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terça-feira, 3 de março de 2026

Nossa Senhora de BRUGES: síntese feliz do talento flamengo e da piedade espanhola


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





Num primeiro momento a igreja de Nossa Senhora ‒ Notre Dame em francês e Onze-Lieve-Vrouwekerk em flamengo ‒ de Bruges é confundida com a catedral da cidade.

A razão é ser ela a maior igreja católica da cidade.

Destaca-se por uma torre medieval de 122 metros de altura que é a mais alta de Bruges.

É, aliás, a segunda maior torre feita de tijolos na Europa.

Os visitantes ficam atraídos por seu caráter e pelas destacadas obras de arte que possui.

Ela foi construída entre os séculos XIII e XV.

Muitas obras de arte foram acrescentadas nos séculos posteriores, como uma Madonna de Michelangelo e uma famosa Crucifixão pintada por Anthony van Dyck.

Ali estão também os riquíssimos túmulos de Maria de Borgonha e de seu pai Carlos o Calvo.

A duquesa Maria reinou sobre os Países Baixos, que então incluíam a Bélgica e a Holanda, no fim do século XV.

Os artísticos sarcófagos feitos de mármore preto e cobertos de ricos trabalhos em bronze são um exemplo do gótico tardio.

Na igreja aspira-se uma mistura singular, típica do ambiente flamengo católico.

Por um lado, a igreja de Nossa Senhora carece do luminoso e do colorido típico de gótico francês, substituído por uma certa tristeza da qual não está ausente a influência cultural que preparou a hirteza protestante.

Porém, por outro lado, encontra-se o resplendor, a variedade de cores da arte flamenca nos tempos da glória da alta cultura desenvolvida em Flandres.

Soma-se a isso a patente influência do catolicismo espanhol que afastou da Bélgica dos erros calvinistas e do peso hirto e escuro da arte ‒ ou anti-arte ‒ protestante, escura, melancólica e fatalista.



Vídeo embaixo: Igreja de Nossa Senhora, Bruges, Bélgica





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terça-feira, 8 de agosto de 2023

Teófilo, o clérigo que vendeu a alma ao diabo, segundo uma 'Biblia dos pobres'

Catedral de Toledo
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Encravados nas modernas cidades europeias, erguem-se autênticos gigantes de pedra desafiando o tempo.

São as catedrais medievais, construídas por almas fervorosas que quiseram ver sua fé imortalizada através dos séculos.

Contemplando no silêncio o correr de eras históricas, constituem elas um ensinamento vivo da sabedoria da Igreja Católica.

Em suas esculturas de pedra e delicados vitrais coloridos espelha-se uma ordem ideal do universo. A catedral foi por isso chamada "Bíblia dos pobres".

Algumas estátuas constituem verdadeiras obras-primas, tanto da escultura românica quanto da gótica.

Nesta "Bíblia de pedra e de cristal", os artistas de outrora esculpiram inúmeras parábolas, que ensinam de modo vivo as virtudes que o fiel católico deve praticar.

Uma dessas histórias retratadas em pedra é a de Teófilo.

O fato ocorreu na Sicília, e deu origem à famosa legenda que inspirou a auto sacramental "O milagre de Teófilo", dos mais célebres da literatura medieval.

Catedral de Palermo, na Sicília.
Catedral de Palermo, na Sicília.
Foi escrita pelo clérigo Eutiquiano de Constantinopla, como testemunha ocular que foi do fato. Segundo o padre Crasset, confirmam-no S. Pedro Damião, S. Bernardo, S. Boaventura, S. Antônio e outros.

Qual era o caso de Teófilo? Vigário da Igreja de Adanas, na Sicília, ele dirigira durante muito tempo, com dedicação e acerto, os bens eclesiásticos, facilitando a seu bispo a direção das almas.

Porém, veio o dia em que o prelado entregou sua alma ao Criador, para grande desconsolo e tristeza dos fiéis.

Quem ocuparia a sede vacante? Não havia dúvida: Teófilo — dizia-se por toda parte.

Gargouilles de Notre Dame de París. Esses seres quiméricos lembram a presença do demônio tentando assaltar os homens nos locais menos esperados.
Gargouilles de Notre Dame de París. Esses seres quiméricos
lembram a presença do demônio
tentando assaltar os homens nos locais menos esperados.
O povo o estimava e o queria para bispo, dignidade que ele por humildade recusou, respondendo que sua vocação era continuar exercendo as funções de vigário. Por fim, outro bispo ocupou a sede vacante.

O novo prelado não confiava em Teófilo, e algum tempo depois removeu-o de seu cargo. A desolação invadiu então a alma do eclesiástico.

