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quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Rocamadour, santuário símbolo de fé
encravado na rocha – 2

Continuação do post anterior

O fato é que, 400 anos depois da sua descoberta, o corpo continuava intacto, como testemunha uma paroquiana falecida em 1632, que viu o corpo glorioso de santo Amadour “todo inteiro, em pele e osso, como no dia em que ele morreu”.

Essa piedosa centenária também foi testemunha da tentativa frustrada dos protestantes huguenotes, que queriam fazer uma grande fogueira para queimar o corpo do santo. “Mas Deus não o permitiu”. Entretanto, eles fizeram em pedaços a urna de prata e roubaram o precioso tesouro.

No espírito das pessoas do povo, o fiel servidor de Maria Santíssima esperava assim o dia da ressurreição dos mortos. E se voltavam para a Virgem Negra, que realizava tantos milagres. Ela é apresentada como o Trono da Sabedoria encarnada, que é Nosso Senhor Jesus Cristo, que Ela tem sobre seus joelhos.

Um livro do santuário contém 126 relatos de milagres atribuídos a Nossa Senhora de Rocamadour, delicadamente ilustrados com desenhos representando as cenas de tais milagres.

Cravada diretamente no rochedo, junto à entrada do santuário, vê-se a legendária espada de Roland, que o fiel par do Imperador Carlos Magno teria vindo oferecer a Nossa Senhora de Rocamadour.

Abençoado e maravilhoso local de peregrinação

Rocamadour é fascinante sob vários pontos de vista. Poderíamos descrever as suas maravilhas, por exemplo do ponto de vista da sociedade orgânica. Mas o espaço nos põe limites. Restrinjamo-nos ao aspecto religioso, às peregrinações.

Rocamadour é uma fonte de graças. Por isso atraiu santos, reis e príncipes. E continua a atrair até hoje toda espécie de peregrinos, sobretudo os que estão cansados da banalidade do mundo moderno e procuram, fugindo do deserto das megalópoles modernas, um oásis que lhes sacie a sede de algo maravilhoso e espiritual.

Cravada diretamente no rochedo, junto à entrada do santuário, vê-se a legendária espada de Roland, que o fiel par do imperador Carlos Magno teria vindo oferecer a Nossa Senhora de Rocamadour.

Por ali passaram peregrinos célebres: São Bernardo (por volta de 1147); São Domingos (1219); Cristóvão da Romanha, companheiro de São Francisco de Assis, Santo Engelberto (1216 e 1225); Santo Antonio de Pádua ou de Lisboa, que combateu os cátaros e fundou um convento em Brive-la-Gaillarde; Henrique II da Inglaterra (1159 e 1170); Filipe da Alsácia, conde de Flandres (1170); São Luís IX, rei de França, com seus três irmãos e sua mãe, Branca de Castela (1244); e outros soberanos, dos quais o último foi Luís XI, filho de Carlos VII (1443 e 1463).

Rocamadour e a batalha de Navas de Tolosa

Segundo uma crônica do monge Alberico, havia em Rocamadour um religioso sacristão ao qual Nossa Senhora apareceu em três sábados sucessivos, tendo na mão um estandarte dobrado. A Virgem ordenou-lhe que, de sua parte, levasse o estandarte ao “pequeno rei de Espanha”, que devia combater os sarracenos.

O sacristão alegou o pouco de consideração ligada à sua pessoa: não dariam crédito às suas palavras, disse. Sua recusa foi o sinal de que morreria ao terceiro dia.

O prior de Rocamadour recebeu o encargo de cumprir o mandato, ao qual estava ligada a ordem de não desfraldar o estandarte antes do dia do combate e, ainda nesse dia, antes de uma necessidade premente. O sacristão morreu depois de dar conhecimento dessa revelação

O prior executou fielmente o mandato e compareceu em pessoa ao campo de batalha.

