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terça-feira, 5 de abril de 2022

Armonias de NOTRE DAME no fundo das almas

Saint-Eustache encheu para ouvir o Coro de Notre Dame
Saint-Eustache encheu para ouvir o Coro de Notre Dame no Natal
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
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Passaram-se dois anos e meio desde o incêndio que devastou Notre Dame. Mas quando se anunciou que o coro da Catedral de Notre Dame voltaria a cantar para o Natal na imensa igreja de Saint-Eustache o público acorreu tão numeroso que quase não podiam se ver os cantores, observou o correspondente do “The New York Times”.

A tradição musical de Notre Dame é tão antiga quanto a própria catedral, cujas origens góticas remontam ao século XII. Ali nasceu o cântico polifônico além de se desenvolver o gregoriano e a arte dos órgãos.

Quando a catedral ardeu, muitos choraram o fim de uma época gloriosa, que incluía a velha escola de música da catedral e seus coros, reunidos na Maîtrise de Notre Dame. A maior parte dos músicos e dos auxiliares foi dispensada.

Mas Notre Dame pode dizer de si as palavras de Cícero que a Igreja aplica a si própria: “alios vidi ventos aliasque procelas” (“Eu já vi outros ventos, e afrontei outras tenebrosas tempestades”) (L. Calpurnium Pisonem Oratio, n.IX)

“Estamos motivados pela certeza de que Notre Dame reabrirá”, disse Yves Castagnet, o organista mestre que toca em Notre Dame há 33 anos. O grande órgão não foi atingido pelo incêndio, mas foram desmontadas suas milhares de peças e tubos, um por um, para uma limpeza e aprimoramento profundo. E está sendo montado de novo.

A catedral é um local de peregrinação e seu fechamento para reparação deixa o coração partido. Há a sensação de que algo muito amado está faltando na época do Natal, quando a missa da véspera em Notre Dame se transformava num glorioso concerto de órgãos e coros.

A modo de reparação, mais de 100 igrejas de Paris ofereceram música nas missas e vésperas; mestres organistas e corais deram concertos programados, até as igrejas que a tempestade pós-conciliar devastou com mais intensidade que o incêndio de Notre Dame.

Neste Natal se somou a pandemia com sua variante ômicron, a polêmica do “passaporte sanitário”, as máscaras faciais obrigatórias detestadas por muitos, um alerta nível 4 “não viaje” para a França dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, enfim tudo conspirou contra a saudade da música natalina na catedral mãe de todas as igrejas de Paris.

Maîtrise de Notre Dame, antes do incêndio
Maîtrise de Notre Dame, antes do incêndio
A Maîtrise foi albergada, durante a reconstrução, em igrejas das mais antigas de Paris, como a mãe em desgraça é acolhida nas casas das filhas. Os serviços religiosos da catedral foram transferidos para Saint-Germain-l’Auxerrois.

A Vierge du Pilier, a estátua de Maria mais importante em Notre Dame, está refugiada ali. Ela já fora destruída pelo ódio da Revolução Francesa em 1793, refeita e instalada no local em que todos a vimos, pelo genial Viollet-le-Duc em 1858.

No incêndio, as traves em fogo ou carbonizadas caíram em torno dEla, mas saiu intacta.

Seja-me permitido evocar as incontáveis horas que eu passei rezando junto a ela em também incontáveis ocasiões. Ficava molesto pela incessante circulação de turistas e devotos que passavam diante dela e pela catedral toda, que me faziam pensar na prosaica movimentação das estações de metrô.

Mais de uma vez, reparei que numerosos romeiros ingressavam numa área cercada à sua esquerda, com grandes mesas e volumosos cadernos, e ali escreviam mensagens e sentimentos que não tinham a quem comunicar.

Fiquei curioso e fui ler o que ficava ali escrito para a posteridade. Nunca imaginaria o que li. Fiquei emocionado. Cada página desses imensos cadernos registrava o testemunho comovido de pessoas de todas as línguas que agradeciam as graças recebidas pela simples visita da catedral de Nossa Senhora.

Até tirei fotos de algumas páginas para nunca mais esquecer essa maravilha da ação da graça de Nossa Senhora nas almas do público que até poucos instantes atrás eu comparava erroneamente ao fluxo humano que corre pelo metrô.

