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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

No Natal, em Notre Dame, Nossa Senhora converte o filho perdido

A conversão do famoso diplomata, dramaturgo e poeta Paul Claudel (Villeneuve-sur-Fère, 1868 — Paris, 1955) membro da Academia Francesa de Letras, contada por ele próprio:

“Nasci em 6 de agosto de 1868. Minha conversão ocorreu em 25 de dezembro de 1886. Eu tinha, portanto, dezoito anos. Mas o desenvolvimento de meu caráter, nesse momento, já estava muito avançado.

“Fui educado, ou melhor, instruído, primeiramente, por um professor livre, em colégios (leigos) de província, e por fim no Liceu Louis-le-Grand.

“Desde meu ingresso nesse estabelecimento, tinha perdido a fé, que me parecia irreconciliável com a pluralidade dos mundos.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Catedrais da cor, focos de sacralidade, palácios d'Aquele que é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (João, XIV, 6)


Durante séculos de abandono os monumentos medievais foram se cobrindo de poeira, mofo e fuligem de revoluções.

No século XIX, houve literatos que se interessaram por eles e começou um movimento de reabilitação cultural e restauração material.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Basílica de São Marcos em VENEZA:
jóia do estilo bizantino


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







A primeira fotografia apresenta uma visão interna da nave central da célebre Basílica de São Marcos, em Veneza, num horário favorável, em que ela está inteiramente vazia.

É preciso familiarizar-se com o estilo desse templo religioso: o bizantino.

Sua planta tem a forma da chamada cruz grega, isto é, cruz cujas quatro extremidades ou braços têm a mesma extensão.

A ideia da cruz, do sacrifício, da morte, e, portanto da Redenção infinitamente preciosa de Nosso Senhor Jesus Cristo, fica simbolizada artisticamente de modo muito adequado pela disposição da nave central, das naves laterais e suas respectivas cúpulas.

Logo no primeiro plano da segunda fotografia, novamente o símbolo máximo do Cristianismo: uma imensa cruz, suspensa por uma longa corrente, ao centro da cúpula que serve de cobertura para a parte inicial da nave central.

O piso do interior da Basílica é formado por artísticos mosaicos, cujos desenhos geométricos, podem ser parcialmente observados na fotografia.

Essa foi tirada na mencionada parte inicial, portanto sob a cúpula que lhe serve de teto. Tal recinto é separado por um arco do espaço central da Basílica – o centro da planta em forma de cruz grega –, que tem a cúpula maior como cobertura.

Tal recinto é, por sua vez, separado de uma terceira área da nave central por uma viga constituída de mármores policromados, sustentada por oito colunas.

Sobre ela vê-se uma grande cruz de bronze dourada, ao centro, ladeada pelas imagens do Divino Redentor, dos Evangelistas e dos Doutores da Igreja.

Na terceira fotografia, pode-se admirar outro ângulo desse conjunto escultural, a beleza dos mármores, bem como a imponente tribuna também marmórea, que data do século XIV.

A referida separação, constituída pela cruz e pelas imagens de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos Evangelistas e dos Doutores da Igreja, marca bem a distinção entre o sacerdote e os fiéis, a Igreja Docente e a Igreja Discente.

O sacerdote é o ministro de Deus, escolhido pelo Criador para representá-Lo perante os fiéis. Ele tem o poder de celebrar a Missa e, mediante suas palavras, opera-se a Transubstanciação.

Os fiéis não detêm dito poder. Essa separação tão categórica é, contudo, estabelecida com amor.

Daí o fato de a Santa Igreja, através da arte sacra, ornar e embelezar tal distinção, a qual constitui uma hierarquia fundamental instituída pelo Divino Salvador no interior de Seu Corpo Místico.

Por fim, pode-se observar um segundo arco sobre o aludido conjunto escultural.

Ele separa o centro da Basílica de outro recinto da nave central, recoberto por uma terceira cúpula.

Nesse espaço encontra-se o altar-mor.

Esse está coroado por um baldaquino de cor escura, apoiado sobre quatro colunas de alabastro oriental, também visível na fotografia.