Esse estandarte levava a imagem de Nossa Senhora com o Menino Jesus nos braços. Ela tinha a seus pés o símbolo que o rei de Castela, chamado o “pequeno rei”, costumava ter no seu próprio estandarte.

O “pequeno rei” de Castela era Afonso VIII. Corria o ano de 1212. Os mouros ocupavam grande parte da Espanha e os reis de Castela, Navarra e Aragão se uniram para rechaçar o inimigo.

Afonso VIII assumiu a direção das operações militares contra o emir Al-Nacir, perto de Las Navas de Tolosa.

Os muçulmanos eram cinco vezes mais numerosos. O combate se engaja, a vanguarda cristã é esmagada, a segunda linha desfeita, o resultado parece fatal…

O estandarte de Rocamadour é então desfraldado e mostrado a todos os guerreiros. Os católicos enchem-se de coragem e põem em fuga o emir e as suas tropas.

A vitória cristã estava assegurada pela intervenção de Maria Santíssima!

Rocamadour e a epopeia de Santa Joana d’Arc

Dois séculos mais tarde, a Europa cristã está em plena decadência, vítima do processo magistralmente descrito por Plinio Corrêa de Oliveira em sua obra-mestra Revolução e Contra-Revolução.

A Providência divina, sempre misericordiosa, envia sinais de advertência. A peste negra é um deles. A guerra dos Cem Anos, outro. Em consequência desta última, os ingleses ocupam boa parte do território francês a oeste e ao norte do país.

Em 1428, Carlos VII, rei sem coroa, sem exército, sem recursos e sobretudo sem virtude à altura da situação desesperadora, envia com sua esposa Maria de Anjou carta ao Papa Martinho V, pedindo-lhe que recorra a Nossa Senhora de Rocamadour.

O Papa concede um jubileu extraordinário por um período de dez anos. Isso corresponde ao que na França se chama um “grande perdão”, pelos quais as pessoas que visitam determinado santuário obtêm indulgências e graças especiais, concedidas por Deus em virtude do “poder das chaves” que Jesus Cristo deu a São Pedro.

Como resultado, grandes multidões, inclusive de ingleses, afluíram ao santuário de Rocamadour. Em 1429, aparece uma donzela enviada pelo Rei dos Céus para expulsar os ingleses do Reino e fazer coroar Carlos VII rei da França. Este não acredita.

Mas Joana d’Arc lhe diz coisas de sua vida íntima que ninguém poderia saber. Por fim, Carlos VII cede e começa a epopeia bem conhecida da reconquista do reino por Santa Joana d’Arc.

A situação atual do que foi a Cristandade e a da própria Igreja Católica é incomparavelmente mais grave do que a do século XIV.

Hoje, o inimigo não só derrubou todas as muralhas e cativou todos os habitantes, mas conquistou até mesmo os que detêm os mais altos cargos de influência no plano temporal e mesmo elevados cargos na ordem eclesiástica, sem falar nos meios de comunicação, nas finanças e outros instrumentos de poder.

Supliquemos a Nossa Senhora de Rocamadour que nos socorra nesta circunstância a todos os que estamos desamparados, e em condições de tal inferioridade material que só com o auxílio celeste podemos triunfar sobre os inimigos da Igreja e da civilização cristã.

Fonte: Revista Catolicismo, nº 763, Julho/2014




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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Rocamadour, santuário símbolo de fé
encravado na rocha – 1

Wilson Gabriel da Silva

Pouco mais que uma aldeia, Rocamadour surge como um sonho das neblinas do vale. Se o célebre Monte de São Miguel – le Mont St-Michel, diz-se na França – aparece como uma montanha sagrada apontando para as nuvens, Rocamadour brota das entranhas da terra e das próprias pedras em busca do céu. Não é sem razão que Rocamadour significa “o rochedo de Amadour”.

Mas, quem foi Amadour, aliás, Santo Amadour?

Segundo a tradição ou a legenda (pois os documentos são escassos), Amadour não foi outro senão Zaqueu, o publicano do Evangelho.

