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quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O rosto de Jesus Cristo
impresso nas catedrais medievais

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






“Eu não posso me esquecer que uma das viagens que eu fiz a Paris, eu cheguei à noitinha. Jantei, e fui imediatamente ver a Catedral de Notre-Dame.

Era uma noite de verão, não extraordinariamente bonita, comum.

A Catedral estava iluminada, e o automóvel em que eu vinha passava da rive gauche para a ilha, e eu via a Catedral assim de lado, e numa focalização completamente fortuita.

Ela me pareceu desde logo, naquele ângulo tomado assim, se acaso existisse ‒ em algum sentido existe ‒ eu diria que é tomado ao acaso, eu olhei e achei tão belo que eu fiquei com vontade de dizer ao automóvel:

“Para, que eu quero ficar aqui! Eu sei que o resto é muito belo, mas eu creio que poucos olharam essa Catedral desse ângulo e pararam.

“E eu quero ser dos poucos, para dar a Nossa Senhora o louvor deste ponto de vista aqui, que os outros talvez não tenham louvado suficientemente.

“Ao menos se dirá que uma vez, um peregrino vindo de longe amou o que muitos outros, por pressa, por isso ou por não terem recebido uma graça especial naquele momento para aquilo, não chegaram a amar.”

“E em todos os grandes monumentos da Cristandade, depois de admirar as maravilhas, eu tenho a tendência a ir admirando os pormenores, num ato de reparação, porque esses pormenores talvez não tenham sido amados como eles deveriam ser amados.

“E então fazer ao menos isto: amar o que deveria ter sido amado e que foi esquecido. É sempre a nossa vocação de levar à tona as verdades esquecidas, que os homens põem de lado.

“Eu fiquei encantado com a Catedral naquele ângulo.

“Depois dei a volta, e voltei para o hotel com a alma cheia.

“E se alguém naquele momento me lembrasse da palavra da Escritura:

“Eis a igreja de uma beleza perfeita, a alegria do mundo inteiro”, eu teria dito: “Oh! como está bem expresso! É bem o que eu sinto a respeito da Catedral.”

“E aí, do fundo de nossas almas, do fundo de nossas inocências, sobe uma coisa que é luz, superluz, mas ao mesmo tempo é penumbra ou é obscuridade sem ser treva.

“E é a ideia de todas as catedrais góticas do mundo, as que foram construídas, e as que não foram construídas, dando uma ideia de conjunto de Deus. Que, entretanto, ainda é infinitamente mais do que isso.

“Aí o espírito que inspirou todas essas catedrais nos aparece.

“E aí, realmente, mais nós vivemos no Céu do que na Terra.

“E aí o nosso desejo de uma outra vida, de conhecer um Outro, tão interno em mim que é mais eu do que eu mesmo sou eu, mas tão superior a mim que eu não sou nem sequer um grão de poeira em comparação com Ele, esse meu desejo se realiza.

“Eu digo: “Ah, eu compreendo, o Céu deve ser assim!”

“Nós amamos ainda mais o puríssimo Espírito, eterno e invisível, que criou tudo aquilo, para dizer:

“Meu filho, Eu existo. Ame-me e compreenda: isto é semelhante a Mim.

“Mas, sobretudo, por mais belo que isto seja, Eu sou infinitamente dessemelhante disto, por uma forma de beleza tão quintessenciada e superior, que é só quando me vires que verdadeiramente te darás conta do que Eu sou.

“Vem, meu filho. Vem, que eu te espero!

“Luta por mais algum tempo, que Eu estou me preparando para te mostrar no Céu belezas ainda maiores, na proporção em que for grande e dura a tua luta.

“Espera que, quando estiveres pronto para veres aquilo que Eu tinha intenção de que visses quando Eu te criei.

“Meu filho, sou Eu a tua Catedral!

“A Catedral demasiadamente grande! A Catedral demasiadamente bela!

“A Catedral que fez florescer nos lábios da Virgem um sorriso como nenhuma jóia fez florescer, nenhuma rosa, e nem sequer nenhuma das meras criaturas que Ela conheceu.”

“Essa Catedral é Nosso Senhor Jesus Cristo.

“É o Coração de Jesus que tirou do Coração de Maria harmonias como nada tirou. Ali, tu o conhecerás.”