O estilo bizantino foi originado de uma combinação de elementos da arte greco-romana e de influências orientais.

Tomou sua fisionomia específica no século VI d.C., no reinado de Justiniano, soberano do Império Romano do Oriente.



(Excertos de conferência pronunciada pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 7-12-88. Sem revisão do autor).




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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Nossa Senhora das Vitórias de Sablon, protetora de Bruxelas

Nossa Senhora das Vitórias

A devoção a Nossa Senhora das Vitórias de Sablon começou no século XIV com um fato miraculoso.

Havia na cidade vizinha de Antuérpia uma imagem milagrosa conhecida como Notre Dame à la Branche (Nossa Senhora no Galho), que fora protetora daquela cidade e que estava na catedral.

Em 1348, Nossa Senhora apareceu duas vezes em sonho a Beatriz Soetkens, moradora de Antuérpia, ordenando-lhe levar a estátua em um barco até Bruxelas.

O translado teve algo de maravilhoso.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Paradoxo harmônico da catedral gótica: esplendor dos vitrais X penumbra da pedra

Numa catedral gótica há uma coisa que está tão bem imbricada que as pessoas não percebem bem. Não é uma contradição, mas é a antinomia.

Na catedral há um magnífico paradoxo feito de harmonias extraordinárias.

Imaginemos um vitral soberbo numa hora em que o sol penetra na catedral.

Penetra um esplendor que dá tudo quanto a criação feita por Deus e aprimorada pelo talento humano pode dar de luminoso, vivo, positivo e maravilhoso. Isso é o contributo do vitral.

Enquanto o vitral é esplendoroso de alegria, a parte de pedra da catedral é plutôt recolhida, discreta, meditativa, esforçada, penitencial, monacal.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

São Germano de Auxerre: humilde bispo que lutou contra os pagãos e aterrorizou os demônios

A catedral de Milão é dedicada a Santa Tecla. Nela aconteceram fatos memoráveis.

Como, por exemplo, Santo Ambrósio, bispo de Milão, que tinha uma força de pregação extraordinária e que recebeu na entrada da catedral a um imperador romano que quis entrar nela sem direito.

Ele rachou o imperador com um discurso.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Catedral: símbolo do motor imóvel

Podemos imaginar uma catedral gótica para a qual estão fazendo um vitral.

Então fica, durante décadas, um espaço aberto para a rosácea. Passa passarinho lá dentro, entra corvo, vento, tempestade, chuva, tudo.

Mas, numa bela manhã, o vitral está pronto e vai ser instalado. Do lado de fora estão os andaimes.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Abadia de Holyrood, Escócia


Fundada em 1128 pelo rei Davi I da Escócia, a abadia acabou sendo transformada em residência real pelo protestantismo.

A igreja abacial virou templo protestante até cair em ruínas. Os restos da abadia estão colados no castelo real de Edinburgo.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Tour virtual pelo Mosteiro dos Jerônimos, Lisboa, Portugal

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quarta-feira, 13 de julho de 2011

Reims celebra os 800 anos de sua catedral


A cidade de Reims (França) está comemorando os oito séculos de sua belíssima catedral com festividades religiosas e civis, além de apresentações culturais que se desenrolam de 6 de maio a 23 de outubro de 2011.

Em 6 de maio de 1211, o Arcebispo Aubry de Humbert colocava a pedra fundamental da atual catedral de Reims. No mesmo dia, em 1210, um incêndio devastador destruíra parcialmente a cidade, atingindo a catedral anterior.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

A doce tristeza das catedrais medievais: preâmbulo do Céu


A catedral gótica tem uma ligação com a vida concreta. Por isso, o gótico tem uma certa tristeza também.

Todo edifício gótico tem ao lado da seriedade uma certa nota de tristeza que não é hirta.

E a tristeza profunda da pessoa que se realizou, que teve tudo no seu grau como lhe era próprio, e depois acaba percebendo que há algo além que deve desejar e que não tem.

