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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

A catedral: resumo da ordem sublime de Deus
impressa no Universo

Coroação de Nossa Senhora, fachada da catedral de Reims.
Os anjos fazem de assistentes da cerimônia.

Primeiramente, a Idade Média tinha paixão pela ordem. Os medievais organizaram a arte como tinham organizado o dogma, o aprendizado temporal e a sociedade.

A representação artística de temas sagrados era uma ciência regida por leis fixas, que não podia ser quebrada pelos ditames da imaginação individual.

A arte da Idade Média é uma escritura sagrada, cujos caracteres todo artista deve aprender.

Ele deve saber que a auréola circular colocada por trás da cabeça serve para expressar a santidade, enquanto a aureola com uma cruz é o sinal da divindade e sempre usada para pintar qualquer uma das três Pessoas da Santíssima Trindade.

A segunda característica da iconografia medieval é a obediência às regras de uma espécie de matemática sagrada. Posição, agrupamento, simetria e número são de extraordinária importância.

A simetria era considerada a expressão de uma misteriosa harmonia interior. O artista fazia o paralelismo dos doze Patriarcas e dos doze Profetas da Antiga Lei e dos doze Apóstolos da Nova, e dos quatro principais Profetas com os quatro Evangelistas.

Esquemas desse tipo pressupõem uma crença fundamentada no valor dos números. E, de fato, a Idade Média nunca duvidou que os números tivessem relação com o poder divino, oculto a nossos olhos.

São Lucas Evangelista é representado pelo boi. Catedral de Reims, detalhe da fachada.
São Lucas Evangelista é representado pelo boi.
Catedral de Reims, detalhe da fachada.
O boi era sacrificado no Templo de Jerusalém e São Lucas
nos fala dos sofrimentos que padeceu Nosso Senhor.
Esta doutrina vinha dos Padres da Igreja, que a herdaram das escolas antigas e fez reviver o gênio de Pitágoras.

É evidente que Santo Agostinho considerava os números como os pensamentos de Deus.

Em muitas passagens ele afirma que cada número tem seu significado divino.

“A Sabedoria Divina é refletida nos números e está impressa em todas as coisas”.

Da mesma forma, o edifício do mundo material e do mundo moral está baseado nos números eternos.

Nós sentimos que o encanto da dança está no ritmo, quer dizer, no número; mas temos de ir mais longe, a beleza é em si uma cadência, um número harmonioso.

A ciência dos números então é a ciência da ordem do universo, e os números nos ensinam sua ordem profunda.

Alguns exemplos nos fornecem certa ideia do método. De Santo Agostinho em diante todos os teólogos interpretaram o significado do número doze da mesma forma.

Doze é o número da Igreja universal, e foi por razões profundas que Jesus quis que o número de Seus apóstolos fosse doze. Agora, doze é o produto de três vezes quatro.

Apóio para as leituras sagradas, catedral de Reims. Ouvindo a palavra de Deus, a alma deve se elevar aos Céus como a águia que levanta vôo.
Apóio para as leituras sagradas, catedral de Reims.
Ouvindo a palavra de Deus, a alma deve se elevar aos Céus
como a águia que levanta vôo.
Três, que é o número da Trindade e, por conseqüência, da alma feita à imagem da Trindade, simboliza todas as coisas que são espirituais.

Quatro, o número de elementos, é o símbolo de coisas materiais – o corpo e o mundo – que resultam de combinações dos quatro elementos.

O significado místico da multiplicação de três por quatro é a infusão do espírito na matéria, de proclamar as verdades da fé para o mundo, para estabelecer a Igreja Católica, de que os Apóstolos são o símbolo.

Os Doutores que comentaram a Bíblia nos ensinam que, se Gedeão partiu com trezentos companheiros, não foi sem alguma razão simbólica e que o número esconde um mistério.

Em grego, trezentos é representado com a letra Tau (T). Mas o T é a figura da Cruz; portanto, por trás de Gedeão e de seus companheiros, devemos ver Cristo e a Cruz.