Se a antiga Gália, depois reino de França, tornou-se a filha primogênita da Igreja, não foi sem razão. Para o seu território migraram vários discípulos de Nosso Senhor Jesus Cristo, entre eles Lázaro, o ressuscitado, e suas irmãs Marta e Maria, a Madalena, os quais desembarcaram em Saintes-Maries-de-la-Mer, antigo porto perto de Marselha.

O evangelho de São Lucas é bastante claro: Zaqueu era rico, o que não o torna simpático aos demagogos da pobreza, tão em voga em nossos dias…

Depois da Paixão e Morte de Nosso Senhor, ele teria servido a Nossa Senhora. E, aconselhado por Ela, tomado o destino de outros emigrantes da Terra Santa, indo buscar refúgio na Gália.

Uma legenda diz que Zaqueu teria-se casado com a Verônica, que enxugou a Sagrada Face de Jesus durante a Paixão. E que, após a morte da esposa, teria procurado a solidão para viver como eremita em alguma caverna a meia altura das paredes rochosas de um desfiladeiro, em cujo leito corre um pequeno riacho.

Esse canyon rasga as colinas de um planalto árido e pedregoso — que os franceses chamam Causses — entre os rios Dordogne e Lot.

Sobre a vida de Zaqueu ou Amadour, entretanto, pouco se sabe, a não ser que viveu e morreu naquele lugar ermo, conforme notícia que vinha de boca a ouvido desde tempos imemoriais.

Sabia-se que o santo estava enterrado naquelas rochas, mas não se conhecia o lugar exato.

O corpo incorrupto e o culto a Nossa Senhora

No século XII, veio contudo à luz o primeiro documento sobre o assunto. O abade do Monte São Miguel, Robert de Torigny, relata numa crônica consagrada à peregrinação do rei da Inglaterra, Henrique II, o Plantageneta, que “no ano da Encarnação de 1166, um habitante do lugar, estando nos seus derradeiros momentos, mandou aos seus, sem dúvida inspirado por Deus, sepultar seu cadáver à entrada do oratório” (que existia no lugar onde hoje se encontra o santuário de Rocamadour).

“Ao cavar a terra
, prossegue o abade, encontrou-se o corpo bem inteiro (ou seja, incorrupto) de Amadour; ele foi colocado na igreja, junto do altar, e assim é mostrado aos peregrinos”.

Vê-se, pela crônica, que no século XII, quando o corpo foi encontrado, já havia um verdadeiro culto ao santo, que o povo ligou logo ao de Nossa Senhora, da qual ele foi fiel servidor. Com efeito, o culto à Virgem Negra de Rocamadour vem de tempos imemoriais.

A expressão deve-se à cor negra da rústica estátua da Virgem Santíssima, venerada no santuário encravado na rocha.

Alguns especialistas se perguntam se a estátua não seria pintada, como no tempo dos romanos, e se a sua aparência atual, bastante rústica, não se deve ao descoramento da camada de pintura que talvez tenha existido outrora.

A explicação não passa, entretanto, de mera conjectura. De qualquer modo, o certo é que naquele lugar insólito formou-se, durante a Idade Média, uma encantadora aldeia, que ainda em nossos dias testemunha a glória de Zaqueu ou Amadour.

Seu corpo, sabe-se de ciência certa, está incorrupto e nunca apodreceu”, recitavam os trovadores no século XIII. “Em pele e osso como Amadour”, diz um provérbio de Liège, que por vezes ainda se ouve em nossos dias.

continua no próximo post




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quarta-feira, 23 de julho de 2014

AACHEN 2: catedral de insignes relíquias e do trono de Carlos Magno


Continuação do post anterior


Carlos Magno enriqueceu a catedral de Aachen com relíquias extraordinárias.

