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terça-feira, 30 de setembro de 2025

Abadia de SOLESMES: arca de salvação

A vida na solidão acompanhado por Deus
A vida na solidão acompanhado por Deus
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Às cinco da manhã ainda está escuro no verão e no inverno faz muito frio.

A cidade toda de Solesmes dorme bem arroupada enquanto o velho sininho da abadia se põe a repicar com sua milenar nota.

Os monges estão sendo convocados a cantar a primeira Hora do dia.

Silhuetas silenciosas se encaminham para a igreja fazendo deslizar seus hábitos pretos sobre o chão de pedra.

De ali a pouco suas vozes entoam as antífonas, leituras e salmos à glória dAquele que os convocou ali.

“Qui bene cantat, bis orat” “Quem canta bem, reza duas vezes”) ensinou Santo Agostinho.

Em Solesmes os monges cantam sete vezes por dia, trinta e cinco horas por semana, explica o Pe. Paul-Alain.

No brilho do olhar dos monges percebe-se a plenitude do gáudio sobrenatural que enche suas almas.

O costume se repete há mil e quinhentos anos na abadia de Saint Pierre de Solesmes, na região da Sarthe, França, num antegosto terrestre da vida eterna.

Não foi um milênio e meio fácil.

O inferno se abateu sobre Solesmes que foi preciso reconstruir em 1869.

Solesmes foco de restauração do canto gregoriano.
Solesmes: foco de restauração do canto gregoriano.
A Revolução Francesa não tolerou essa antessala da Corte Celeste cujo nome o igualitarismo revolucionário não conseguia sequer pronunciar sem blasfemar, e a arruinou.

Em 1833, entre as ruínas deixadas pelo tufão do ódio revolucionário, um jovem sonhava com os monges que outrora animaram aquele lugar destruído onde os anjos pareciam chorar.

Seu nome era Prosper Pascal Guéranger, nascido em 1805, fervente admirador dos magníficos grupos escultóricos de “Les Saints de Solesmes” entalhados nos séculos XV e XVI.

Ele haveria de se tornar eclesiástico e reunir os recursos para comprar e restaurar o priorado.

Acabaria sendo o homem símbolo da recuperação da Ordem Beneditina no século XIX e o grande restaurador do canto gregoriano.

Dom Guéranger abriu a avenida mística dos homens que por vezes com menos de 20 anos ouviram o chamado de Deus e se embrenharam pelo que os comuns chamam de deserto, mas que comunica uma prelibação do Céu.

Mas eles percebem que o deserto do desespero está na agitação do mundo.

'Quem canta bem, reza duas vezes' ensinou Santo Agostinho
'Quem canta bem, reza duas vezes', ensinou Santo Agostinho
O Pe. Rafael tinha se graduado em Minas e um belo futuro se abria diante dele. Mas algo de enorme lhe faltava.

“A sociedade moderna só funciona por e para o dinheiro. Mas essa não é a finalidade da vida humana! Foi então que Cristo veio me colher.

“Era como se uma luz apontasse para mim e me penetrasse completamente. Eu percebia uma inteligência, uma pessoa por trás dessa luz que me dizia: ‘Eu te conheço e eu te amo’.”

No 8 de dezembro de 2011, Rafael ingressava no noviciado de Saint Pierre de Solesmes.

A agenda do monge é extraordinariamente cheia. Acordar às 5:00 horas para cantar em gregoriano: Matinas às 5:30 e Laudes às 7:30h. Missa às 10:00. Canto de Sexta às 13:00; Nona às 13:50; Vésperas às 17 e Completas às 20:30.

“O canto gregoriano, como toda forma de beleza, tem qualquer coisa de Deus”, explica o prior Pe. Geoffroy.

“Se há tantos visitantes tocados por Solesmes é porque eles fazem a experiência sensível da fé por meio do canto.

“Frequentemente as pessoas as mais afastadas da Igreja são as mais tocadas por esta experiência, ainda quando não entendem o latim, que lhes revela o caráter infinitamente sagrado de Deus”.