A Divina Comédia de Dante é o exemplo mais famoso, pois está ordenada em função de números.

Os nove círculos do inferno correspondem aos nove terraços do monte do Purgatório e aos nove céus do Paraíso.

Nesse poema inspirado, nada foi deixado apenas à inspiração; Dante determinou que cada parte de sua trilogia deveria ser dividida em trinta e três cantos, em homenagem aos 33 anos da vida de Cristo.

Dante aceitava a lei que rege os números como um ritmo divino, ao qual o universo obedece.

(Autor: Émile Mâle, The Gothic Image: Religious Art in France of the Thirteenth Century, New York, Harper, 1958, pp 1-2, 5, 9-15, 29).

continua no próximo post: O simbolismo divino na arte e na natureza visto pela Idade Média


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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Basílica de São Remígio: o ambiente sobrenatural no dia do batismo de Clóvis, rei dos francos

Fachada principal de Saint-Rémi
Fachada principal de Saint-Rémi

Pode-se imaginar a intensidade da graça do momento em que Clóvis, rei dos francos, foi batizado na basílica de São Remígio, em Reims (França)?

Naquele momento nasceu para a Igreja Católica a nação francesa com todas as glórias que ela traria para Deus.

Nesse dia, a Igreja batizou a sua filha primogênita.

Podem-se imaginar graças de alegria, de afeto, de força, de entusiasmo, de energias naturais e sobrenaturais absolutamente novas nesse momento.

Teve algo de parecido com o mundo depois que Noé e os dele saíram da arca e se viu o Arco-Íris. Esta deveria ser a atmosfera dentro da Catedral de Reims.

Então, nós compreendemos a glória de São Remígio. Quantas orações ele há de ter feito, quantos sofrimentos ele há de ter padecido, para que essa imensa aspiração que ele trazia ‒ e que era o contrário do mundo pagão em desordem ‒, afinal de contas virasse realidade.

Há imagens da Idade Média representando pessoas puras que, quando dormiam o sono eterno, da boca nascia um lírio.

De São Remígio nasceu muito mais do que um lírio: nasceu a flor-de-lis da França.

Nave central da basílica de São Remígio.
Nave central da basílica de São Remígio.
Da alma e da santidade desse bispo, das orações de santa Clotilde, mãe de Clóvis, nasceu a grandeza da França que veio depois.

Depois de ter sido batizado Clovis, foi batizado mais alguém.

Esse alguém foi o ponto de partida genealógico, segundo aquelas genealogias um pouco fabulosas mas imensamente simpáticas da Idade Média, da casa de Montmorency.

Os duques de Montmorency iam para a batalha com sua mesnada. E todos gritavam marchando para o inimigo de espada em punho: “Dieu aide le premier chrétien”: “Que Deus ajude o primeiro cristão!”

Nesta história sente-se que há uma aliança do primeiro cristão com Deus que é uma coisa inefável, maravilhosa.

Mais bonito do que o ambiente de graças do batismo de Clóvis só entrar no Céu. Ai então tudo é indescritível, e tudo quanto há na terra são prefiguras.


Uma prefigura do Céu viveu-se naquele dia em que São Remígio batizou Clóvis e, com ele, a nascente nação francesa.

(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, 1.10.64. Sem revisão do autor.)



A basílica do santo bispo que converteu a França

A abadia de Saint-Remi na cidade de Reims, França, foi fundada no século VI. Dela resta sua imponente basílica onde, desde 1099 são conservadas as relíquias do bispo Saint Remi, ou São Remígio, morto em 553.

No fundo: o coro com o túmulo de São Remígio
No fundo: o coro com o túmulo de São Remígio

O santo bispo de Reims converteu Clóvis I, rei dos francos que vinha de derrotar os alamanos na batalha de Tolbiac, após miraculosa intervenção divina. Leia mais em: O milagre de Tolbiac e a conversão da França

As humildes origens da grande abadia de Reims são escuras. De início no local existiu uma pequena capela dedicada a São Cristóvão, cujas relíquias foram trazidas por Saint Remi em 553.