Na urna da Santíssima Virgem Maria (Marienschrein) se encontram a túnica que Nossa Senhora usou no Natal, os panos com que envolveu o Menino Jesus, o tecido menor que Cristo usou durante a Crucifixão, e o tecido em que foi envolvida a cabeça de São João Batista após sua decapitação.

Numa outra urna (Karlsschrein) igualmente rica e de análogo estilo se conservam os ossos do próprio Carlos Magno. Esses ossos foram objeto de uma longa e severa análise que confirmou sua autenticidade.

Veja mais em: Reconhecidos os ossos do “Pai da Europa”: Carlos Magno

quarta-feira, 9 de julho de 2014

AACHEN: catedral intimamente ligada a Carlos Magno e ao Sacro Império


Uma cidade fundada pelos romanos no século I em virtude das águas termais do local haveria de se transformar numa das capitais mais célebres da Europa, hoje em território da Alemanha próxima à fronteira da Bélgica e dos Países Baixos.

Os romanos a batizaram de Aquae-Grani (de que derivou Aquisgrano ou Aquisgrão em português; Aachen em alemão e Aix-la-Chapelle em francês), porque os romanos tinham a superstição de que o deus Apolo Grano protegia os banhos.

Pepino o Breve, rei dos francos, gostava muito da cidade e erigiu nela uma capela para custodiar preciosas relíquias.

Seu filho Carlos Magno – que provavelmente nasceu em Aachen no ano 742 e que nela veio a falecer em 28 de Janeiro de 814 – fez dela a capital do Sacro Império Romano-Germânico.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Catedral de AACHEN (Aquisgrão):
“nossa conversação está no Céu”


O que dizer dessa catedral?

O melhor comentário é: Oh!

O que significa esse oh!?

Significa: Oh!, preciosidade! Oh!, tesouro!

Oh!, símbolo de alguma coisa que eleva minha alma para os mais altos píncaros!

Oh!, catedral!

Analisando-a, parece ela um amontoado de torres, de capelas e de cúpulas, colocadas mais ou menos sem reflexão.

Mas de seu conjunto se desprende uma tal harmonia, que fico verdadeiramente maravilhado!

Harmonia que tem isto de curioso: tudo aponta para cima. Dir-se-ia que a catedral exclama: "Conversatio nostra in cœlo est" (Nossa conversação está no Céu).

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Como foram os monges
que habitaram o Monte Saint-Michel?

Vista aérea da abadia e do vilarejo do Mont Saint-Michel, Normandia, França

O Monte Saint Michel impressiona antes de tudo pelo efeito natural que produz sua figura.

Mas há outro fator que não é natural e que é indizível.

Este fator se soma ao lado natural e dá o melhor do Monte de São Miguel Arcanjo. É a graça divina.

E essa graça toca o fundo das almas que se deixam influenciar por ela.

Esse fator sobrenatural está ligado aos monges que ali viveram, à intenção do fundador que construiu aquilo, enfim, a uma série de movimentos de alma muito bons que convergiram para que o Monte Saint-Michel fosse como é.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Rochedos de Nossa Senhora e São Miguel:
escalada rumo ao sublime. Le Puy en Velay

Le Puy-en-Velay:  capela de São Miguel da Agulha
Le Puy-en-Velay:
capela de São Miguel da Agulha

Na França, tão rica em lugares extraordinários, Le Puy-en-Velay é um dos mais impressionantes, sem ser dos mais conhecidos.

A pequena cidade de 20 mil habitantes, situada numa bacia povoada de rochedos de origem vulcânica.

Ela fica no extremo sudeste da região do Auvergne, é marcada pela fé, pela História e pela beleza natural.

Ela tira seu nome de uma montanha, penha (este é o significado de “puy”) –– o Puy d’Anis, hoje conhecido como Rochedo Corneille — em cujo pico os católicos erigiram gigantesca estátua de Nossa Senhora da França, dominando toda a cidade.

Na Idade Média, Le Puy-en-Velay chamou-se Le Puy Notre-Dame ou Puy Sainte-Marie.