A soma das idades rumo à eternidade.
A soma das idades rumo à eternidade.
“Por vezes me ocorre a ideia, diz o escritor Julien Green, que estes religiosos vivem um imenso sonho litúrgico quando, na realidade, são eles que estão na verdade e somos nós que vivemos num sonho que a todo momento vira pesadelo”.

Toda manhã antes da Missa, cada beneditino lê um trechinho da Bíblia ou dos escritos dos Padres e Doutores da Igreja.

Alguns fazem verdadeiros trabalhos de pesquisa que culminam em publicações. Livros são lidos durante as refeições e a biblioteca da abadia é de uma riqueza inaudita.

Além do trabalho intelectual, eles têm o manual: alguns são padeiros, outros alfaiates, sapateiros, jardineiros, encadernadores, carpinteiros ... Todos ao serviço da comunidade monástica.

O irmão Lionel diz “eu rezo trabalhando a madeira. Com o trabalho manual, o homem está chamado a participar na obra da Criação.

O trabalho manual é obrigatório
O trabalho manual é obrigatório
“E ainda cometendo erros o trabalho humano é infinitamente preferível ao da máquina.

“À perfeição maquinal se opõe a perfeição da alma humana, e de Deus que está nela, completando a obra criadora.

“Olhe esta tábua de madeira com seus nós e imperfeições: não é a imagem da alma humana com suas asperezas e seus limites que Deus vem a encher com sua graça?”

O irmão Lionel parte para atender seus pobres miseráveis que vem de toda parte da França porque sabem que em Solesmes, em conformidade com a Regra de São Bento, são recebidos como se eles fossem o próprio Cristo.

E então para o que é que serve um monge no século XXI?

“O monge por definição não serve para nada aos olhos do mundo, responde frei Geoffroy.

“Não se pode esperar de nós nem eficácia nem rentabilidade”.

Eles só fazem uma coisa aos olhos de outros: fascinam. São procurados ainda que mais não seja para passar perto deles um instante, de vê-los rezar e sentir um pouco da paz que reside neles.

“O homem no seu cerne está animado pelo desejo do infinito, diz frei Boralevi,

A vida monástica, reflexo da vida celeste.
A vida monástica, reflexo da vida celeste.
“Ele tem a necessidade de sentir que é possível existir uma relação como a que nós temos com Deus.

“Essa relação constante de coração a coração com nosso Criador é a vocação derradeira de todo ser humano”.

Alguns que batem na porta do mosteiro estão a anos luz da religião cristã, mas todos são acolhidos.

O atrativo é enorme, mas poucos são os que se engajam. É difícil renunciar às solicitações da vida moderna.

“Elas oferecem uma ilusão de liberdade e uma ideia aliás muito pálida da felicidade.

“Só a fé em nosso Salvador pode encher a alma humana, porque ela comunica uma esperança imensa”, completa frei Geoffroy.


(Fonte: “No segredo de uma abadia milenar”, Ghislain de Montalembert, “Le Figaro Magazine”, 20 de dezembro de 2019, págs. 50-61)


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terça-feira, 4 de março de 2025

Abadia de JUMIÈGES: onde os monges conquistavam o perdão de Deus para os pecadores

Jumièges, na Normandia, França
Jumièges, na Normandia, França
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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Continuação do post anterior: Abadia de Jumièges: em pé atraia as bênçãos de Deus. Hoje em ruínas, quem reza por nós?



À margem da história da abadia, ocorreu a história da Normandia. Em 1066, Guilherme, chamado o bastardo, conquistou a Inglaterra.

Por isso é conhecido como Guilherme, o Conquistador, tendo grande parte da nobreza inglesa origem normanda. Mais tarde alguns de seus descendentes se ilustrariam nas Cruzadas, como Ricardo Coração de Leão.

Outro normando igualmente conquistador foi Roberto de Hauteville, dito Roberto Guiscard, que organizou uma expedição à Itália meridional para arrebatar todo o sul da península aos bizantinos e a Sicília aos sarracenos.