E fica esperando essa coisa com certa serenidade, porque sabe que não é desta Terra.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

quarta-feira, 27 de abril de 2011

terça-feira, 26 de abril de 2011

quarta-feira, 30 de março de 2011

Catedral de NOTRE DAME e os mais belos aspectos da alma católica


Na catedral de Notre Dame em Paris, bela em cada um de seus pormenores, consideremos inicialmente as três portas do primeiro pavimento, encimadas por lindíssimas ogivas.

Em cada portal aparecem vários episódios da História Sagrada, esculpidos de um e outro lado da ogiva.

Acima das portas ogivais, uma fileira de estátuas de reis da França. Não satisfeita em decapitar Luís XVI, a Revolução Francesa — cuja infâmia supera qualquer outro acontecimento histórico, exceto a traição de Judas — incitou alguns vândalos a subirem até essas esculturas e degolá-las.

Veja vídeo
Vídeo: catedral de Paris
Assim, os corpos dos reis permaneceram sem cabeça durante muito tempo. Após a Revolução foram colocadas outras cabeças, infelizmente de inferior qualidade.

Imaginemos que não existisse a parte superior do edifício, mas apenas o andar térreo coroado por essa espécie de balaústre acima das estátuas dos reis. Mesmo despojada dessa forma, ela seria uma edificação linda.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Como um medieval via a liturgia da Missa


Os capítulos que Guilherme Durand (séc. XIII) consagrou à explicação da Missa então entre os mais surpreendentes de sua obra: “Rational”.

Eis aqui, por exemplo, como ele interpreta a primeira parte do Divino Sacrifício.

“O canto grave e triste do Introito abre a cerimônia: ele exprime a espera dos Patriarcas e dos Profetas. O coro dos clérigos representa o côro dos Santos da Antiga Lei, que suspiram antes da vinda do Messias, que eles, entretanto não verão”.

“O bispo entra, então, e ele aparece como a figura viva de Jesus Cristo. Sua chegada simboliza o aparecimento do Salvador, esperado das nações”.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Vitrais da catedral de REIMS: Luz que convida à contemplação


Chamamos as obras do engenho humano de “netas” de Deus porque, sendo a alma humana filha de Deus, aquilo que o espírito humano engendra é “neto” de Deus.

Engendrando os “netos” de Deus, que são as verdadeiras obras de arte, o homem prepara-se para, quando comparecer diante do eterno Juiz, eterna Verdade e eterna Beleza, voar de entusiasmo rumo a Ele.

Não vou elogiar aquilo que salta aos olhos: a harmonia magnífica dessa esplêndida “neta” de Deus, que é a catedral de Reims, onde se coroavam os reis de França.


quarta-feira, 9 de março de 2011

A decadência de Cluny e o ocaso da Cristandade medieval (7)


A cristandade alargava-se, as cidades eram novamente palco de transformações sociais. Nascimento da burguesia, novo impulso comercial.

Esse arranque teve início por volta do ano mil. Para as mentes de então, estava associado à busca religiosa. O próprio Raul Glaber, cluniacense, é sempre bom recordar, fala de uma paz divina após o flagelo da fome, como se Deus renovasse seu pacto com a humanidade. Sinta a fluência literária de um historiador cluniacense:

quarta-feira, 2 de março de 2011

São Bernardo: reação para segurar a queda de Cluny (6)


De qualquer modo, a independência, todo esse luxo e opulência e especialmente a velocidade com que Cluny passou de uma economia baseada na exploração direta de um vasto domínio (910-1080) para uma economia monetária (1080-1125) (DUBY, 1990: 123) despertou a ira de muitos setores eclesiásticos. Invejas.

Com a morte do abade Hugo de Sémur (1109), a eleição de Pons (que se demitiu) e Hugo II (que governou apenas alguns meses), a ordem entrou em crise. Crise de valores: foi acusada de corrompimento. Luxo, opulência, fausto. Degeneração. Sua expansão e enriquecimento provocara ciúmes. Mas também decadência moral.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Cluny, como viviam os monges da Jerusalém celeste encarnada (5)


O monetário oriundo das doações que afluiu para Cluny foi também direcionado pelo abade para os mais pobres. Como afirmei no início desse texto e volto a insistir, a economia monástica não visava o lucro, estava voltada para a comunidade ‒ num sentido mais amplo, para o corpo cristão.