Juntamente com Chartres, Le Puy-en-Velay abriga um dos mais antigos santuários votados ao culto marial na Gália celto-romana.

Aparições da Virgem Santíssima e curas miraculosas fizeram do lugar um centro de peregrinação.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

A força e o sorriso nas colunas góticas

Catedral de Exeter, Inglaterra
Catedral de Exeter, Inglaterra

O gótico é ao mesmo tempo forte e delicado. Por exemplo, suas formidáveis colunas !

Os medievais arranjaram um jeito de trabalhá-las de maneira a atenuar o que poderia haver de impressão de força quase brutal nelas.

O modo de atenuar foi esculpir a coluna dando a impressão que ela é um feixe de coluninhas que se amarram umas as outras para suportar.

E assim a pesadíssima coluna gótica deixa de ser pesada.

Ela sustenta o teto com muita firmeza, mas dá a impressão de leveza por causa das pseudo-coluninhas em que se decompõe.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Catedral de OURENSE: o Pórtico do Paraíso

Pórtico del Paraiso da catedral de Ourense
Pórtico del Paraiso da catedral de Ourense
Segundo uma antiga lenda, a catedral de Ourense foi mandada construir por um rei suevo, povo que ocupava o norte da península ibérica.

O nome do rei era Carriarico, quem, tendo enfermado seu filho, pediu a intercessão de São Martinho de Tours e foi ouvido. SOBRE SÃO MARTINHO DE TOURS VEJA MAIS CLICANDO AQUI

Em agradecimento, o rei mandou construir um templo no lugar onde se encontra agora a catedral.

Séculos depois vieram os muçulmanos que em alguma de suas incursões destruíram o velho e venerado templo.

Em substituição se decidiu levantar a atual catedral em estilo românico, cuja construção se estendeu durante os séculos XII e XIII. A planta da catedral desenha uma cruz latina com três naves.

A construção começou em 1160 e em 1188 foi consagrado o altar- mor, retomando-se as Missas. A catedral foi terminada no século XIII.

A entrada da catedral se faz pelo Pórtico do Paraíso, o qual lembra o Pórtico da Glória da Catedral de Santiago de Compostela, também na Galícia.

Este Pórtico, ricamente colorido, nos recorda que a catedral é a porta do Céu, ao qual nos conduz se formos sensíveis aos apelos da graça divina que batem em nossas almas.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

A SAINTE CHAPELLE de PARIS
e o sonho da catedral de cristal


Em algumas construções góticas começa a aparecer um sonho.

É o sonho é de abolir o granito e transformar tudo em cristal.

Esse sonho germina na Sainte-Chapelle de Paris.

A Sainte-Chapelle conserva de pedra apenas o necessário para suportar o teto e servir de encaixe para os vitrais.

Mas o espírito que concebeu a Sainte Chapelle se pudesse fazer um edifício todo de cristal, sentir-se-ia realizado.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Peregrinando dentro de um vitral

Rosácea lateral da catedral de Chartres, França
Imaginemos um vitral em forma circular, ou seja, uma rosácea. Um mundo de cores diferentes.

Dentro do conjunto de cores, poder-se-ia fazer um passeio: ora “entrar” no céu cor de anil, ora no dourado absoluto, depois no verde total ou no vermelho bem rubro.

Os olhos “entram” em vários pedacinhos de céu, olham daqui, de lá e de acolá.

Em determinado momento, surge a maior alegria: a visão do conjunto.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Charme e grandeza da basílica de São Marcos em VENEZA

A fachada foi construída com simplicidade de linhas.

São cinco arcos, dois iguais de cada lado e um no meio, um tanto maior.

O arco maior interrompe um pouco o curso do corrimão de um terraço que está em cima.

Mais para cima se encontram ogivas muito abertas, mas que conservam seu parentesco com a ogiva gótica comum pelo fato de terminarem naquela ponta.