Assim, as espadas de antigos bárbaros serviram à Cristandade contra os infiéis.

"Deus escreve direito por linhas tortas”, diz um ditado brasileiro. É bem o caso. Um povo bárbaro se civilizou e tornou-se ilustre.

A milenar abadia de Nossa Senhora de Jumièges só foi destruída em 1790, mais de mil anos depois de sua fundação, pelo ódio dos asseclas da Revolução Francesa.

Suas pedras foram colocadas à venda, como se tratasse de uma pedreira. Visitando em 1835 o que restou desse augusto monumento, Victor Hugo ficou impressionado por sua beleza.

Por sua vez, o historiador Robert de Lasteyrie du Saillant considerou-a uma das mais admiráveis ruínas existentes na França. Ainda em nossos dias, elas atraem visitantes aos milhares.

Como pode uma ruína causar tanta impressão nos espíritos?

Monges cartuxos rezam o Ofício Divino, no mosteiro da Grande Chartreuse, nos Alpes
Monges cartuxos rezam o Ofício Divino,
no mosteiro da Grande Chartreuse, nos Alpes
Em Jumièges viveram almas que abraçaram o sofrimento e o anonimato por amor de Deus. Ali praticaram a humildade na oração, no estudo e no trabalho.

A Regra de São Bento considera o ócio como inimigo da alma. Por isso ela estabelece que os monges devem alternar, em horas fixas, oração, leitura espiritual e trabalhos manuais. “Ora et labora” é a divisa da Ordem.

Assim, além do canto do Ofício e outras orações em comum, uma parte do dia beneditino é consagrada ao trabalho manual — sem o qual a comunidade não poderia subsistir.

E cada mosteiro deve bastar-se a si mesmo, a fim de conservar a liberdade na prática da Regra e da virtude.

Também o indispensável trabalho intelectual, sem o qual os monges não poderiam cultivar a própria alma. Por isso, muitos deles passavam grande parte do seu tempo a ler e copiar manuscritos.

Isso explica por que os mosteiros se tornaram centros de vida intelectual e focos de santidade, além de formar verdadeiros artistas na cópia e iluminura de manuscritos.

O Inimigo por excelência de toda ordem, de todo esplendor, de toda hierarquia, de toda harmonia, de toda desigualdade, e, em consequência, de toda variedade entre os seres da Criação, é o que Prof. Plinio Corrêa de Oliveira designou de Revolução.(Revolução e Contra Revolução, Catolicismo nº100, abril/1951)

Onde há amor às desigualdades harmônicas e proporcionadas, há ordem. Onde existe ordem, há amor de Deus, porque Ele é o Autor de todas as desigualdades proporcionadas e retas.

Ruínas da abadia de Jumiège na Normandia
Ruínas da abadia de Jumiège na Normandia
Os normandos amaram as desigualdades e a ordem nascida da Europa medieval, por isso compreenderam a grandeza da Religião cristã, ou seja, católica, apostólica romana.

Também por isso a Revolução Francesa, em todas as suas fases e formas, foi o inimigo mais daninho à Cristandade no tocante à ordem temporal.

Como o é em nossos dias em relação à verdadeira Religião católica o chamado progressismo, inimigo de todas as sãs desigualdades e, portanto, do próprio Deus.

E quando se ama a Deus de espada em punho como o fêz Santa Joana d'Arc, ou de terço na mão como tantos santos, compreende-se o valor da luta.

Quando se ama a Deus a ponto de dar a vida por Ele, a alma emite, por assim dizer, um perfume próprio que a todos conquista.

Só uma alma que soube lutar e sofrer, como a de Santa Teresinha, pode conquistar outras almas para a verdadeira Igreja, hoje devastada pelos mais abomináveis inimigos internos de todos os tempos.

