundo, para estabelecer a Igreja Católica, de que os Apóstolos são o símbolo.

Os Doutores que comentaram a Bíblia nos ensinam que, se Gedeão partiu com trezentos companheiros, não foi sem alguma razão simbólica e que o número esconde um mistério.

Em grego, trezentos é representado com a letra Tau (T). Mas o T é a figura da Cruz; portanto, por trás de Gedeão e de seus companheiros, devemos ver Cristo e a Cruz.

A Divina Comédia de Dante é o exemplo mais famoso, pois está ordenada em função de números.

Os nove círculos do inferno correspondem aos nove terraços do monte do Purgatório e aos nove céus do Paraíso.

Nesse poema inspirado, nada foi deixado apenas à inspiração; Dante determinou que cada parte de sua trilogia deveria ser dividida em trinta e três cantos, em homenagem aos 33 anos da vida de Cristo.

Dante aceitava a lei que rege os números como um ritmo divino, ao qual o universo obedece.

(Autor: Émile Mâle, The Gothic Image: Religious Art in France of the Thirteenth Century, New York, Harper, 1958, pp 1-2, 5, 9-15, 29).

continua no próximo post: O simbolismo divino na arte e na natureza visto pela Idade Média


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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Basílica de São Remígio: o ambiente sobrenatural no dia do batismo de Clóvis, rei dos francos

Fachada principal de Saint-Rémi
Fachada principal de Saint-Rémi

Pode-se imaginar a intensidade da graça do momento em que Clóvis, rei dos francos, foi batizado na basílica de São Remígio, em Reims (França)?

Naquele momento nasceu para a Igreja Católica a nação francesa com todas as glórias que ela traria para Deus.

Nesse dia, a Igreja batizou a sua filha primogênita.

Podem-se imaginar graças de alegria, de afeto, de força, de entusiasmo, de energias naturais e sobrenaturais absolutamente novas nesse momento.

Teve algo de parecido com o mundo depois que Noé e os dele saíram da arca e se viu o Arco-Íris. Esta deveria ser a atmosfera dentro da Catedral de Reims.

Então, nós compreendemos a glória de São Remígio. Quantas orações ele há de ter feito, quantos sofrimentos ele há de ter padecido, para que essa imensa aspiração que ele trazia ‒ e que era o contrário do mundo pagão em desordem ‒, afinal de contas virasse realidade.

Há imagens da Idade Média representando pessoas puras que, quando dormiam o sono eterno, da boca nascia um lírio.

De São Remígio nasceu muito mais do que um lírio: nasceu a flor-de-lis da França.

Nave central da basílica de São Remígio.
Nave central da basílica de São Remígio.
Da alma e da santidade desse bispo, das orações de santa Clotilde, mãe de Clóvis, nasceu a grandeza da França que veio depois.

Depois de ter sido batizado Clovis, foi batizado mais alguém.

Esse alguém foi o ponto de partida genealógico, segundo aquelas genealogias um pouco fabulosas mas imensamente simpáticas da Idade Média, da casa de Montmorency.

Os duques de Montmorency iam para a batalha com sua mesnada. E todos gritavam marchando para o inimigo de espada em punho: “Dieu aide le premier chrétien”: “Que Deus ajude o primeiro cristão!”

Nesta história sente-se que há uma aliança do primeiro cristão com Deus que é uma coisa inefável, maravilhosa.

Mais bonito do que o ambiente de graças do batismo de Clóvis só entrar no Céu. Ai então tudo é indescritível, e tudo quanto há na terra são prefiguras.


Uma prefigura do Céu viveu-se naquele dia em que São Remígio batizou Clóvis e, com ele, a nascente nação francesa.

(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, 1.10.64. Sem revisão do autor.)



A basílica do santo bispo que converteu a França

A abadia de Saint-Remi na cidade de Reims, França, foi fundada no século VI. Dela resta sua imponente basílica onde, desde 1099 são conservadas as relíquias do bispo Saint Remi, ou São Remígio, morto em 553.