A ponta reúne harmonicamente dois extremos de um movimento que tem um resto de ogival.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Catedral de BOURGES:
força, seriedade, recolhimento, luz


O gótico é forte. E porque é forte, ele tende ao perene.

Ele tem um visível desejo de durar sempre, de ser uma coisa que nunca mais será substituída.

Há uma seriedade no interior de todo edifício gótico. Há um recolhimento e uma compostura própria só a quem é muito sério.

A luz que entra dentro deles é tamisada por um colorido muito bonito.

Nos vitrais da catedral de Bourges, a luz do dia que entra não tem a cor comum do dia.

É um dia diferente, meio idealizado. É um dia ideal, que faz pensar num sonho que filtra através das janelas.

É um sonho? Não é.

A alma, à força de desejar o Céu, conjetura tanto quanto ela pode, como seria o Céu.

E uma igreja toda ela feita de vitrais da Idade Média, nos dá a impressão de entrar no Céu.

A colunata interna da catedral de Bourges merece ser aclamada. Aquela colunata simboliza um caminho alto, estreito, mas que conduz a uma grande solução.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

O trombeteiro de Nossa Senhora de CRACÓVIA

Igreja de Nossa Senhora, Cracóvia, Polônia

Conta-se até no longínquo Cazaquistão uma história ligada à mais alta torre da igreja de Nossa Senhora em Cracóvia.

Com 81 metros de altura, ela é conhecida como a Torre da Guarda. Ainda hoje é o ponto mais alto da cidade.

A vida nunca foi fácil em nenhuma parte, mas era especialmente difícil nos inícios da Polônia.

As cidades da Europa Central eram atacadas por hordas de bárbaros pagãos vindos da Mongólia, acumpliciados por vezes com aliados locais.

Em face do perigo, os conselheiros municipais de Cracóvia decidiram que um guarda ficaria sempre a postos no alto da torre de Nossa Senhora e alertaria os habitantes tão logo visse os mongóis se aproximarem.

Durante muitos anos, os guardas cumpriram sua missão a contento, alertando os habitantes da cidade diante das ameaças.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

O gótico: estilo de bárbaros ou de homens muito superiores à mediocridade moderna?

Catedral de Westminster, Londres
Catedral de Westminster, Londres

Custa-nos crer, em nossos dias, que nos séculos XVII e XVIII, e mais tarde ainda, o termo gótico era equivalente a 'bárbaro'.

Seriamos mais bem levados a nos maravilhar com tudo o que se construiu nos tempos 'Bárbaros', com meios que nos parecem tão débeis em comparação com os nossos.

Os especialistas calcularam que a França dos séculos XII e XIII transportou mais pedras que o Egito, quando este elevava as Pirâmides.

Eles reconheceram que os fundamentos de nossas catedrais descem até a profundidade média de nossas estações de Metrô.

Pasmaram ao ver que em Amiens, a catedral é bastante ampla para acolher toda a população da cidade.

Atualmente, os maiores estádios construídos em cidades como Nova York ou Paris não podem conter senão uma muito pequena parte de sua população.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Faça uma visita virtual à catedral de LUGO: a catedral da soma de todas as idades da Igreja


Veja vídeo

As origens da catedral de Santa Maria, de Lugo, na Galícia, Espanha, são tão antigos que falando com propriedade se perdem na história.

Sabe-se que no tempo da evangelização da Galícia houve no local uma igrejinha que remontava ao século I e que durou até os tempos do bispo Odoario, no século VIII.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

PÁDUA: a Basílica de Santo Antônio
nota oriental agradável e surpreendente

Basílica de Santo Antônio, Pádua

A Basílica de Santo Antonio, em Páua, dá um pouquinho a idéia de um edifício oriental.

Dá um pouquinho a idéia em algumas de suas torres, de minarete turco.

Aquela torrezinha bem esguia não dá a idéia de um minarete turco? Essas outras torres todas não dão certa idéia de minarete?