No contexto da França – e mesmo da França revolucionária de hoje –, a Normandia é um jardim, no qual se destaca uma flor: Santa Teresinha do Menino Jesus…

Representando o papel de Santa Joana d'Arc, ela foi uma insigne batalhadora de espada na mão contra os infiéis. Mas, sobretudo, foi a continuadora dos contemplativos de Jumièges, conquistadores de almas e de heróis!


(Autor: Gabriel J. Wilson, in “Catolicismo”, junho de 2016).


Quando a abadia de Jumièges não estava em ruínas, França



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terça-feira, 9 de julho de 2024

Abadia de JUMIÈGES: em pé atraía as bênçãos de Deus.
Hoje quem reza por nós?

A neve acumulada sobre as ruínas da abadia fala do esfriamento na fé e do esquecimento de Deus
A neve acumulada sobre as ruínas da abadia
fala do esfriamento na fé e do esquecimento de Deus
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Enriquecido às portas de Paris pelas verdes águas de seu principal afluente oriundo do Leste, o rio Marne, o Sena serpenteia preguiçosamente a partir da capital francesa rumo ao mar, passando pela bela e vetusta capital da Normandia: Rouen, fundada no século II.

Nesse trecho final, suas imponentes falésias de calcário branco formam um verdadeiro paredão junto a sua margem direita, dando abrigo a inúmeras habitações ditas “trogloditas”, como as denominam os franceses modernos. Muitos ali fazem suas caves, depósitos, moradias, e até igrejas.

Normandia! Uma das mais belas e típicas regiões da França, com suas lindas choupanas de traves aparentes, cobertas de colmo (palha de trigo ou centeio).

Sua população risonha e amável, como era a normanda Santa Teresinha do Menino Jesus, nem parece reportar sua origem aos terríveis vikings vindos do Norte, especialmente da Noruega e da Dinamarca.

Entretanto, assim foi.

A França, como se sabe, provém da antiga Gália, dominada pelos romanos 50 anos antes de Cristo.

Mais tarde, os francos, oriundos da Germânia, estabeleceram-se ao norte da Lutécia romana para conquistar o coração do que seria mais tarde o seu reino.

A conversão de Clóvis, em 496, foi de algum modo para os francos o que a conversão de Constantino representara para o Império Romano, em 313.

Cristianizada a partir do século II, Rouen e sua região foram ocupadas por Clóvis em 497. Os primeiros mosteiros aí fundados datam do século VI.

Na metade do século VII, durante a época merovíngia, o rei Dagoberto teve como chanceler Ouen, ligado por estreita amizade a Filisberto e Wandrille.

A vida dos monges girava em torno da oração para Deus se manifestar propício aos homens
A vida dos monges girava em torno da oração
para Deus se manifestar propício aos homens
Os três amigos foram canonizados pela Igreja, numa época em que se levava a sério a santidade...

Santo Ouen (pronuncia-se “uã”) tornou-se bispo de Rouen e fundou nessa cidade a célebre abadia que ainda hoje tem seu nome.

Wandrille fundou a abadia de Fontenelle em 649, hoje chamada de São Wadrille, também junto ao Sena.

Pouco depois, em 654, São Filisberto erigiu a abadia de Jumièges, situada entre as duas anteriores, à margem direita do terceiro meandro do Sena depois de Rouen, a pouco mais de 20 quilómetros dessa capital.

Após a morte do fundador, em 685, a abadia foi dizimada por uma epidemia que teria tirado a vida de mais de 400 monges.

Não obstante, como Fontenelle, Jumièges teve um rápido desenvolvimento. Um documento registra 114 monges em 826: é o Livre de confraternité, da abadia de Reichenau, à qual a abadia de Jumièges estava vinculada por uma comunidade de orações.

Outras fontes, menos confiáveis, falam em 900 monges no século anterior.

Favorecida por doações de reis e grandes senhores, a abadia de Jumièges tornou-se conhecida pela sua generosidade em relação aos necessitados e aos peregrinos.

Mas sua história ainda estava apenas no começo. Com efeito, desde o século II as costas do Canal da Mancha vinham sendo regularmente invadidas pelos audazes guerreiros vikings, oriundos da Escandinávia.

