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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A catedral e “a arquitetura da felicidade” (1)

O escritor contemporâneo Alain de Botton deixou no seu livro premiado “The Architecture of Happiness” (“A arquitetura da felicidade”) uma admirável descrição do bem que faz às almas a nobreza de uma grande catedral.

O fato que lhe aconteceu deu-se em Londres, na catedral católica de Westminster.

O testemunho é particularmente expressivo pelo fato do autor ser um ateu militante:


“Há alguns anos, apanhado por forte chuva, tendo que matar o tempo destinado a um almoço com um amigo que não aparecera, estando na Victoria Street, refugiei-me num bloco de granito, com vidros esfumaçados, onde se acha a sucursal do McDonald’s, no bairro de Westminster.

“O ambiente no interior do restaurante era tristonho e pesado. Os fregueses comiam sós, lendo jornais ou fitando os azulejos azuis, mastigando inexoravelmente, sem elegância, dando a impressão de que ao lado desse modo de comer a atmosfera de um estábulo pareceria tratável e de boas maneiras.

“O ambiente tornava aos poucos absurdas idéias tais como: as pessoas podem ser às vezes generosas sem esperança de retribuição; as relações pessoais podem, talvez, ser sinceras; talvez a vida valha a pena de ser vivida...

“O verdadeiro talento do McDonald’s consiste em gerar ansiedade. A forte iluminação, o ruído intermitente do despejar de batatas congeladas em óleo fervente e o trabalho frenético dos balconistas eram um convite a pensamentos de solidão e de falta de sentido da existência posta num universo caótico e violento. A única solução era continuar comendo na esperança de compensar o desconforto causado pelo local no qual se estava.

“Entretanto minha refeição foi perturbada pela entrada de mais ou menos trinta jovens finlandeses, de uma altura não plausível.

“O choque causado neles pelo fato de estarem tão ao Sul, trocando as neves glaciais por uma simples chuva os deixava eufóricos. Exprimiam essa euforia retirando do invólucro quantidades de canudinhos, cantando em voz alta, montando nas costas uns dos outros, para confusão dos empregados, hesitantes entre proibir esse comportamento ou respeitá-lo, caso fosse promissor de apetite voraz.

“Incitado pelos finlandeses a dar à minha refeição um fim precipitado, deixei minha mesa dirigindo-me à praça adjacente onde notei, pela primeira vez, as linhas bizantinas, incongruentes, mas imponentes, da Catedral de Westminster com seu campanário de tijolos vermelhos e brancos, elevando-se a 87 m adentro do espesso nevoeiro de Londres.