Pádua pertenceu à República Aristocrática de Veneza. E enquanto ligada a Veneza, era muito influenciada por Bizâncio que fi a capital do Oriente Médio.

A Basílica de São Marcos em Veneza, por exemplo, tem uma nota bizantina muito marcada.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

O retorno das pombas à catedral de DIJON

As gárgulas da catedral de Dijon passavam muito frio no Natal
As gárgulas da catedral de Dijon passavam muito frio no Natal
Na Borgonha, as pedras nunca são brancas por vontade de Deus.

Ao contrário, com o passar dos anos e dos séculos elas ficam bem cinzentas e até pretas.

No alto da catedral, as gárgulas – aquelas esculturas de animais quiméricos colocadas para dar vazão às águas de chuva e qualquer outra sujeira tirada por esta do telhado –, sempre bem alinhadas, estavam mais do que feias.

Mais. Sentiam-se doentes e tristes no seu pétreo silêncio.

Por obra dos entalhadores, elas tinham formas de diabos, monstros e animais horríveis.

O vento, a chuva, as geadas, as fumaças, tudo contribuía para deixá-las mais estragadas, repulsivas e decadentes.

Acontecia também – e ninguém sabia explicar – que as pombas tinham diminuído em número, a ponto de quase desaparecerem.

Só restavam algumas, mas estavam velhas e doentes. Já não se via seu vulto branco no céu e nos galhos das árvores.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A catedral de FLORENÇA: proporções e harmonia

Batistério, Catedral e Campanile de Florença
Batistério, Catedral e Campanile de Florença
Este é o famoso Duomo de Florença, a catedral de Florença.

Ela é toda feita de mármore branco e preto.

A mesma coisa que nós encontramos nas fachadas laterais da Basílica de Orvieto.

Vê-se a oposição de estilos.

Florença, muito mais importante e rica do que Orvieto, ousou fazer para si uma catedral que não tem um mosaico na frente.

A superioridade dos habitantes de Florença, segundo o modo de entender deles, está em que, cores bonitas, mosaicos, etc., seriam enfeites fáceis, para imaginações débeis.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A luz fugidia dos vitrais falando de Deus como nenhuma outra coisa consegue

Luz de um vitral batendo na pedra do chão
A luz da graça que desceu no começo da construção da Cristandade foi se definindo à medida em que ia tomando conta a Civilização Cristã nascente.

E os artistas e o povo iam se enchendo cada vez mais dessa luz.

Por isso se podia dizer de muito católico medieval aquilo que por excelência se diz dos santos: “Ele é luz”.

Poderia se dizer: “A luz se chama fulano”.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O gótico é o fruto de séculos de pregação dos santos

Catedral de Bourges, França
Catedral de Bourges, França
Sobre a origem dos vários estilos de arte, eu tenho a seguinte impressão:

Quando há uma sociedade – eu chamo ‘sociedade’ o corpo social inteiro – que vive em uníssono, e que deseja muito uma mesma coisa, aparecem os artistas que, imbuídos do mesmo desejo, fazem o que a sociedade quer.

E a obra de arte é uma consonância de alguns homens dotados de um talento especial para transformar em obra de arte o que a sociedade deseja.

Então, o que é que fez o gótico?

Quem o fez?

Houve sem dúvida artistas.

Mas, sobretudo, a prática da religião assídua, séria, reta, durante séculos, levou as almas a desejarem o gótico.

Em certo momento houve primeiro o artista, que não se sabe às vezes quem foi, que começou a desenhar o gótico.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Catedral de Colônia: encontro entre o inimaginável e o sonhado

Sempre que eu vejo a catedral de Colônia, no mais fundo de minha alma há um encontro de duas impressões contraditórias.

De um lado, a impressão de que é uma igreja tão bela que, se eu não a conhecesse, não seria capaz de sonhá-la. E que ela, portanto, supera qualquer sonho que eu tivesse.