Em princípios do século IX, os homens vindos do Norte — daí o nome de normandos — voltaram para ficar. Em 841, penetrando pelo vale do Sena, incendiaram Rouen e Jumièges, e chegaram a sitiar Paris (885).

A paz foi obtida com um tratado através do qual o rei dos francos conferia ao chefe viking Rollon o título de duque da Normandia.

Foto aérea das ruínas da grande abadia
Foto aérea das ruínas da grande abadia
O rei Carlos, o Simples, cedeu-lhes terras em 911 e 924. O rei Raul cedeu outro tanto em 933. E os normandos, pacificados, permitiram a volta dos monges aos seus mosteiros.

Quando o segundo duque da Normandia, Guilherme Espada Longa, em uma saída de caça deparou com as ruínas de Jumièges, decidiu mandar reconstruir a abadia.

E pediu a sua irmã, casada com o conde de Poitiers, que obtivesse monges para habitá-la. Com o apoio do duque, os monges puderam assim reconstituir Jumièges. Isto ocorreu em 940, ou pouco antes.

Com o assassinato do duque Guilherme em 942, a Normandia sofreu novas convulsões.

O governador de Rouen, Raul Torta, mandou então destruir a abadia para utilizar suas pedras no reparo de uma fortaleza.

Um novo alento veio, entretanto, por volta do ano mil, quando o duque Ricardo II mandou vir da abadia de Cluny o monge Guilherme de Volpiano, cujo discípulo, Thierry, tornou-se abade de Jumièges, com autoridade também sobre as abadias de Bernay e do Monte St-Michel.

Ele decidiu mandar reconstruir e restaurar a igreja abacial de Nossa Senhora. Mas a obra só foi concluída por seu sucessor, Roberto Champart, em 1040.


Continua no próximo post: Abadia de Jumièges: onde a oração dos monges atraia as bênção de Deus para perdoar a humanidade pecadora


(Autor: Gabriel J. Wilson, in “Catolicismo”, junho de 2016).

Abadia de Jumièges: as mais belas ruínas da França (Victor Hugo)




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quarta-feira, 11 de junho de 2014

Como foram os monges
que habitaram o Monte Saint-Michel?

Vista aérea da abadia e do vilarejo do Mont Saint-Michel, Normandia, França

O Monte Saint Michel impressiona antes de tudo pelo efeito natural que produz sua figura.

Mas há outro fator que não é natural e que é indizível.

Este fator se soma ao lado natural e dá o melhor do Monte de São Miguel Arcanjo. É a graça divina.

E essa graça toca o fundo das almas que se deixam influenciar por ela.

Esse fator sobrenatural está ligado aos monges que ali viveram, à intenção do fundador que construiu aquilo, enfim, a uma série de movimentos de alma muito bons que convergiram para que o Monte Saint-Michel fosse como é.

quarta-feira, 9 de março de 2011

A decadência de Cluny e o ocaso da Cristandade medieval (7)


A cristandade alargava-se, as cidades eram novamente palco de transformações sociais. Nascimento da burguesia, novo impulso comercial.

Esse arranque teve início por volta do ano mil. Para as mentes de então, estava associado à busca religiosa. O próprio Raul Glaber, cluniacense, é sempre bom recordar, fala de uma paz divina após o flagelo da fome, como se Deus renovasse seu pacto com a humanidade. Sinta a fluência literária de um historiador cluniacense:

quarta-feira, 2 de março de 2011

São Bernardo: reação para segurar a queda de Cluny (6)


De qualquer modo, a independência, todo esse luxo e opulência e especialmente a velocidade com que Cluny passou de uma economia baseada na exploração direta de um vasto domínio (910-1080) para uma economia monetária (1080-1125) (DUBY, 1990: 123) despertou a ira de muitos setores eclesiásticos. Invejas.