No fundo: o coro com o túmulo de São Remígio
No fundo: o coro com o túmulo de São Remígio

O santo bispo de Reims converteu Clóvis I, rei dos francos que vinha de derrotar os alamanos na batalha de Tolbiac, após miraculosa intervenção divina. Leia mais em: O milagre de Tolbiac e a conversão da França

As humildes origens da grande abadia de Reims são escuras. De início no local existiu uma pequena capela dedicada a São Cristóvão, cujas relíquias foram trazidas por Saint Remi em 553.

Nessa humilde capela foi batizado o rei dos francos, até então chefe de uma horda de bárbaros. Maravilhado pelo ambiente sobrenatural, o rei Clóvis I pergunto ao santo bispo: “Meu pai, isto já é o Céu?”.

Túmulo de São Remígio, no interior da basílica.
Túmulo de São Remígio, no interior da basílica.
Naquele momento nasceu a França “a filha primogênita da Igreja”, pois foi a primeira nação da Cristandade ocidental a se converter.

No século IX a abadia possuía cerca de setecentas propriedades e era talvez a mais rica da França.

Os monges beneditinos garantiam a presença monástica. De 780 a 945 os arcebispos de Reims foram os abades. Nessa abadia Carlos Magno recebeu o Papa Leão III.

Em 1005 o abade Aviard iniciou a reconstrução da basílica que foi terminada pelo abade Teodorico e está em pé até nossos dias.

A basílica atual foi consagrada pelo Papa Leão IX em 1049 que lhe garantiu muitos privilégios eclesiásticos. A nave é do século XI e o transepto, em estilo românico, são mais velhos; a fachada do transepto sul é posterior.

A biblioteca da abadia e sua escola tinham imensa reputação. Pela reforma carolíngea bispados, abadias e paróquias deviam dispensar ensino gratuito, incluíndo alimentação, roupas e materiais escolares para os alunos de todas as classes sociais.

Entre 1170 e 1180 foi feito o coro para nele instalar a urna com as relíquias de Saint Remi.

Os arcebispos de Reims e muitos príncipes, Carlomano I (irmão de Carlos Magno), Henri d'Orléans e reis como Luís IV de França e Lotário foram enterrados nesta basílica.

Sobre o túmulo: o batismo e a milagrosa Santa Ampola.
Sobre o túmulo: o batismo e a milagrosa Santa Ampola.
Seu rico tesouro, portador de uma história de valor ainda mais incalculável, foi selvagemente pilhado pela Revolução Francesa em nome da trilogia revolucionária ‘Liberdade-Igualdade-Fraternidade’, e desapareceu.

Um dos objetos cuja destruição era especialmente visada pelos revolucionários foi a Santa Ampola da coroação de reis da França.

Ela foi trazida por um pombo misterioso durante o batismo de Clóvis e continha um óleo sagrado usado na unção dos novos reis da França.

Mãos piedosas conseguiram extrair parte desse óleo enquanto a ralé criminosa avizinhava, e ainda existe tendo servido para sagrar o rei Carlos X em 1830.

Malgrado as ímpias profanações e destruições, a basílica de Saint Remi bem restaurada é um dos grandes pontos de visitação em Reims, além da famosíssima catedral dedicada a Nossa Senhora e do Palácio do Tau onde acontecia a preparação dos príncipes que iam ser coroados reis.



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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

O entusiasmo religioso na construção da catedral de Chartres

Como foram feitas as catedrais medievais? O renomeado historiador da arte Émile Mâle descreve alguns aspectos do ambiente de fervor na construção da catedral de Chartres, de causar admiração. Eis o texto:

A história da catedral de Chartres, aquela que temos sob os nossos olhos, marcou o início do século XII.

A velha catedral, que havia sido levantada pelo bispo D. Fulberto (952-970 –1028) nos primeiros anos do século XI e que fora restaurada por Santo Ivo (1040 – 1115), ainda estava de pé, mas começando a parecer modesta demais.

As gerações heroicas que fizeram as cruzadas tinham o amor da grandeza. Um pouco antes da metade do século XII, deliberaram levantar um campanário isolado a alguma distância da fachada.

Aconteceu que, no século XII, da mesma maneira que nos tempos antigos, a torre foi concebida como edifício separado que não se ligava ao resto da igreja.

Esta foi a origem da torre norte, que Jean de Beauce completou no século XVI com uma flecha de estilo gótico flamejante.