Nessa humilde capela foi batizado o rei dos francos, até então chefe de uma horda de bárbaros. Maravilhado pelo ambiente sobrenatural, o rei Clóvis I pergunto ao santo bispo: “Meu pai, isto já é o Céu?”.

Túmulo de São Remígio, no interior da basílica.
Túmulo de São Remígio, no interior da basílica.
Naquele momento nasceu a França “a filha primogênita da Igreja”, pois foi a primeira nação da Cristandade ocidental a se converter.

No século IX a abadia possuía cerca de setecentas propriedades e era talvez a mais rica da França.

Os monges beneditinos garantiam a presença monástica. De 780 a 945 os arcebispos de Reims foram os abades. Nessa abadia Carlos Magno recebeu o Papa Leão III.

Em 1005 o abade Aviard iniciou a reconstrução da basílica que foi terminada pelo abade Teodorico e está em pé até nossos dias.

A basílica atual foi consagrada pelo Papa Leão IX em 1049 que lhe garantiu muitos privilégios eclesiásticos. A nave é do século XI e o transepto, em estilo românico, são mais velhos; a fachada do transepto sul é posterior.

A biblioteca da abadia e sua escola tinham imensa reputação. Pela reforma carolíngea bispados, abadias e paróquias deviam dispensar ensino gratuito, incluíndo alimentação, roupas e materiais escolares para os alunos de todas as classes sociais.

Entre 1170 e 1180 foi feito o coro para nele instalar a urna com as relíquias de Saint Remi.

Os arcebispos de Reims e muitos príncipes, Carlomano I (irmão de Carlos Magno), Henri d'Orléans e reis como Luís IV de França e Lotário foram enterrados nesta basílica.

Sobre o túmulo: o batismo e a milagrosa Santa Ampola.
Sobre o túmulo: o batismo e a milagrosa Santa Ampola.
Seu rico tesouro, portador de uma história de valor ainda mais incalculável, foi selvagemente pilhado pela Revolução Francesa em nome da trilogia revolucionária ‘Liberdade-Igualdade-Fraternidade’, e desapareceu.

Um dos objetos cuja destruição era especialmente visada pelos revolucionários foi a Santa Ampola da coroação de reis da França.

Ela foi trazida por um pombo misterioso durante o batismo de Clóvis e continha um óleo sagrado usado na unção dos novos reis da França.

Mãos piedosas conseguiram extrair parte desse óleo enquanto a ralé criminosa avizinhava, e ainda existe tendo servido para sagrar o rei Carlos X em 1830.

Malgrado as ímpias profanações e destruições, a basílica de Saint Remi bem restaurada é um dos grandes pontos de visitação em Reims, além da famosíssima catedral dedicada a Nossa Senhora e do Palácio do Tau onde acontecia a preparação dos príncipes que iam ser coroados reis.



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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

O entusiasmo religioso na construção da catedral de Chartres

Como foram feitas as catedrais medievais? O renomeado historiador da arte Émile Mâle descreve alguns aspectos do ambiente de fervor na construção da catedral de Chartres, de causar admiração. Eis o texto:

A história da catedral de Chartres, aquela que temos sob os nossos olhos, marcou o início do século XII.

A velha catedral, que havia sido levantada pelo bispo D. Fulberto (952-970 –1028) nos primeiros anos do século XI e que fora restaurada por Santo Ivo (1040 – 1115), ainda estava de pé, mas começando a parecer modesta demais.

As gerações heroicas que fizeram as cruzadas tinham o amor da grandeza. Um pouco antes da metade do século XII, deliberaram levantar um campanário isolado a alguma distância da fachada.

Aconteceu que, no século XII, da mesma maneira que nos tempos antigos, a torre foi concebida como edifício separado que não se ligava ao resto da igreja.

Esta foi a origem da torre norte, que Jean de Beauce completou no século XVI com uma flecha de estilo gótico flamejante.

Mas logo o senso da simetria levou a reproduzir, fazendo pendant do lado sul, um campanário similar. Decidiu-se que as duas torres já não mais ficariam isoladas, mas reunidas à catedral, que seria ampliada até encontrá-las.