Com a morte do abade Hugo de Sémur (1109), a eleição de Pons (que se demitiu) e Hugo II (que governou apenas alguns meses), a ordem entrou em crise. Crise de valores: foi acusada de corrompimento. Luxo, opulência, fausto. Degeneração. Sua expansão e enriquecimento provocara ciúmes. Mas também decadência moral.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Cluny, como viviam os monges da Jerusalém celeste encarnada (5)


O monetário oriundo das doações que afluiu para Cluny foi também direcionado pelo abade para os mais pobres. Como afirmei no início desse texto e volto a insistir, a economia monástica não visava o lucro, estava voltada para a comunidade ‒ num sentido mais amplo, para o corpo cristão.

Reitero: nem o abade, nem os monges, nem seu tempo tinham a mentalidade capitalista. É inútil vê-los com esse olhar moderno. Não era esse o foco.

Há de se fazer um esforço de compreensão, é necessário. Historiador, liberte-se de suas amarras materiais, sinta o ambiente e as prioridades de então. Coloque-se no lugar, pense na Idade Média, não a Idade Média (LIBERA, 1999: 68).

Perde-se perspectiva, claro, mas ganha-se compreensão, amplia-se o horizonte do entendimento histórico.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Cluny, monges-guerreiros e “anjos do Apocalipse” na Jerusalém celeste encarnada (4)



Dos sonhos aos mortos

Eles conquistaram as graças do povo. Um fato crucial para essa devoção popular foi a criação da liturgia dos mortos. Dia dos finados. Assumiam assim as funções eucarísticas.

Um “mistério magnífico” que trouxe grandes benefícios às almas dos fiéis defuntos. Os monges de Cluny eram guerreiros de luz que combatiam as trevas. Ao cantarem ininterruptamente, resgatavam as almas penadas, os perdidos, os errantes que estavam condenados ao abismo infernal.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Cluny: o “fasto” e a “hierarquia angélica” na Jerusalém celeste encarnada (3)


A expansão cluniacense

Até 926 Bernon aclimatou os irmãos no espaço, na pequena capela existente. Preparou-os para sua missão. Edificou a primeira igreja (Cluny I). Não se sabe nada nem da capela (Cluny A) nem da igreja (IOGNA-PRAT, 1998: 107).

Nesse mesmo ano de 926 Bernon legou Cluny a seu discípulo Eudes (927-942), já citado. Durante seu abaciado, Cluny recebeu um importante privilégio: o papa João XI (931-936) outorgou-lhe em 931 um direito de reforma: a partir de então, qualquer mosteiro que solicitasse ao abade cluniacense uma reforma monástica seria incorporado à casa mãe. O mesmo se daria com qualquer monge que desejasse ser acolhido (IOGNA-PRAT, 1998: 101).

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Cluny: o “exército do Senhor” na Jerusalém celeste encarnada (2)


Fundação de Cluny: a doação de Guilherme, duque da Aquitânia

O mais importante centro da reforma monástica foi Cluny.

Raul Glaber (†1044), o melhor historiador do ano mil, também ele cluniacense, nos conta que a abadia de Cluny era um asilo de sabedoria, pois fez renascer a Regra de São Bento ‒ embora com uma ênfase diferente, como veremos mais adiante.

A raça cluniacense tornou-se, segundo suas palavras, “um exército do Senhor que se espalhou rapidamente numa grande parte da terra” (citado em DUBY, 1986: 188).

Um modelo de perfeição, um modo de vida totalmente harmonizado com os desígnios do Criador, Cluny foi um dos maiores projetos monásticos de todos os tempos. Desde sua fundação em 932, a abadia não parou de crescer. Doado em 910 (ou 909) por Guilherme, mais tarde chamado de o Piedoso, duque da Aquitânia e conde de Mâcon, o domínio (villa) encontrava-se ao sul da Borgonha, no Saône e Loire, próximo do Ródano (MARTÍNEZ, 1997: 192).

Havia uma capela no local (chamada de Cluny A) - as escavações arqueológicas dataram-na entre os séculos VI e VIII (IOGNA-PRAT, 1998: 107).