Solistas da Maîtrise de Notre-Dame em Saint-Séverin
Solistas da Maîtrise de Notre-Dame em Saint-Séverin
“Tocamos música de 800 anos atrás, cantos gregorianos, requiems e música clássica francesa barroca e romântica alemã”, explica Henri Chalet, diretor da Maîtrise de Notre Dame.

Saint-Eustache, próximo ao Forum des Halles, Saint-Sulpice (maior que Notre Dame), no bairro Saint-Germain-des-Prés, tem dimensões para acolher os concertos dos grandes coros da Maîtrise que atraem as multidões.

Saint-Eustache é uma espécie de versão em miniatura de Notre Dame, inspirado na grande catedral gótica, e dotada de uma extraordinária acústica.

Saint-Sulpice exibe seu estilo barroco tardio, sobre as fundações de uma igreja românica do século XIII. Seu grande órgão de 6.600 tubos é um dos mais fabulosos de Paris e reboa na excelente acústica da igreja.

Os coros de Notre Dame também cantam na gótica Saint-Étienne-du-Mont, numa colina suave do Quartier Latin dedicada a Santa Genoveva, a padroeira de Paris, que pôs em fuga o feroz Átila, rei dos hunos, e cujo antigo sarcófago está ali preservado.

La Maîtrise também estará presente na gótica Saint-Séverin, ainda no Quartier Latin, não longe da catedral, que desde o século XI exibe em seu exterior como Notre Dame, gárgulas e arcobotantes, além de uma rosácea na entrada oeste.

A Sainte Chapelle não é usada como igreja desde a Revolução Francesa, mas, como Notre Dame, é um dos exemplos mais gloriosos da arquitetura gótica do mundo. A luz flui através de vitrais de 2.000 metros quadrados, na maioria do século XIII.

Certa feita, o público foi convidado a se retirar pois chegaria uma comissão do Ministério da Cultura da Itália e haveria uma sessão especial. Fiquei por último para sair, e enquanto lançava um derradeiro olhar admirativo o guarda me convidou a ficar.

Maîtrise de Notre Dame, em Notre Dame de Luxembourg
Maîtrise de Notre Dame, em Notre Dame de Luxembourg
Esse mesmo guarda deu uma explicação fabulosa dos vitrais, de como ler neles a História do mundo desde a Criação até o Juízo Final numa sapiencial e deslumbrante ordenação de cristais e cores.

A agulha da Sainte Chapelle em madeira e chumbo do século XIX, um terço menor mas não diferente da que desabou em Notre Dame, foi criada em 1853 por Adolphe Victor Geoffroy-Dechaume, colega de Eugène Emmanuel Viollet-le-Duc, que desenhou a agulha de Notre Dame consumida pelas chamas.

Notre Dame tem um espírito que penetra e marca os lugares mais inesperados. Entre esses lugares, há uns que são os mais recônditos e nos quais ninguém – excetuada a graça divina – pode penetrar: o fundo das almas.

E este fundo, infelizmente adormecido após séculos de Revolução, de igualitarismo democrático ou socialista, hoje geme com saudades da velha catedral fechada e procura por todo lado um loca digno para reouvir os velhos cânticos que a impregnavam.

Quem sabe se a Mãe de Deus não quis um desastre como o de 2019 para despertar os corações dos filhos que pareciam não se interessar por Ela.




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A catedral de PARIS: síntese e requinte da Cristandade

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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No seu livro best-seller Ugly as Sin — Feias como o pecado — Michael S. Rose, jovem arquiteto americano, doutor em Belas Artes pela Brown University (EUA) apresenta a catedral Notre Dame de Paris como a jóia-da-coroa da Cidade Luz.

Para ele, a catedral é o verdadeiro epicentro, a alma da capital francesa.

Solene e maternal, ela irradia sua influência a partir da Île de la Cité, como uma grande dama a partir do palácio, no centro do seu feudo.