Finalmente, decidiu-se construir, mais além da antiga fachada do século XI, uma outra, muito mais magnífica, que seria embelezada com esculturas e que tornaria a catedral verdadeiramente digna de Nossa Senhora.

Esta fachada deveria aparecer por trás das duas torres, que a emoldurariam com sua poderosa projeção e a banhariam com uma meia luz propícia para ressaltar o mistério das esculturas.

Tal era a intenção primitiva da nova fachada que alguns anos depois foi mudada para frente e reedificada entre as duas torres.

O entusiasmo das multidões

Essas altas torres, que se erguiam em louvor de Nossa Senhora, suscitaram na região de Chartres um entusiasmo que nos pareceria inacreditável se não fosse atestado por muitos relatos contemporâneos.

Nós entrevemos aqui algo do gênio do século XII, que é um dos grandes séculos de nossa história.

Em 1144, Robert de Torigni, abade do Monte Saint-Michel, escreveu em sua Crônica:

“Neste ano, se viu em Chartres fiéis que se atrelavam a carros carregados com pedras, madeira, trigo e tudo o que poderia ser usado nos trabalhos da catedral, cujas torres cresciam como por arte de magia. O entusiasmo tomou conta da Normandia e da França: em todos os lugares se viam homens e mulheres arrastar fardos pesados através de pântanos lamacentos; por toda parte se fazia penitência, em todo lugar perdoavam-se os inimigos”.

Robert de Torigni nos assegura que o exemplo veio de Chartres, e nada é mais exato.

Em uma carta escrita no ano seguinte, Haimon, abade de Saint-Pierre-sur-Dives, confirma ponto por ponto esta narração. Ele conta aos monges ingleses de Tutbury os eventos extraordinários que aconteciam nesse momento sob seus olhos na Normandia.

“Acabam de formar-se confrarias – disse-lhes – à imitação daquela que nasceu na catedral de Chartres. Vemos milhares de fiéis, homens e mulheres, se atrelarem a pesados carros carregados com tudo o que é necessário para os operários: madeira, cal, vinho, trigo, óleo. Entre aqueles servos voluntários há senhores poderosos e mulheres de nobre berço. Entre eles reina a mais perfeita disciplina e um profundo silêncio. Durante a noite, eles se reúnem num acampamento com suas charretes, o iluminam com velas e entoam cânticos. Eles trazem seus doentes, na esperança de que serão curados. Está estabelecida a união dos corações; e se alguém está tão endurecido que não perdoa seus inimigos, a sua oferenda é removida da charrete como algo impuro, e ele próprio é expulso com nota de ignomínia da sociedade do povo santo”.

No mesmo ano de 1145, uma carta de Hugo, arcebispo de Rouen, dá a conhecer a Thierry, bispo de Amiens, eventos em tudo similares. Ele lhe informa que os normandos, tendo ouvido falar do que estava acontecendo em Chartres, ficaram determinados a imitar aquilo que tinham visto. Eles constituíram associações e, após terem confessado seus pecados, se atrelaram às carroças sob a liderança de um chefe.

“Nós permitimos – acrescenta o arcebispo – a nossos diocesanos praticarem esta devoção em outras dioceses”. Esta preciosa passagem nos prova que muitas outras igrejas, cujos nomes ficaram desconhecidos para nós, foram construídas dessa maneira.

A fecundidade artística do século XII tem qualquer coisa de prodigioso. Há na França vastas regiões onde quase não há uma igreja de aldeia que não remonte ao século XII.

Ficamos espantados quando pensamos em todo o talento, todo o trabalho e todos os recursos empregados para realizar essa imensa obra.

Houve então um impulso de fé, de abnegação, um espírito de sacrifício, do qual a construção das torres de Chartres é o mais belo exemplo.

Video: construção da catedral Notre Dame de Paris




(Autor: Émile Mâle, da Académie Française, Notre-Dame de Chartres, Flammarion, Paris, 1994, 190 páginas, p.23-26.)