Chegaram seis monges, liderados por Bernon (910-924), abade de Baume e Gigny, que se propôs construir um pequeno santuário (chamado pelos especialistas de Cluny I), com 35 metros de comprimento (HEITZ, s/d: 132).

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Cluny, a Jerusalém celeste encarnada (1)


Houve uma igreja medieval que foi a maior ‒ e no juízo dos contemporâneos ‒ a mais bela e esplendorosa da Idade Média.

Ela foi uma obra prima do estilo românico e dela brotou o estilo gótico.

Foi a igreja abacial de São Pedro de Cluny, mais conhecida como Cluny III, pois foi a terceira de uma série construída, uma após a outra, no mosteiro de Cluny, na Borgonha‒França. Cluny foi a mais grande, deslumbrante, poderosa e influente abadia da Era da Luz.

A Basílica de São Pedro no Vaticano foi feita do tamanho atual para superar a Cluny III e poder ser o maior templo da Igreja Católica e da Cristandade.

De São Pedro de Cluny hoje só ficam ruínas como resultado do feroz ódio anti-cristão da Revolução Francesa.

Entretanto, o mito da fantástica abadia, coração monacal da Europa medieval, não só não morreu, mas tem surpreendente renascer no século XXI.

O prof. Ricardo da Costa elaborou valioso estudo sobre aquela que foi considerada a “Jerusalém celeste encarnada”, e do qual reproduzimos excertos nos posts seguintes.



(No tempo da fundação de Cluny) O mundo religioso também enfrentava uma grave decadência, especialmente após a dissolução do Império Carolíngio e os ataques vikings no final do século IX.

Brasão da abadia de Cluny: as chaves de São Pedro e uma espada.
Abadias foram destruídas, comunidades dispersadas, a Regra de São Bento esquecida. Ermentário, um monge de Saint-Philibert de Noirmoutier, escreveu em meados do século IX:

O número de navios aumenta; a multidão inumerável de normandos não pára de crescer; de todos os lados cristãos são vítimas de massacres, pilhagens, devastações, incêndios (...) tomam todas as cidades que atravessam (...) muitas cinzas de santos são roubadas (...) quase não há localidade, nenhum mosteiro que seja respeitado, e raros são aqueles que ousam dizer: fiquem, fiquem, resistam... (citado em D'HAENENS, 1997: 89)

Cluny III, imagem de sintese
Marc Bloch chegou a afirmar que a desordem resultante das tormentas vikings e magiares do século IX deixou o corpo social do ocidente medieval “coberto de feridas”; a vida intelectual sofreu muito com isso, pois o monarquismo decaiu profundamente (BLOCH, 1987: 57).

O papado também sofreu: no início do século XI, estava dominado pela nobreza germânica, que elegia e depunha papas a seu bel-prazer. Por sua vez, corruptos e devassos, os papas distinguiram-se por suas orgias e subornos.


Simonia e nepotismo, desejo de possuir coisas impuras: cupiditas (DUBY, 1992: 51). Pecado capital. Escândalo. João XII (955-964), por exemplo, foi acusado por seus cardeais de subornar bispos, cometer adultério com a concubina de seu pai e incesto com sua mãe; Benedito IX (1032-1044), igualmente devasso, vendeu o cargo a Gregório VI (1045-1046) por moedas de ouro, sendo deposto por isso (DUFFY, 1998: 87).

Senhores feudais também indicavam abades para os mosteiros, apropriando-se de suas rendas. Parecia que o mundo espiritual estava irrevogavelmente destruído. Fim dos tempos, apocalipse. São Eudes de Cluny (†942) disse:
...alguns clérigos desconsideram tanto o Filho da Virgem que praticam a fornicação em suas próprias dependências, até mesmo nas casas construídas pela devoção dos fiéis a fim de que a castidade possa ser conservada dentro de seus recintos cercados; inundam-nas com tanta luxúria que Maria não tem lugar para deixar o Filho Jesus (citado em DURAND, s/d: 475-476) Obs: Freqüentemente Eudes é mencionado como Odon).