Enquanto ele vagava pela cidade, o demônio lhe sussurrava:
— Perder o cargo! A carreira! Como foram fazer isso a ti, Teófilo? Isso não pode ficar assim!

Foi nesse estado que o infeliz sacerdote bateu à porta do feiticeiro. Este, porém, negava-lhe uma solução fácil:
— Há só uma saída: invocar a ajuda dos infernos.

Teófilo vacilou por um instante. Porém o ressentimento lhe corroía o coração, e acabou aceitando a proposta. Invocado pelo feiticeiro, o demônio apareceu imediatamente em toda sua hediondez.

Com gritos, blasfêmias e palavrões, foi ditando a Teófilo os termos dos atos, que deviam ser escritos em pergaminho com o próprio sangue do ex-vigário e selados com seu anel.

Devia renunciar à Fé, à Igreja, à Santíssima Virgem e a Nosso Senhor Jesus Cristo.

Catedral de Palermo, Sicília, Itália.
Catedral de Palermo, Sicília, Itália.
Ajoelhando-se, o ex-vigário prestou vassalagem ao demônio, em sua forma monstruosa (na cerimônia medieval de vassalagem, o servo juntava suas mãos e o senhor feudal as cobria com as mãos, significando assim que concederia proteção àquele que se submetia à sua autoridade).

No dia seguinte o bispo reconheceu a falsidade das acusações contra Teófilo e pediu-lhe perdão, restituindo-lhe o cargo que ocupara. A fortuna e o prazer lhe sorriam, mas um profundo mal-estar o atormentava no interior.

Chorava sem cessar, tendo a consciência dilacerada de remorso pelo enorme pecado que havia cometido.

Era como se uma mão o prendesse pelo coração. Ademais, só ao pensar que sua felicidade iria terminar algum dia, tornava-se sumamente infeliz.

Sobretudo, enchia-o de terror o saber de quem era servo!

Finalmente, não podendo suportar mais tal situação, entrou um dia na igreja, e lançando-se aos pés de uma imagem da Santíssima Virgem, chorou amargamente e lhe disse:
— Ó Mãe de Deus, não quero desesperar-me. Ainda Vós me restais, Vós que sois tão compassiva e poderosa para me ajudar.

O 'milagre de Teófilo' entalhado na pedra
para lição dos fiéis (detalhe) Notre Dame de Paris
Fez a mesma coisa durante quarenta dias, renovando sempre suas súplicas e pedindo perdão.

Uma noite apareceu-lhe a Mãe de Misericórdia e disse-lhe:
— Que fizeste, Teófilo? Renunciaste à minha amizade e à de Meu Filho e te entregaste àquele que é teu e meu inimigo!

Teófilo, sem deixar de chorar, implorou a misericórdia da Mãe de Deus. Recordando o exemplo de outros pecadores como o Profeta-Rei David, Santa Maria Madalena e S. Pedro, terminou por dizer:
— Senhora, haveis de me perdoar e de me obter o perdão de vosso filho.

Ela respondeu-lhe que o perdoaria tê-la negado, mas não poderia perdoar a negação de Seu Filho:
— Consola-te, que vou rogar a Deus por ti.

Após ouvir estas palavras, reanimado, redobrou Teófilo as lágrimas, as preces e as penitências, conservando-se sempre aos pés da imagem de Maria. Reapareceu-lhe a Mãe de Deus, e amavelmente lhe disse:
— Teófilo, enche-te de consolação. Apresentei a Deus tuas lágrimas e orações. De hoje em diante guardo-lhe a gratidão e fidelidade.

O infeliz replicou:
— Senhora minha, ainda não estou plenamente consolado. Ainda conserva o demônio o ímpio documento em que renunciei a Vós e a vosso Filho. Podeis fazer que me restitua?

Nossa Senhora enxota o demônio e salva o clérigo Teófilo
Nossa Senhora enxota o demônio
e salva o clérigo Teófilo. Notre Dame de Paris
Compadecida, Ela mesma ofereceu-se para ir buscar o pergaminho no inferno. Durante três dias Teófilo aguardou prostrado em terra, ao cabo dos quais reapareceu a Virgem trazendo o pacto maldito, que entregou a Teófilo como símbolo do seu perdão.

No dia seguinte foi Teófilo à Igreja, e ajoelhando-se aos pés do bispo, que naquele momento oficiava, contou-lhe por entre soluços tudo quanto lhe havia acontecido.