Reitero: nem o abade, nem os monges, nem seu tempo tinham a mentalidade capitalista. É inútil vê-los com esse olhar moderno. Não era esse o foco.

Há de se fazer um esforço de compreensão, é necessário. Historiador, liberte-se de suas amarras materiais, sinta o ambiente e as prioridades de então. Coloque-se no lugar, pense na Idade Média, não a Idade Média (LIBERA, 1999: 68).

Perde-se perspectiva, claro, mas ganha-se compreensão, amplia-se o horizonte do entendimento histórico.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Cluny, monges-guerreiros e “anjos do Apocalipse” na Jerusalém celeste encarnada (4)



Dos sonhos aos mortos

Eles conquistaram as graças do povo. Um fato crucial para essa devoção popular foi a criação da liturgia dos mortos. Dia dos finados. Assumiam assim as funções eucarísticas.

Um “mistério magnífico” que trouxe grandes benefícios às almas dos fiéis defuntos. Os monges de Cluny eram guerreiros de luz que combatiam as trevas. Ao cantarem ininterruptamente, resgatavam as almas penadas, os perdidos, os errantes que estavam condenados ao abismo infernal.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Cluny: o “fasto” e a “hierarquia angélica” na Jerusalém celeste encarnada (3)


A expansão cluniacense

Até 926 Bernon aclimatou os irmãos no espaço, na pequena capela existente. Preparou-os para sua missão. Edificou a primeira igreja (Cluny I). Não se sabe nada nem da capela (Cluny A) nem da igreja (IOGNA-PRAT, 1998: 107).

Nesse mesmo ano de 926 Bernon legou Cluny a seu discípulo Eudes (927-942), já citado. Durante seu abaciado, Cluny recebeu um importante privilégio: o papa João XI (931-936) outorgou-lhe em 931 um direito de reforma: a partir de então, qualquer mosteiro que solicitasse ao abade cluniacense uma reforma monástica seria incorporado à casa mãe. O mesmo se daria com qualquer monge que desejasse ser acolhido (IOGNA-PRAT, 1998: 101).

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Cluny: o “exército do Senhor” na Jerusalém celeste encarnada (2)


Fundação de Cluny: a doação de Guilherme, duque da Aquitânia

O mais importante centro da reforma monástica foi Cluny.

Raul Glaber (†1044), o melhor historiador do ano mil, também ele cluniacense, nos conta que a abadia de Cluny era um asilo de sabedoria, pois fez renascer a Regra de São Bento ‒ embora com uma ênfase diferente, como veremos mais adiante.

A raça cluniacense tornou-se, segundo suas palavras, “um exército do Senhor que se espalhou rapidamente numa grande parte da terra” (citado em DUBY, 1986: 188).

Um modelo de perfeição, um modo de vida totalmente harmonizado com os desígnios do Criador, Cluny foi um dos maiores projetos monásticos de todos os tempos. Desde sua fundação em 932, a abadia não parou de crescer. Doado em 910 (ou 909) por Guilherme, mais tarde chamado de o Piedoso, duque da Aquitânia e conde de Mâcon, o domínio (villa) encontrava-se ao sul da Borgonha, no Saône e Loire, próximo do Ródano (MARTÍNEZ, 1997: 192).

Havia uma capela no local (chamada de Cluny A) - as escavações arqueológicas dataram-na entre os séculos VI e VIII (IOGNA-PRAT, 1998: 107).

Chegaram seis monges, liderados por Bernon (910-924), abade de Baume e Gigny, que se propôs construir um pequeno santuário (chamado pelos especialistas de Cluny I), com 35 metros de comprimento (HEITZ, s/d: 132).

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Cluny, a Jerusalém celeste encarnada (1)


Houve uma igreja medieval que foi a maior ‒ e no juízo dos contemporâneos ‒ a mais bela e esplendorosa da Idade Média.

