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terça-feira, 14 de abril de 2026

A ciência dos números e a harmonia do universo no templo de suprema beleza

Relógio astronômico da catedral de Lund, Suécia
Relógio astronômico da catedral de Lund, Suécia
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





A construção das catedrais participa da ciência dos números, esses números que são a harmonia do mundo, e que foram consagrados pela liturgia católica.

0 3 é o algarismo da Trindade, algarismo divino por excelência, que reconduz tudo à unidade e representa as três virtudes teologais.

0 4 é o algarismo da matéria: dos quatro elementos; dos quatro temperamentos humanos; dos quatro evangelistas tradutores da palavra de Deus; das quatro virtudes cardeais, que devem ser praticadas pelo homem na condução da sua vida terrestre.

0 7, que alia o divino ao humano, é o algarismo de Cristo, e depois dele o algarismo do homem resgatado: os quatro temperamentos físicos unidos às três faculdades mentais (intelecto, sensibilidade, instinto).

Ao mesmo tempo, uma outra combinação de 3 e 4 dá 12, o algarismo do universo, dos doze meses do ano, dos doze signos do zodíaco, símbolo do ciclo universal.

O nosso sistema métrico não tomou em conta esses “números-chave”, mas deve-se observar que a atual numeração, um tanto abstrata e rudimentar, não conseguiu adaptar-se, por exemplo, às fases solares e lunares, e continua a ser suplantada em quase toda parte, nos campos, por medidas ao mesmo tempo mais simples e mais sábias.

Tudo isso deixa entrever uma ciência oculta, mais profunda do que se tinha podido suspeitar até agora.

E a iconografia, que na sua forma científica está ainda no começo, poderá abrir dentro de pouco tempo perspectivas ainda ignoradas.

Devemos contentar-nos, de momento, em admirar a maneira como os artistas da Idade Média souberam fazer da sua casa de orações como que o resumo e o apogeu da sua vida e das suas preocupações.

Ela era não apenas o testemunho visível da sua fé, da ciência sagrada e profana, da liturgia, mas ainda o reflexo das suas ocupações quotidianas.

Catedral de Estrasburgo, França
Catedral de Estrasburgo, França
Lado a lado com um magistral Juízo Final, súmula viva da majestade divina e dos últimos fins do homem, vêem-se camponeses a matar o porco, a atar espigas, a aquecer-se diante da lareira.

E encontramos igualmente testemunhos desse robusto sentido da beleza que possuíam os nossos antepassados, do seu amor pela vida, da sua alma serena e amante do trabalho bem feito, da sua imaginação vagabunda, sempre a inventar formas novas (nunca se veem lado a lado na ornamentação medieval, por exemplo, dois motivos de folhagem idênticos), da sua veia folgazona, que não conseguem refrear mesmo na igreja (alguns rostos de vitrais são autênticas caricaturas, e certas estátuas alegres brincadeiras).

Como não nos espantarmos ainda com esse frenesi de construção a que se assiste nos séculos XII e XIII, e que apenas esmorece ligeiramente nos dois séculos seguintes?

Há essas enormes massas de pedra transportadas da pedreira para o local do edifício, esse mundo de escultores, cortadores de pedra, carpinteiros, pintores, operários e ajudantes.

E era cada vez mais impressionante a atividade das oficinas onde se trabalhava o vidro, pois uma catedral como a de Chartres não comporta menos de cento e quarenta e quatro janelas altas.

Abstraindo de toda a emoção artística, pense-se apenas no trabalho gigantesco representado por essa enorme superfície de vidro, composta de parcelas de vidro reunidas; no trabalho dos desenhadores, dos fundidores de chumbo, dos cortadores de vidro; dessa massa de artistas anônimos, cujos esforços conjugados resultaram numa orgia de cores que irradiam no interior do edifício.

Rosácea de Chartres, França
Rosácea de Chartres, França
Essas cores são ainda realçadas pelos jogos de sombra e luz sobre as arestas das ogivas facetadas, pelas gargantas dos capitéis profundamente cavadas, pelos toros cilíndricos ou facetados, pelas colunas onde o claro-escuro é regido por sábias e variadas alternâncias.