Entregou-lhe o ímpio documento, que o bispo fez queimar imediatamente diante dos fiéis presentes, enquanto choravam todos de alegria, exaltando a bondade de Deus e a misericórdia de Maria para aquele pobre pecador.

Teófilo voltou à igreja de Nossa Senhora, e ao fim de três dias morreu contente, cheio de gratidão para com Jesus e sua Mãe Santíssima.

Na escultura que representa o fato, bem se pode ver esse auge de bondade de Maria. Enquanto o vigário arrependido ora fervorosamente, a Santíssima Virgem obriga, com a espada na mão, o demônio a devolver-lhe o pergaminho.

Três fisionomias marcam a cena: confiança e calma em Teófilo; proteção maternal e força de Nossa Senhora; ódio cínico e desespero profundo no demônio.

(Fonte: S. Afonso Maria de Ligório, "Glórias de Maria")


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terça-feira, 6 de junho de 2023

Nossa Senhora da Penha e São Miguel:
rumo ao sublime em LE PUY EN VELAY

Le Puy-en-Velay:  capela de São Miguel da Agulha
Le Puy-en-Velay:
capela de São Miguel da Agulha
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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diversos blogs








Na França, tão rica em lugares extraordinários, Le Puy-en-Velay é um dos mais impressionantes, sem ser dos mais conhecidos.

A pequena cidade de 20 mil habitantes está situada numa bacia povoada de rochedos de origem vulcânica.

Ela fica no extremo sudeste da região do Auvergne, e é marcada pela fé, pela História e pela beleza natural.

Ela tira seu nome de uma montanha, penha (este é o significado de “puy”) – o Puy d’Anis, hoje conhecido como Rochedo Corneille – em cujo pico os católicos erigiram gigantesca estátua de Nossa Senhora da França, dominando toda a cidade.

Na Idade Média, Le Puy-en-Velay chamava-se Le Puy Notre-Dame ou Puy Sainte-Marie.

Juntamente com Chartres, Le Puy-en-Velay abriga um dos mais antigos santuários votados ao culto marial na Gália celto-romana.

Aparições da Virgem Santíssima e curas miraculosas fizeram do lugar um centro de peregrinação.

Nossa Senhora do Puy, ou Nossa Senhora da Penha,  também conhecida como a Virgem Negra
Nossa Senhora do Puy, ou Nossa Senhora da Penha,
também conhecida como a Virgem Negra.
Na catedral de Le-Puy-du Velay.
Já no século III seus habitantes abraçavam a fé cristã, e o Anuário Pontifício registra a presença ali de uma diocese desde essa remota época.

Na Idade Média, tornou-se um dos principais pontos de partida do “caminho de Santiago”, para os peregrinos que iam a Santiago de Compostela.

>O mais célebre bispo de Puy foi certamente Adhemar de Monteil, nomeado em 1087.

Ardoroso adepto da reforma da Igreja, empreendida por São Gregório VII, ele desempenhou papel essencial na preparação da primeira Cruzada.

Essa primeira Cruzada foi convocada pelo Papa Urbano II em Clermont, capital do Auvergne (na mesma região onde fica o santuário de Nossa Senhora do Puy), em 1095.

Conhecedor da Terra Santa, que visitara como peregrino, Adhemar de Monteil foi escolhido pelo Papa como seu legado na direção da Cruzada.

O comando militar foi confiado ao Conde de Toulouse, Raymond de Saint-Gilles.

Le Puy-en-Velay: Nossa Senhora da França
Le Puy-en-Velay: Nossa Senhora da França
no alto de um pináculo vulcânico
Quando as divergências se manifestaram entre os barões que chefiavam os principais exércitos, o legado pontifício foi a única autoridade capaz de impor-se a todos, por sua virtude e sua habilidade diplomática.

Morreu em 1098, durante o cerco de Antioquia.

* * *

Almas com sensibilidade notam ainda hoje em Puy –– nesta França infelizmente cada vez mais laica e distante da Religião de seus maiores –– os sinais de predileção providencial e de proteção particular de Maria Santíssima.

Às vezes parece notar-se a bênção divina na própria paisagem.

A primeira impressão religiosa é realçada pela própria configuração topográfica, que o senso católico dos habitantes transformou em homenagem a seus padroeiros celestes.

A catedral de Le Puy-en-Velay,
fica no topo de outro pináculo vulcânico

À distância, o olhar distingue três pináculos que falam por si.

Primeiro, a imensa estátua de Nossa Senhora de França, que mede 16 metros de altura e pesa 110 toneladas.

Fundida em 1860 com o bronze de 213 canhões conquistados como troféus na tomada de Sebastopol, durante a guerra da Crimeia, ela figura como símbolo apropriado da realeza de Maria sobre a cidade.