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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Estrasburgo: “Quem lhe disse isso?” ‒ “A própria torre!”


Das Memórias do poeta alemão Goethe:

Um outro fatinho me roubou os últimos dias. Eu estava numa casa de campo, em companhia de pessoas agradáveis, e dali se podia ver a parte anterior de um convento e a torre [da catedral de Estrasburgo] que sobressaía majestosamente.

Alguém comentou: “Pena que não está tudo terminado e que só tenhamos a torre para ver!”

Eu, porém, disse: “Também me causa pena que não se possa apreciar essa torre inteiramente; pois as quatro volutas são muito desajeitadas e melhor seria que houvesse, no lugar delas, quatro torrezinhas esguias, bem como uma mais alta no meio, onde está aquela cruz pesadona”.

Quando fiz esse comentário com minha costumeira simplicidade, um homenzinho vivaz se voltou para mim e disse:

‒ “Quem lhe disse isso?”

Respondi: “A própria torre! Eu a tenho contemplado tantas vezes, com tanta atenção, e lhe tenho demonstrado tanta veneração, que ela um dia me confessou esse segredo evidente”.

Então, aquele homenzinho me replicou:

‒ “Ela o informou com toda a exatidão! Eu sei isso muito bem, pois sou o encarregado da construção do edifício. Tenho em meus arquivos a planta original e esta confirma o que o senhor diz, e posso mostrar-lhe”.

Por causa da minha viagem, pedi que ele fizesse aquela amabilidade a todo vapor.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Rocamadour, santuário símbolo de fé
encravado na rocha – 2

Continuação do post anterior

O fato é que, 400 anos depois da sua descoberta, o corpo continuava intacto, como testemunha uma paroquiana falecida em 1632, que viu o corpo glorioso de santo Amadour “todo inteiro, em pele e osso, como no dia em que ele morreu”.

Essa piedosa centenária também foi testemunha da tentativa frustrada dos protestantes huguenotes, que queriam fazer uma grande fogueira para queimar o corpo do santo. “Mas Deus não o permitiu”. Entretanto, eles fizeram em pedaços a urna de prata e roubaram o precioso tesouro.

No espírito das pessoas do povo, o fiel servidor de Maria Santíssima esperava assim o dia da ressurreição dos mortos. E se voltavam para a Virgem Negra, que realizava tantos milagres. Ela é apresentada como o Trono da Sabedoria encarnada, que é Nosso Senhor Jesus Cristo, que Ela tem sobre seus joelhos.

Um livro do santuário contém 126 relatos de milagres atribuídos a Nossa Senhora de Rocamadour, delicadamente ilustrados com desenhos representando as cenas de tais milagres.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Rocamadour, santuário símbolo de fé
encravado na rocha – 1

Wilson Gabriel da Silva

Pouco mais que uma aldeia, Rocamadour surge como um sonho das neblinas do vale. Se o célebre Monte de São Miguel – le Mont St-Michel, diz-se na França – aparece como uma montanha sagrada apontando para as nuvens, Rocamadour brota das entranhas da terra e das próprias pedras em busca do céu. Não é sem razão que Rocamadour significa “o rochedo de Amadour”.

Mas, quem foi Amadour, aliás, Santo Amadour?

Segundo a tradição ou a legenda (pois os documentos são escassos), Amadour não foi outro senão Zaqueu, o publicano do Evangelho.

Se a antiga Gália, depois reino de França, tornou-se a filha primogênita da Igreja, não foi sem razão. Para o seu território migraram vários discípulos de Nosso Senhor Jesus Cristo, entre eles Lázaro, o ressuscitado, e suas irmãs Marta e Maria, a Madalena, os quais desembarcaram em Saintes-Maries-de-la-Mer, antigo porto perto de Marselha.

O evangelho de São Lucas é bastante claro: Zaqueu era rico, o que não o torna simpático aos demagogos da pobreza, tão em voga em nossos dias…

Depois da Paixão e Morte de Nosso Senhor, ele teria servido a Nossa Senhora. E, aconselhado por Ela, tomado o destino de outros emigrantes da Terra Santa, indo buscar refúgio na Gália.