De outro lado, olhando para ela, algo de mim diz no fundo de minha alma:

"Isso deveria mesmo existir! Isso deveria de fato ser assim! Essa fachada inimaginável é, paradoxalmente para mim, ao mesmo tempo uma fachada conhecida – e uma velha conhecida – como se eu durante toda a minha vida tivesse sonhado com ela!".

E então, o inimaginável e o sonhado se encontram na aparente contradição. E esse encontro satisfaz profundamente a minha alma.

Eu tenho uma impressão interna de ordenação, de elevação, de apaziguamento e de força, um convite à combatividade que vem do fundo da minha alma e que me faz bem.

Há qualquer coisa em nós que deseja outra coisa que não somos capazes de imaginar. E quando esse fundo vê certas coisas para as quais foi feito, ele como que encontra um velho conhecido.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Louvar a Nossa Senhora e adorar a Deus amando suas catedrais

Eu não posso me esquecer de uma das viagens que fiz a Paris. Eu cheguei à noitinha, jantei e fui imediatamente ver a catedral de Notre- Dame.

Era uma noite de verão não extraordinariamente bonita, comum.

A catedral estava iluminada, e o automóvel em que eu vinha passava da rive gauche para a ilha, e eu via a Catedral de lado, numa focalização completamente fortuita.

Desde logo, naquele ângulo que eu diria tomado ao acaso – se acaso existisse, em algum sentido existe –, eu a olhei e achei tão bela que eu fiquei com vontade de dizer ao automóvel:

“Pára, que eu quero ficar aqui!

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Catedral de COLÔNIA e a sensação de tocar o Céu

A catedral de Colônia!

Ela é muito bonita.

Mas se fossem me perguntar, desenhisticamente falando, se ela é tão bonita quanto Notre-Dame, eu diria: “Indiscutivelmente é Notre- Dame.”

Entretanto, tudo bem pesado, eu digo: “É discutível que seja Notre Dame.”

Por causa de um ponto só. Mas esse ponto supera Notre-Dame de tal maneira, que a gente fica sem saber o que dizer. E é o seguinte.

As torres da catedral de Colônia se levantam do chão com um empuxe, e se lançam para o ar tão inesperadamente, que parecem perguntar à gente: “Quereis voar?!”

Essas torres como que proclamam uma vitória formidável do espírito humano sobre a lei da gravidade!

A lei da gravidade é a lei que atrai o homem para baixo, que torna pesados os seus movimentos, que torna difícil a vida.

Essa lei diante da força ascensional da catedral de Colônia fica como que esmagada.

A catedral de tal maneira se perde pelos céus, num movimento audacioso de alma, desejando o inimaginável mais belo do que tudo quanto em Notre-Dame foi imaginado e realizado.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A galáxia das catedrais que poderiam ter existido – uma pálida amostra da beleza de Deus

Catedral de York, Inglaterra
Catedral de York, Inglaterra
Contemplando maravilhada e desinteressadamente uma catedral gótica, do fundo de nossas almas sobe uma coisa que é luz, superluz.

Mas, ao mesmo tempo, é penumbra ou obscuridade sem ser treva.

É a ideia de todas as catedrais góticas do mundo – as que foram construídas e as que não foram – dando uma ideia de conjunto de Deus que, entretanto, ainda é infinitamente mais do que esse cojunto.

Essa contemplação nos leva para o espírito que inspirou todas essas catedrais.

E aí, realmente, nós vivemos mais no Céu do que na Terra.

Aí o nosso desejo de uma outra vida, de conhecer um Outro – tão interno em mim, que é mais eu do que eu mesmo sou eu, mas tão superior a mim que eu não sou nem sequer um grão de poeira em comparação com Ele –, esse desejo se realiza.

A alma diz: “Ah, eu compreendo, o Céu deve ser assim!”

Por que o Céu?

Porque o homem sabe perfeitamente que um caco de vidro é um caco de vidro. Ele sabe que o sol não é senão o sol.