O segundo pináculo corresponde ao campanário da bela catedral, que abriga a Virgem Negra do Puy, trazida do Oriente por Luís VII ou São Luís IX.

Edificada em austero e recolhido estilo românico, ela revela influência bizantina e oriental.

O afluxo de fiéis e de peregrinos exigiu sua ampliação no século XII, e no século XIX foi objeto de importantes restaurações.

Seu rico tesouro abriga preciosas jóias e obras de arte.

Le Puy en Velay: capela de São Miguel Arcanjo
Le Puy en Velay:
capela de São Miguel Arcanjo
Finalmente o menos alto, mas não menos sublime, Rochedo de São Miguel ou St-Michel d'Aiguille, coroado por uma encantadora e secular capela votiva em homenagem ao Arcanjo, patrono da França.

* * *

A milenar chaminé de pedra bruta, originária das fúrias de um antigo vulcão, brota da planície e sobe de um só lance a uma altura de 82 metros, para servir de pedestal à secular capela românica ali construída, não se sabe como, em honra de São Miguel.

A ela pode-se subir através de 268 degraus. Jóia de arquitetura, revela o gênio de arquitetos que souberam aproveitar todos os espaços de uma simples ponta de rochedo para ali erigir e combinar com maestria a arte e a técnica.

Le Puy-en-Velay, capela de São Miguel da Agulha, catedrais medievais
Le Puy-en-Velay: capela de São Miguel da Agulha
Os especialistas ressaltam seu portal oriental, sua graciosa decoração de arabescos, seus mosaicos de pedras negras, cinzentas e brancas, seu complicado sistema de abóbadas.

Tudo tão original e tão belo, que se diria inspirado. Em todo caso, fruto do espírito autenticamente cristão.

O edifício atual remonta ao século XI, mas o perfume sobrenatural que em seu interior se respira parece transportar-nos ao ambiente de uma gruta dos primeiros ermitãos do Cristianismo.

O silêncio e o isolamento que ali imperam convidam o visitante ao convívio com o Arcanjo ou com o próprio Deus.

* * *

Le Puy-en-Velay, panorámica, catedrais medievais
Panorâmica do conjunto
Tais maravilhas falam de homens profundamente imbuídos de espírito católico, de almas que praticavam a virtude, e por isso transmitiam o espírito de Cristo em todas as suas obras, dando um sentido sobrenatural à vida humana.

O panorama que descrevemos muito sumariamente fala de hierarquia, de um lado; de uma procura do sublime e do Céu, de outro.

No mais alto está o reinado dos Corações de Jesus e de Maria, simbolizado pela estátua de Nossa Senhora com o Menino Jesus.

Le Puy-en-Velay, capela de São Miguel no anoitecer, catedrais medievais
Em segundo lugar a Igreja, que representa a autoridade de Cristo na Terra.

Em terceiro lugar, um Arcanjo celeste, que representa também os santos, nossos intercessores junto a Deus, nossos aliados nas batalhas da vida terrena, difícil e incerta.

Todos os píncaros apontam para o céu, mas o Rochedo de São Miguel o faz com particular audácia.

Aí se conjugam a força da pedra e a leveza da arte.

A linda capela no alto bem simboliza a Jerusalém celeste, de beleza atraente e sublime, que devemos atingir galgando escarpados caminhos.

É o convite para a luta, para as santas ousadias, para o heroísmo, a fim de alcançar o tão elevado prêmio da felicidade eterna, prometido a todos que combaterem o bom combate.


Autor: Wilson Gabriel da Silva



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terça-feira, 6 de setembro de 2022

Notre Dame de PARIS, reflete a face da Igreja Católica Apostólica e Romana em toda a sua santidade

Luis Dufaur
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As fotografias que eu via da catedral de Notre Dame quando eu era menininho determinavam um impulso da alma para ela, que era uma coisa indescritível.

Eu dizia: “Aquilo é, aquilo deve ser!

“Assim é a igreja das igrejas, a igreja perfeita.

“Onde a face da Igreja Católica Apostólica e Romana se reflete com toda a perfeição de sua santidade”.

Imaginemos que os homens, que são os reis da criação e, portanto, o teto da criação visível nessa terra — os anjos que são invisíveis e não são dessa terra —, se os homens atingissem toda a santidade para a qual eles são chamados.

E de posse dessa santidade, eles pudessem, sem ser coarctados pelo poder das trevas, construir livremente, organizar, arranjar, etc., etc., como o interior de suas almas lhes fala.

O que é que eles fariam?