Uma legenda diz que Zaqueu teria-se casado com a Verônica, que enxugou a Sagrada Face de Jesus durante a Paixão. E que, após a morte da esposa, teria procurado a solidão para viver como eremita em alguma caverna a meia altura das paredes rochosas de um desfiladeiro, em cujo leito corre um pequeno riacho.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

AACHEN 2: catedral de insignes relíquias e do trono de Carlos Magno


Continuação do post anterior


Carlos Magno enriqueceu a catedral de Aachen com relíquias extraordinárias.

Na urna da Santíssima Virgem Maria (Marienschrein) se encontram a túnica que Nossa Senhora usou no Natal, os panos com que envolveu o Menino Jesus, o tecido menor que Cristo usou durante a Crucifixão, e o tecido em que foi envolvida a cabeça de São João Batista após sua decapitação.

Numa outra urna (Karlsschrein) igualmente rica e de análogo estilo se conservam os ossos do próprio Carlos Magno. Esses ossos foram objeto de uma longa e severa análise que confirmou sua autenticidade.

Veja mais em: Reconhecidos os ossos do “Pai da Europa”: Carlos Magno

quarta-feira, 9 de julho de 2014

AACHEN: catedral intimamente ligada a Carlos Magno e ao Sacro Império


Uma cidade fundada pelos romanos no século I em virtude das águas termais do local haveria de se transformar numa das capitais mais célebres da Europa, hoje em território da Alemanha próxima à fronteira da Bélgica e dos Países Baixos.

Os romanos a batizaram de Aquae-Grani (de que derivou Aquisgrano ou Aquisgrão em português; Aachen em alemão e Aix-la-Chapelle em francês), porque os romanos tinham a superstição de que o deus Apolo Grano protegia os banhos.

Pepino o Breve, rei dos francos, gostava muito da cidade e erigiu nela uma capela para custodiar preciosas relíquias.

Seu filho Carlos Magno – que provavelmente nasceu em Aachen no ano 742 e que nela veio a falecer em 28 de Janeiro de 814 – fez dela a capital do Sacro Império Romano-Germânico.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Catedral de AACHEN (Aquisgrão):
“nossa conversação está no Céu”


O que dizer dessa catedral?

O melhor comentário é: Oh!

O que significa esse oh!?

Significa: Oh!, preciosidade! Oh!, tesouro!

Oh!, símbolo de alguma coisa que eleva minha alma para os mais altos píncaros!

Oh!, catedral!

Analisando-a, parece ela um amontoado de torres, de capelas e de cúpulas, colocadas mais ou menos sem reflexão.

Mas de seu conjunto se desprende uma tal harmonia, que fico verdadeiramente maravilhado!

Harmonia que tem isto de curioso: tudo aponta para cima. Dir-se-ia que a catedral exclama: "Conversatio nostra in cœlo est" (Nossa conversação está no Céu).

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Como foram os monges
que habitaram o Monte Saint-Michel?

Vista aérea da abadia e do vilarejo do Mont Saint-Michel, Normandia, França

O Monte Saint Michel impressiona antes de tudo pelo efeito natural que produz sua figura.

Mas há outro fator que não é natural e que é indizível.

Este fator se soma ao lado natural e dá o melhor do Monte de São Miguel Arcanjo. É a graça divina.

E essa graça toca o fundo das almas que se deixam influenciar por ela.

Esse fator sobrenatural está ligado aos monges que ali viveram, à intenção do fundador que construiu aquilo, enfim, a uma série de movimentos de alma muito bons que convergiram para que o Monte Saint-Michel fosse como é.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Rochedos de Nossa Senhora e São Miguel:
escalada rumo ao sublime. Le Puy en Velay

Le Puy-en-Velay:  capela de São Miguel da Agulha
Le Puy-en-Velay:
capela de São Miguel da Agulha

Na França, tão rica em lugares extraordinários, Le Puy-en-Velay é um dos mais impressionantes, sem ser dos mais conhecidos.

