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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A ciência dos números e a harmonia do universo no templo de suprema beleza

Relógio astronômico da catedral de Lund, Suécia
Relógio astronômico da catedral de Lund, Suécia
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





A construção das catedrais participa da ciência dos números, esses números que são a harmonia do mundo, e que foram consagrados pela liturgia católica.

0 3 é o algarismo da Trindade, algarismo divino por excelência, que reconduz tudo à unidade e representa as três virtudes teologais.

0 4 é o algarismo da matéria: dos quatro elementos; dos quatro temperamentos humanos; dos quatro evangelistas tradutores da palavra de Deus; das quatro virtudes cardeais, que devem ser praticadas pelo homem na condução da sua vida terrestre.

0 7, que alia o divino ao humano, é o algarismo de Cristo, e depois dele o algarismo do homem resgatado: os quatro temperamentos físicos unidos às três faculdades mentais (intelecto, sensibilidade, instinto).

Ao mesmo tempo, uma outra combinação de 3 e 4 dá 12, o algarismo do universo, dos doze meses do ano, dos doze signos do zodíaco, símbolo do ciclo universal.

O nosso sistema métrico não tomou em conta esses “números-chave”, mas deve-se observar que a atual numeração, um tanto abstrata e rudimentar, não conseguiu adaptar-se, por exemplo, às fases solares e lunares, e continua a ser suplantada em quase toda parte, nos campos, por medidas ao mesmo tempo mais simples e mais sábias.



Tudo isso deixa entrever uma ciência oculta, mais profunda do que se tinha podido suspeitar até agora.

E a iconografia, que na sua forma científica está ainda no começo, poderá abrir dentro de pouco tempo perspectivas ainda ignoradas.

Devemos contentar-nos, de momento, em admirar a maneira como os artistas da Idade Média souberam fazer da sua casa de orações como que o resumo e o apogeu da sua vida e das suas preocupações.

Ela era não apenas o testemunho visível da sua fé, da ciência sagrada e profana, da liturgia, mas ainda o reflexo das suas ocupações quotidianas.

Catedral de Estrasburgo, França
Catedral de Estrasburgo, França
Lado a lado com um magistral Juízo Final, súmula viva da majestade divina e dos últimos fins do homem, vêem-se camponeses a matar o porco, a atar espigas, a aquecer-se diante da lareira.

E encontramos igualmente testemunhos desse robusto sentido da beleza que possuíam os nossos antepassados, do seu amor pela vida, da sua alma serena e amante do trabalho bem feito, da sua imaginação vagabunda, sempre a inventar formas novas (nunca se veem lado a lado na ornamentação medieval, por exemplo, dois motivos de folhagem idênticos), da sua veia folgazona, que não conseguem refrear mesmo na igreja (alguns rostos de vitrais são autênticas caricaturas, e certas estátuas alegres brincadeiras).

Como não nos espantarmos ainda com esse frenesi de construção a que se assiste nos séculos XII e XIII, e que apenas esmorece ligeiramente nos dois séculos seguintes?

Há essas enormes massas de pedra transportadas da pedreira para o local do edifício, esse mundo de escultores, cortadores de pedra, carpinteiros, pintores, operários e ajudantes.

E era cada vez mais impressionante a atividade das oficinas onde se trabalhava o vidro, pois uma catedral como a de Chartres não comporta menos de cento e quarenta e quatro janelas altas.

Abstraindo de toda a emoção artística, pense-se apenas no trabalho gigantesco representado por essa enorme superfície de vidro, composta de parcelas de vidro reunidas; no trabalho dos desenhadores, dos fundidores de chumbo, dos cortadores de vidro; dessa massa de artistas anônimos, cujos esforços conjugados resultaram numa orgia de cores que irradiam no interior do edifício.

Rosácea de Chartres, França
Rosácea de Chartres, França
Essas cores são ainda realçadas pelos jogos de sombra e luz sobre as arestas das ogivas facetadas, pelas gargantas dos capitéis profundamente cavadas, pelos toros cilíndricos ou facetados, pelas colunas onde o claro-escuro é regido por sábias e variadas alternâncias.

Contrariamente ao que se crê, tais obras-primas eram construídas rapidamente, e não se hesitava em demolir para fazer melhor.

Maurice de Sully, para reconstruir a Notre-Dame, destruiu a igreja construída apenas setenta anos antes.

Em Laon, o bispo Gautier de Mortagne edifica por volta de 1140 uma igreja gótica no lugar da igreja românica, que no entanto datava apenas de 1114.

E o não menos admirável está longe de ser a continuidade, a unidade desse imenso esforço dos construtores.

As gerações que se sucedem formam um todo; tradições e segredos de ofício são transmitidos sem solução de continuidade; e não se hesita, ao longo da construção ou das reconstruções parciais, em utilizar todos os aperfeiçoamentos da técnica.

Arcobotantes do século XIV vêm ombrear uma nave do século XIII, mas o conjunto permanece harmonioso.

No castelo de Vincennes podem-se ver lado a lado duas janelas elaboradas a cem anos de distância uma da outra, e que parecem feitas para conviver, embora totalmente diferentes como arte e como arquitetura.

Abadia do Mont Saint-Michel, França
Abadia do Mont Saint-Michel, França
Seria impossível conceber, ao contrário, uma janela no estilo Le Corbusier incrustada num edifício de estilo 1900, embora menos de trinta anos os separem.

Eis a razão pela qual certas restaurações demasiado conscienciosas acabaram por transformar os monumentos em vítimas e os desfiguraram, pois tentou-se refazer tudo de acordo com uma mesma ordenação e com regras e cânones que nunca existiram na mentalidade dos construtores.

Onde antes se atingia sem esforço a harmonia, só conseguiram produzir uniformidade.

As evoluções da arte medieval explicam-se quase sempre por aperfeiçoamentos da técnica, e os pormenores de ornamentação pelas necessidades da arquitetura.

Não se teriam construído gárgulas, por exemplo, se elas não servissem como goteiras para vazar a água.

E se as curvas de contornos nítidos da rosácea de estilo gótico foram atenuadas, tomando a forma característica do estilo flamboyant (flamejante), foi para facilitar o escoamento das águas da chuva, pois ao congelarem no ângulo em que se alojavam, produziam freqüentemente o rebentamento da pedra.

Na evolução da arte medieval há um elemento de harmonia, que um exemplo ilustra com justeza impressionante.

Nos primórdios da arte gótica — período das ogivas nítidas, das pequenas rosáceas — o botão de flor é um motivo corrente de ornamentação.

Estátua de São Luiz em Saint-Louis, Missouri. Fundo: rosácea de Notre-Dame
Estátua de São Luiz em Saint-Louis, Missouri. Fundo: rosácea de Notre-Dame
Depois o botão parece abrir-se e desabrochar na época dos arcos lanceolados, das grandes rosas desabrochadas.

No século XV, finalmente o botão transformou-se em flor, e enquanto a escultura se exaspera em formas mais que humanas, contorcidas e dolorosas, abrem-se os arcos de abóbada, as curvas atenuam-se, o arco flamejante termina a evolução.

Poder-se-iam escrever longas páginas sobre a música medieval, que iniciativas recentes repõem no devido lugar, com tanta ciência como gosto.

Testemunho mais que eloquente se poderia invocar com o depoimento de Mozart:

“Daria toda a minha obra para ter composto o Prefácio da missa gregoriana”.


(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)

Vídeo: Sevilla: a catedral gótica que aspira ser a maior do mundo





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