Ela foi uma obra prima do estilo românico e dela brotou o estilo gótico.

Foi a igreja abacial de São Pedro de Cluny, mais conhecida como Cluny III, pois foi a terceira de uma série construída, uma após a outra, no mosteiro de Cluny, na Borgonha‒França. Cluny foi a mais grande, deslumbrante, poderosa e influente abadia da Era da Luz.

A Basílica de São Pedro no Vaticano foi feita do tamanho atual para superar a Cluny III e poder ser o maior templo da Igreja Católica e da Cristandade.

De São Pedro de Cluny hoje só ficam ruínas como resultado do feroz ódio anti-cristão da Revolução Francesa.

Entretanto, o mito da fantástica abadia, coração monacal da Europa medieval, não só não morreu, mas tem surpreendente renascer no século XXI.

O prof. Ricardo da Costa elaborou valioso estudo sobre aquela que foi considerada a “Jerusalém celeste encarnada”, e do qual reproduzimos excertos nos posts seguintes.



(No tempo da fundação de Cluny) O mundo religioso também enfrentava uma grave decadência, especialmente após a dissolução do Império Carolíngio e os ataques vikings no final do século IX.

Brasão da abadia de Cluny: as chaves de São Pedro e uma espada.
Abadias foram destruídas, comunidades dispersadas, a Regra de São Bento esquecida. Ermentário, um monge de Saint-Philibert de Noirmoutier, escreveu em meados do século IX:

O número de navios aumenta; a multidão inumerável de normandos não pára de crescer; de todos os lados cristãos são vítimas de massacres, pilhagens, devastações, incêndios (...) tomam todas as cidades que atravessam (...) muitas cinzas de santos são roubadas (...) quase não há localidade, nenhum mosteiro que seja respeitado, e raros são aqueles que ousam dizer: fiquem, fiquem, resistam... (citado em D'HAENENS, 1997: 89)

Cluny III, imagem de sintese
Marc Bloch chegou a afirmar que a desordem resultante das tormentas vikings e magiares do século IX deixou o corpo social do ocidente medieval “coberto de feridas”; a vida intelectual sofreu muito com isso, pois o monarquismo decaiu profundamente (BLOCH, 1987: 57).

O papado também sofreu: no início do século XI, estava dominado pela nobreza germânica, que elegia e depunha papas a seu bel-prazer. Por sua vez, corruptos e devassos, os papas distinguiram-se por suas orgias e subornos.


Simonia e nepotismo, desejo de possuir coisas impuras: cupiditas (DUBY, 1992: 51). Pecado capital. Escândalo. João XII (955-964), por exemplo, foi acusado por seus cardeais de subornar bispos, cometer adultério com a concubina de seu pai e incesto com sua mãe; Benedito IX (1032-1044), igualmente devasso, vendeu o cargo a Gregório VI (1045-1046) por moedas de ouro, sendo deposto por isso (DUFFY, 1998: 87).

Senhores feudais também indicavam abades para os mosteiros, apropriando-se de suas rendas. Parecia que o mundo espiritual estava irrevogavelmente destruído. Fim dos tempos, apocalipse. São Eudes de Cluny (†942) disse:
...alguns clérigos desconsideram tanto o Filho da Virgem que praticam a fornicação em suas próprias dependências, até mesmo nas casas construídas pela devoção dos fiéis a fim de que a castidade possa ser conservada dentro de seus recintos cercados; inundam-nas com tanta luxúria que Maria não tem lugar para deixar o Filho Jesus (citado em DURAND, s/d: 475-476) Obs: Freqüentemente Eudes é mencionado como Odon).

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Catedrais góticas: síntese de fé e arte

Catedral Santo André, Bordeaux, França
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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continuação do post anterior

Nos séculos XII e XIII, a partir do norte da França, difundiu-se outro tipo de arquitetura na construção dos edifícios sagrados, a gótica, com duas características novas em relação ao românico, ou seja, o impulso vertical e a luminosidade.