A pequena cidade de 20 mil habitantes, situada numa bacia povoada de rochedos de origem vulcânica.

Ela fica no extremo sudeste da região do Auvergne, é marcada pela fé, pela História e pela beleza natural.

Ela tira seu nome de uma montanha, penha (este é o significado de “puy”) –– o Puy d’Anis, hoje conhecido como Rochedo Corneille — em cujo pico os católicos erigiram gigantesca estátua de Nossa Senhora da França, dominando toda a cidade.

Na Idade Média, Le Puy-en-Velay chamou-se Le Puy Notre-Dame ou Puy Sainte-Marie.

Juntamente com Chartres, Le Puy-en-Velay abriga um dos mais antigos santuários votados ao culto marial na Gália celto-romana.

Aparições da Virgem Santíssima e curas miraculosas fizeram do lugar um centro de peregrinação.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

A força e o sorriso nas colunas góticas

Catedral de Exeter, Inglaterra
Catedral de Exeter, Inglaterra

O gótico é ao mesmo tempo forte e delicado. Por exemplo, suas formidáveis colunas !

Os medievais arranjaram um jeito de trabalhá-las de maneira a atenuar o que poderia haver de impressão de força quase brutal nelas.

O modo de atenuar foi esculpir a coluna dando a impressão que ela é um feixe de coluninhas que se amarram umas as outras para suportar.

E assim a pesadíssima coluna gótica deixa de ser pesada.

Ela sustenta o teto com muita firmeza, mas dá a impressão de leveza por causa das pseudo-coluninhas em que se decompõe.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Catedral de OURENSE: o Pórtico do Paraíso

Pórtico del Paraiso da catedral de Ourense
Pórtico del Paraiso da catedral de Ourense
Segundo uma antiga lenda, a catedral de Ourense foi mandada construir por um rei suevo, povo que ocupava o norte da península ibérica.

O nome do rei era Carriarico, quem, tendo enfermado seu filho, pediu a intercessão de São Martinho de Tours e foi ouvido. SOBRE SÃO MARTINHO DE TOURS VEJA MAIS CLICANDO AQUI

Em agradecimento, o rei mandou construir um templo no lugar onde se encontra agora a catedral.

Séculos depois vieram os muçulmanos que em alguma de suas incursões destruíram o velho e venerado templo.

Em substituição se decidiu levantar a atual catedral em estilo românico, cuja construção se estendeu durante os séculos XII e XIII. A planta da catedral desenha uma cruz latina com três naves.

A construção começou em 1160 e em 1188 foi consagrado o altar- mor, retomando-se as Missas. A catedral foi terminada no século XIII.

A entrada da catedral se faz pelo Pórtico do Paraíso, o qual lembra o Pórtico da Glória da Catedral de Santiago de Compostela, também na Galícia.

Este Pórtico, ricamente colorido, nos recorda que a catedral é a porta do Céu, ao qual nos conduz se formos sensíveis aos apelos da graça divina que batem em nossas almas.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

A SAINTE CHAPELLE de PARIS
e o sonho da catedral de cristal


Em algumas construções góticas começa a aparecer um sonho.

É o sonho é de abolir o granito e transformar tudo em cristal.

Esse sonho germina na Sainte-Chapelle de Paris.

A Sainte-Chapelle conserva de pedra apenas o necessário para suportar o teto e servir de encaixe para os vitrais.

Mas o espírito que concebeu a Sainte Chapelle se pudesse fazer um edifício todo de cristal, sentir-se-ia realizado.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Peregrinando dentro de um vitral

Rosácea lateral da catedral de Chartres, França
Imaginemos um vitral em forma circular, ou seja, uma rosácea. Um mundo de cores diferentes.

Dentro do conjunto de cores, poder-se-ia fazer um passeio: ora “entrar” no céu cor de anil, ora no dourado absoluto, depois no verde total ou no vermelho bem rubro.

Os olhos “entram” em vários pedacinhos de céu, olham daqui, de lá e de acolá.

Em determinado momento, surge a maior alegria: a visão do conjunto.