Mas logo o senso da simetria levou a reproduzir, fazendo pendant do lado sul, um campanário similar. Decidiu-se que as duas torres já não mais ficariam isoladas, mas reunidas à catedral, que seria ampliada até encontrá-las.

Finalmente, decidiu-se construir, mais além da antiga fachada do século XI, uma outra, muito mais magnífica, que seria embelezada com esculturas e que tornaria a catedral verdadeiramente digna de Nossa Senhora.

Esta fachada deveria aparecer por trás das duas torres, que a emoldurariam com sua poderosa projeção e a banhariam com uma meia luz propícia para ressaltar o mistério das esculturas.

Tal era a intenção primitiva da nova fachada que alguns anos depois foi mudada para frente e reedificada entre as duas torres.

O entusiasmo das multidões

Essas altas torres, que se erguiam em louvor de Nossa Senhora, suscitaram na região de Chartres um entusiasmo que nos pareceria inacreditável se não fosse atestado por muitos relatos contemporâneos.

Nós entrevemos aqui algo do gênio do século XII, que é um dos grandes séculos de nossa história.

Em 1144, Robert de Torigni, abade do Monte Saint-Michel, escreveu em sua Crônica:

“Neste ano, se viu em Chartres fiéis que se atrelavam a carros carregados com pedras, madeira, trigo e tudo o que poderia ser usado nos trabalhos da catedral, cujas torres cresciam como por arte de magia. O entusiasmo tomou conta da Normandia e da França: em todos os lugares se viam homens e mulheres arrastar fardos pesados através de pântanos lamacentos; por toda parte se fazia penitência, em todo lugar perdoavam-se os inimigos”.

Robert de Torigni nos assegura que o exemplo veio de Chartres, e nada é mais exato.

Em uma carta escrita no ano seguinte, Haimon, abade de Saint-Pierre-sur-Dives, confirma ponto por ponto esta narração. Ele conta aos monges ingleses de Tutbury os eventos extraordinários que aconteciam nesse momento sob seus olhos na Normandia.

“Acabam de formar-se confrarias – disse-lhes – à imitação daquela que nasceu na catedral de Chartres. Vemos milhares de fiéis, homens e mulheres, se atrelarem a pesados carros carregados com tudo o que é necessário para os operários: madeira, cal, vinho, trigo, óleo. Entre aqueles servos voluntários há senhores poderosos e mulheres de nobre berço. Entre eles reina a mais perfeita disciplina e um profundo silêncio. Durante a noite, eles se reúnem num acampamento com suas charretes, o iluminam com velas e entoam cânticos. Eles trazem seus doentes, na esperança de que serão curados. Está estabelecida a união dos corações; e se alguém está tão endurecido que não perdoa seus inimigos, a sua oferenda é removida da charrete como algo impuro, e ele próprio é expulso com nota de ignomínia da sociedade do povo santo”.

No mesmo ano de 1145, uma carta de Hugo, arcebispo de Rouen, dá a conhecer a Thierry, bispo de Amiens, eventos em tudo similares. Ele lhe informa que os normandos, tendo ouvido falar do que estava acontecendo em Chartres, ficaram determinados a imitar aquilo que tinham visto. Eles constituíram associações e, após terem confessado seus pecados, se atrelaram às carroças sob a liderança de um chefe.

“Nós permitimos – acrescenta o arcebispo – a nossos diocesanos praticarem esta devoção em outras dioceses”. Esta preciosa passagem nos prova que muitas outras igrejas, cujos nomes ficaram desconhecidos para nós, foram construídas dessa maneira.

A fecundidade artística do século XII tem qualquer coisa de prodigioso. Há na França vastas regiões onde quase não há uma igreja de aldeia que não remonte ao século XII.

Ficamos espantados quando pensamos em todo o talento, todo o trabalho e todos os recursos empregados para realizar essa imensa obra.

Houve então um impulso de fé, de abnegação, um espírito de sacrifício, do qual a construção das torres de Chartres é o mais belo exemplo.

Video: construção da catedral Notre Dame de Paris




(Autor: Émile Mâle, da Académie Française, Notre-Dame de Chartres, Flammarion, Paris, 1994, 190 páginas, p.23-26.)


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