Ela é a representação do Cristianismo na sua plenitude e autenticidade: desde o império universal de Nosso Senhor Jesus Cristo até os sofrimentos dos precitos no inferno.

terça-feira, 22 de março de 2022

O vitral: cartão de visita de Deus e porta do Céu

Detalhe central da rosácea do transepto da catedral de Chartres, França
Centro da rosácea do transepto da catedral de Chartres, França
Luis Dufaur
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No primeiro vitral que eu vi, eu tive a impressão que aquele mosaico de cores abria um buraco dentro da realidade material e conduzia meu olhar maravilhado para outra realidade que estava além do sensível.

O vitral me dava a impressão de que além da carapaça da matéria havia uma região aonde o maravilhoso se externava daquela maneira.

O vitral, a bem dizer, é a porta dessa região.

Depois dessa porta há outra ordem de coisas. Está Deus.

Aquele vitral é como que o cartão de visitas de Nosso Senhor, como que seu escudo heráldico.

terça-feira, 30 de novembro de 2021

Nossa Senhora das Vitórias de Sablon, protetora de Bruxelas

Nossa Senhora das Vitórias
Luis Dufaur
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A devoção a Nossa Senhora das Vitórias de Sablon começou no século XIV com um fato miraculoso.

Havia na cidade vizinha de Antuérpia uma imagem milagrosa conhecida como Notre Dame à la Branche (Nossa Senhora no Galho), que fora protetora daquela cidade e que estava na catedral.

Em 1348, Nossa Senhora apareceu duas vezes em sonho a Beatriz Soetkens, moradora de Antuérpia, ordenando-lhe levar a estátua em um barco até Bruxelas.

O translado teve algo de maravilhoso.

Em Bruxelas a imagem foi recebida pelo duque de Brabante e pela confraria dos besteiros – guerreiros da cidade – que havia sido avisada do prodígio.

Tendo recebido o nome de Nossa Senhora das Vitórias, a imagem foi instalada em uma pequena capela pertencente aos besteiros, localizada em um local ermo chamado Sablon (literalmente = banco de areia).

terça-feira, 16 de novembro de 2021

A doce tristeza das catedrais medievais: preâmbulo do Céu

Luis Dufaur
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A catedral gótica tem uma ligação com a vida concreta.

Por isso, o gótico tem uma certa tristeza também.

Todo edifício gótico tem ao lado da seriedade uma certa nota de tristeza que não é hirta.

É a tristeza profunda da pessoa que se realizou, que teve tudo no seu grau como lhe era próprio, e depois acaba percebendo que há algo além que deve desejar e que não tem.

E fica esperando essa coisa com certa serenidade, porque sabe que não é desta Terra.

Mas, sabe que essa coisa o aguarda para toda a eternidade.

Porque essa coisa que está além de todos os bens da Terra é o próprio Céu.

É uma tristeza em que há uma nota de felicidade e de esperança: algum dia chegará.

É uma nostalgia suave.

É como quem está junto às primeiras ondas do mar, sabendo que vem um barco para pegá-lo e levar adiante.

Não há dilaceração, não há berro, não há baixa.

Há uma espécie de “é verdade, tudo isto me conduziu a um prenúncio; eu aceito e amo esse prenúncio, mas algo mais virá”.

É apenas uma esperança de que algo virá e que em ultima análise e o Céu.

Essa tristeza é resignada e tem a mais alta alegria que é esta pontinha cristalina e doce de esperança dentro da tristeza.

É como a pessoa que olha para trás e ve tudo quanto sofreu, mas não tem azedume e diz: “tudo isso se explica, foi necessário”.

Por exemplo, o sujeito foi um grande general, ganhou uma porção de guerras e batalhas pelas quais ele passou, e após ter passado tudo conserva uma serenidade como quem diz:

“Não é verdade que tudo acabou, mas há qualquer coisa no meu horizonte, que é uma contemplação e eu sinto um prenúncio vago de quem diz que a morte não vai deglutir tudo.

“Algo de mim fica, algo sobrevive”.

Sobreviverá no Céu.

E a catedral terá sido um dos pórticos para entrar nEle.




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terça-feira, 2 de novembro de 2021

Catedrais góticas: mistério mais grandioso que o das pirâmides do Egito

Amiens, França
Luis Dufaur
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A técnica é definida pela Escolástica, da mesma forma que as artes, como “recta ratio factibilium”.

Quer dizer, a reta ordenação do trabalho, ou também, a ciência de trabalhar bem.