Contrariamente ao que se crê, tais obras-primas eram construídas rapidamente, e não se hesitava em demolir para fazer melhor.

Maurice de Sully, para reconstruir a Notre-Dame, destruiu a igreja construída apenas setenta anos antes.

Em Laon, o bispo Gautier de Mortagne edifica por volta de 1140 uma igreja gótica no lugar da igreja românica, que no entanto datava apenas de 1114.

E o não menos admirável está longe de ser a continuidade, a unidade desse imenso esforço dos construtores.

As gerações que se sucedem formam um todo; tradições e segredos de ofício são transmitidos sem solução de continuidade; e não se hesita, ao longo da construção ou das reconstruções parciais, em utilizar todos os aperfeiçoamentos da técnica.

Arcobotantes do século XIV vêm ombrear uma nave do século XIII, mas o conjunto permanece harmonioso.

No castelo de Vincennes podem-se ver lado a lado duas janelas elaboradas a cem anos de distância uma da outra, e que parecem feitas para conviver, embora totalmente diferentes como arte e como arquitetura.

Abadia do Mont Saint-Michel, França
Abadia do Mont Saint-Michel, França
Seria impossível conceber, ao contrário, uma janela no estilo Le Corbusier incrustada num edifício de estilo 1900, embora menos de trinta anos os separem.

Eis a razão pela qual certas restaurações demasiado conscienciosas acabaram por transformar os monumentos em vítimas e os desfiguraram, pois tentou-se refazer tudo de acordo com uma mesma ordenação e com regras e cânones que nunca existiram na mentalidade dos construtores.

Onde antes se atingia sem esforço a harmonia, só conseguiram produzir uniformidade.

As evoluções da arte medieval explicam-se quase sempre por aperfeiçoamentos da técnica, e os pormenores de ornamentação pelas necessidades da arquitetura.

Não se teriam construído gárgulas, por exemplo, se elas não servissem como goteiras para vazar a água.

E se as curvas de contornos nítidos da rosácea de estilo gótico foram atenuadas, tomando a forma característica do estilo flamboyant (flamejante), foi para facilitar o escoamento das águas da chuva, pois ao congelarem no ângulo em que se alojavam, produziam freqüentemente o rebentamento da pedra.

Na evolução da arte medieval há um elemento de harmonia, que um exemplo ilustra com justeza impressionante.

Nos primórdios da arte gótica — período das ogivas nítidas, das pequenas rosáceas — o botão de flor é um motivo corrente de ornamentação.

Estátua de São Luiz em Saint-Louis, Missouri. Fundo: rosácea de Notre-Dame
Estátua de São Luiz em Saint-Louis, Missouri. Fundo: rosácea de Notre-Dame
Depois o botão parece abrir-se e desabrochar na época dos arcos lanceolados, das grandes rosas desabrochadas.

No século XV, finalmente o botão transformou-se em flor, e enquanto a escultura se exaspera em formas mais que humanas, contorcidas e dolorosas, abrem-se os arcos de abóbada, as curvas atenuam-se, o arco flamejante termina a evolução.

Poder-se-iam escrever longas páginas sobre a música medieval, que iniciativas recentes repõem no devido lugar, com tanta ciência como gosto.

Testemunho mais que eloquente se poderia invocar com o depoimento de Mozart:

“Daria toda a minha obra para ter composto o Prefácio da missa gregoriana”.


(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)

Vídeo: Sevilla: a catedral gótica que aspira ser a maior do mundo




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terça-feira, 1 de outubro de 2024

Riquezas Góticas

Catedral de Bamberg, Alemanha
Catedral de Bamberg, Alemanha
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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política internacional,
sócio do IPCO,
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A Idade Média foi época de profundo movimento intelectual.

Gigantes do espírito como São Gregório VII e os cluniacenses pugnavam para alcançar os mais elevados fins.

Na contenda entre a Igreja e o Estado cada qual se preocupava pelas questões mais transcendentes.

Ainda que não possuíssemos nenhuma obra histórica que nos falasse da vida intelectual daquela época, os edifícios nos falariam dela, como letras impressas na vida dos povos.