As catedrais góticas mostravam uma síntese de fé e de arte harmoniosamente expressa através da linguagem universal e fascinante da beleza, que ainda hoje suscita admiração.

Graças à introdução das abóbadas em ogiva, que se apoiavam sobre pilares robustos, foi possível elevar notavelmente a sua altura. O impulso rumo ao alto queria convidar à oração e ele mesmo era uma prece.

A catedral gótica tencionava traduzir assim, nas suas linhas arquitetônicas, a aspiração das almas por Deus. 

Além disso, com as novas soluções técnicas adotadas, os muros perimetrais podiam ser perfurados e adornados com vitrais policromáticos.

Em síntese, as janelas tornavam-se grandes imagens luminosas, muito aptas para instruir o povo na fé. Nelas – cena por cena – eram narrados a vida de um santo, uma parábola ou outros acontecimentos bíblicos.

Dos vitrais pintados, uma cascata de luz derramava-se sobre os fiéis para lhes narrar a história da salvação e para envolvê-los nesta história.

Vitral da catedral de Chartres
Outra qualidade das catedrais góticas é constituída pelo fato de que na sua construção e decoração, de modo diferente, mas coral, participava toda a comunidade cristã e civil; participavam os humildes e os poderosos, os analfabetas e os doutos, porque nesta casa comum todos os crentes eram instruídos na fé.

A escultura gótica fez das catedrais uma “Bíblia de pedra”, representando os episódios do Evangelho e explicando os conteúdos do ano litúrgico, da Natividade à Glorificação do Senhor.

Além disso, nesses séculos difundia-se cada vez mais a percepção da humanidade do Senhor, e os padecimentos da sua Paixão eram representados de modo realista: Cristo sofredor (Christus patiens) tornou-se uma imagem amada por todos, e apta para inspirar piedade e arrependimento pelos pecados.

Também não faltavam as personagens do Antigo Testamento, cuja história se tornou assim familiar para os fiéis que freqüentavam as catedrais, como parte da única, comum história de salvação.

Com rostos cheios de beleza, de docilidade e de inteligência, a escultura gótica do século XIII revela uma piedade ditosa e tranqüila, que se alegra por efundir uma devoção sentida e filial pela Mãe de Deus, vista às vezes como uma jovem mulher, risonha e materna, e principalmente representada como a soberana do céu e da terra, poderosa e misericordiosa.

Os fiéis que apinhavam as catedrais góticas gostavam de encontrar aí também expressões artísticas que recordassem os santos, modelos de vida cristã e intercessores junto de Deus.

Catedral de Santo André, Bordeaux, França
E não faltavam manifestações “laicas” da existência; eis então que aparecem, aqui e ali, representações do trabalho dos campos, das ciências e das artes. Tudo era orientado e oferecido a Deus, no lugar onde se celebrava a liturgia.

Podemos compreender melhor o sentido que era atribuído a uma catedral gótica, considerando o texto da inscrição gravada no pórtico central de Saint-Denis, em Paris:

“Viandante, que queres louvar a beleza destes pórticos, não te deixes ofuscar pelo ouro, nem pela magnificência, mas sobretudo pelo trabalho cansativo.

“Aqui brilha uma obra famosa, mas queira o céu que esta obra famosa que brilha faça resplandecer os espíritos, a fim de que com as verdades luminosas se encaminhem para a verdadeira luz, onde Cristo é a verdadeira porta”.

Santo Agostinho afirma:

“Interroga a beleza da terra, interroga a beleza do mar, interroga a beleza do ar difundida e diluída. Interroga a beleza do céu, interroga a ordem das estrelas, interroga o sol, que com o seu esplendor ilumina o dia; interroga a lua, que com o seu clarão modera as trevas da noite. Interroga os animais que se movem na água, que caminham na terra, que voam pelos ares: almas que se escondem, corpos que se mostram; visível que se faz guiar, invisível que guia. Interroga-os! Todos te responderão: Olha-nos, somos belos! A sua beleza fá-los conhecer. Quem foi que criou esta beleza mutável, a não ser a Beleza Imutável?(Sermo CCXLI, 2: pl 38, 1134).




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