Hoje, o mal uso da técnica, a empurra para produzir para além do que é bom, e espalhar instrumentos que afligem a vida dos homens.

Nos tempos em que o espírito do Evangelho penetrava todas as instituições, a técnica produziu frutos que vão além do tudo o que a Humanidade conheceu previamente.

Um desses frutos inigualados foi ‒ e continuam sendo ‒ as catedrais medievais.

Até hoje especialistas tentam decifrar como fizeram os arquitetos da Idade Média para, com tão pobres instrumentos, criar obras colossais que “humilham” as técnicas modernas mais avançadas.

Os técnicos das mais variegadas especialidades da construção e também da física, da química e das matemáticas se debruçam para tentar descobrir como os medievais erigiram esses portentos arquitetônicos.

Mergulham eles nos “mistérios das catedrais”.

São muitos os que até agora não estão elucidados: desde as fórmulas químicas desaparecidas que dão aos vitrais tonalidades únicas e irreproduzíveis até os mais complexos cálculos matemáticos e astronômicos que orientaram as proporções cósmicas das Bíblias de pedra.

terça-feira, 19 de outubro de 2021

Paradoxo harmônico da catedral gótica: esplendor dos vitrais X penumbra da pedra

Luzes de cores de um vitral batem no muro interior da catedral
Luzes de cores de um vitral
batem no muro interior da catedral
Luis Dufaur
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Numa catedral gótica há uma coisa que está tão bem imbricada que as pessoas não percebem bem. Não é uma contradição, mas é a antinomia.

Na catedral há um magnífico paradoxo feito de harmonias extraordinárias.

Imaginemos um vitral soberbo numa hora em que o sol penetra na catedral.

Penetra um esplendor que dá tudo quanto a criação feita por Deus e aprimorada pelo talento humano pode dar de luminoso, vivo, positivo e maravilhoso.

Isso é o contributo do vitral.

Enquanto o vitral é esplendoroso de alegria, a parte de pedra da catedral é plutôt recolhida, discreta, meditativa, esforçada, penitencial, monacal.

Pondo no monacal essa carga do homem que em ordem e com muita linha carrega uma dor, um peso, um fardo um sofrimento.

Há uma superior harmonia entre os aspectos gaudiosos, esplendorosos e ressurgentes da vida humana e os aspectos tristonhos, discretos, sofridos, amargurados que a vida humana comporta também.

Quando o sol sai, as colunas continuam meditativas, saudosas, sofridas, aguentando o peso do teto, da torre, de tudo, numa fidelidade incomovível, até o momento em que o sol volta a brilhar de novo e elas se acendem e tomam ânimo para continuar.

O sol não seria bem compreendido a não ser pela penumbra das ogivas.

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Catedral: símbolo do motor imóvel

Luis Dufaur
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Podemos imaginar uma catedral gótica para a qual estão fazendo um vitral.

Então fica, durante décadas, um espaço aberto para a rosácea. Passa passarinho lá dentro, entra corvo, vento, tempestade, chuva, tudo.

Mas, numa bela manhã, o vitral está pronto e vai ser instalado. Do lado de fora estão os andaimes.

Por fim, o vitral acaba sendo instalado e há uma festa. No dia seguinte começa a vida do vitral dentro da Igreja semi-vazia.

Ele começa a refulgir de acordo com as várias horas do dia. E inicia-se a história interminável dele, porque cada dia passado na catedral é uma história que acontece.

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Catedrais góticas: síntese de fé e arte

Catedral Santo André, Bordeaux, França
Luis Dufaur
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Nos séculos XII e XIII, a partir do norte da França, difundiu-se outro tipo de arquitetura na construção dos edifícios sagrados, a gótica, com duas características novas em relação ao românico, ou seja, o impulso vertical e a luminosidade.

As catedrais góticas mostravam uma síntese de fé e de arte harmoniosamente expressa através da linguagem universal e fascinante da beleza, que ainda hoje suscita admiração.

Graças à introdução das abóbadas em ogiva, que se apoiavam sobre pilares robustos, foi possível elevar notavelmente a sua altura. O impulso rumo ao alto queria convidar à oração e ele mesmo era uma prece.

A catedral gótica tencionava traduzir assim, nas suas linhas arquitetônicas, a aspiração das almas por Deus.