Bologna, Itália
Bologna, Itália
Apesar de todas as lutas, apesar de todas as calamidades que dizimaram a população por fenômenos naturais, penúrias e doenças, de tal sorte que freqüentemente os cemitérios não bastavam; apesar de toda a perda de forças humanas e de capitais que as Cruzadas levaram ao Oriente; edificou-se muito, belo e original.

O estilo românico atingiu sua perfeição e o gótico ou normando, começa seu esplendor.

Na arte venceu a idéia cristã.

Entre os sálios floresceu o estilo românico, principalmente junto ao Reno (catedrais de Espira, Mogúncia e Worms); através de Guilherme, o Conquistador, o gótico floresceu na Normandia e na Inglaterra e dali logo estendeu-se sobre a maior parte da Europa.

Abadia de Maulbronn, Alemanha
Abadia de Maulbronn, Alemanha
Se o arco românico permite apenas uma altura limitada, o arco ogival adapta-se para os prédios mais poderosos e ousados.

Por mais alta e pesada que seja a abóboda, parece, não obstante, leve e altiva; as esbeltas colunas crescem e elevam-se da terra e entrelaçam-se em cima, naturalmente, numa espécie de teto de folhagem de um bosque de pedra.

Toda a construção, que tomou a forma da cruz da basílica, está penetrada de simbolismo mais profundo:

a águia é a imagem da alma que se eleva até Deus;

o cervo, da alma que tem sede da verdade;

a rosa sobre o pórtico é o símbolo do silêncio e significa que neste sagrado recinto há de emudecer tudo que for mundano;

pelas altas janelas a luz não penetra a não ser filtrada, pois aqui brilha outra luz que não é a do sol material.

Os monstros, utilizados na parte externa como calhas, lembram-nos de que até o mal há de servir o bem...

Abadia do Monte Saint-Michel, França
Abadia do Monte Saint-Michel, França
Os espaços são amplos, as ondas de povo vão e vêm; aqui se batiza, ali ministra-se a Comunhão, nas capelas laterais praticam-se isoladas devoções.

Imagem da Religião, o edifício aspira a abarcar todo o mundo.



(Autor: João Batista Weiss, “História Universal”, Versión de la 5ª. Edición alemana, Aviño 20, Barcelona, t. V, Pp. 179 a 182)



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terça-feira, 2 de abril de 2024

Mont Saint-Michel, moradia do Príncipe da Milícia Celeste

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Em 966, a pedido do duque da Normandia, os monges beneditinos instalaram-se no Monte São Miguel.

O Monte é um promontório numa bahia, e construíram uma igreja onde até então havia uma capela.

No século XI, nova e magnífica igreja abacial ergueu-se no cume do rochedo, sobre um conjunto de criptas: os medievais a viam como figura da Jerusalém celeste.

Em 1204, uma parte da abadia foi destruída por um incêndio.

No mesmo ano o rei Filipe Augusto, avô de São Luís, venceu definitivamente os normandos, anexando o ducado à Coroa de França.

Para manifestar sua gratidão por essa conquista, fez uma doação à Abadia de São Miguel, o que permitiu a construção do conjunto gótico hoje conhecido como “a Maravilha”, em lugar do que fora destruído no incêndio.

O monumento comemorou mais de um milênio de existência.







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quarta-feira, 11 de junho de 2014

Como foram os monges
que habitaram o Monte Saint-Michel?

Vista aérea da abadia e do vilarejo do Mont Saint-Michel, Normandia, França

O Monte Saint Michel impressiona antes de tudo pelo efeito natural que produz sua figura.

Mas há outro fator que não é natural e que é indizível.

Este fator se soma ao lado natural e dá o melhor do Monte de São Miguel Arcanjo. É a graça divina.

E essa graça toca o fundo das almas que se deixam influenciar por ela.

Esse fator sobrenatural está ligado aos monges que ali viveram, à intenção do fundador que construiu aquilo, enfim, a uma série de movimentos de alma muito bons que convergiram para que o Monte Saint-Michel fosse como é.