“Ele disse dEle: “Serei Eu mesmo a vossa recompensa demasiadamente grande”.


Vídeo: O rosto de Jesus Cristo impresso nas catedrais medievais



(Fonte: >Plinio Corrêa de Oliveira, 13/10/79, excerto sem revisão do autor)



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quarta-feira, 25 de outubro de 2017

A missão divina dos povos europeus expressa em suas catedrais

Catedral de Veneza
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Deus encravou a Sede de São Pedro na Itália com tudo o que isso significa de supremo dentro da Igreja Católica.

E fez da Itália a nação eclesiástica por excelência. Nela reside como num berço glorioso o governo das almas no mundo.

Do verdadeiramente máximo governo: aquele que conduz as almas ao Céu.

E, num sentido minor, ali está a pedra de escândalo que afasta do Céu as almas dos precitos revoltados, heréticos ou revolucionários que não querem saber do esplendor da verdade, do bem e da beleza suprema.

O conúbio com a Igreja é tal, que foi comuníssimo na história que o Cardeal fosse italiano ou o próprio Papa ser habitualmente italiano.

E isso muito harmonicamente, foi visto como uma coisa conatural à Igreja.

Cripta da catedral de Milão
Cripta da catedral de Milão
A nação dos grandes teólogos, a nação dos grandes Césares espirituais que governaram o império espiritual de Jesus Cristo e presidem sua expansão através dos séculos, a nação eclesiástica por excelência é a Itália.

E Deus também deu à Itália dons artísticos que estão na proporção dessa alta missão divina.

Foi bem pensado da parte da Providência

Se a Itália fosse uma nação de conquistadores teria enchido o mundo de ressentimentos.

Como seria difícil um Papa francês se impor ao mundo castelhano!

Como seria difícil um Papa alemão se impor ao mundo latino!

Como seria inconcebível um Papa sueco, norueguês ou dinamarquês!

Como seria estranho um Papa russo!

Como é natural um Papa italiano!

Não é que todos devem ser italianos, mas como é natural que muitos sejam!

Catedral de Canterbury, Inglaterra
Catedral de Canterbury, Inglaterra
Há um insucesso militar crônico italiano. Mas, esse povo canta admiravelmente os heróis, os esculpe tão bem, os representa tão bem, sobre tudo quando são heróis da fé, que torna doce o convívio no mundo inteiro.

Deus lhes deu o cetro das almas e do sacerdócio.

E isso se reflete na arte de suas igrejas e catedrais.

Um país diverso é a Inglaterra.

Ele infelizmente foi muito desfigurado pelo protestantismo e se tornou frio e frustrado.

Mas conserve resquícios de beleza que indicam o chamado de Deus. De Deus que continua batendo em sua porta malgrado a apostasia oficial.

Na sua grandeza e beleza essas catedrais testemunham a glória de seu passado católico. Mas por dentro se sente uma ausência, como de uma casa em que o dono não mora mais.
De dentro das catedrais da Inglaterra foi arrancado o Santíssimo Sacramento.

Se a gente olha de fora a menor igrejinha católica, a gente sente mais vida nela do que na abadia-catedral de Westminster, esplendorosa na forma, oca no conteúdo.

Pelas exterioridades pode-se imaginar qual foi o recheio. É mais ou menos como tomar uma empada vazia e cheirar para saber o que é o que houve dentro, se foi camarão ou galinha.

E isso nos leva a ver bem a Inglaterra, a colocá-la verdadeiramente na linha.

Catedral de Ely, Inglaterra
Catedral de Ely, Inglaterra
E ali pode se perceber na Inglaterra qualquer coisa de angélico.

Nas suas catedrais há uma retidão, uma serenidade, uma honestidade, uma dignidade tão grande que obrigou o protestantismo a usar uma roupagem católica. Do contrário o o povo não engoliria.

A heresia anglicana é a única do mundo que conserva do lado de fora um aspecto católico: é a heresia da Inglaterra.

Nós nos voltando para as catedrais góticas inglesas suspiramos, como fizeram tantos santos, pela conversão desse povo, aliás prometida em revelações sobrenaturais reconhecidas pela Igreja.

E, nos voltando para as catedrais góticas italianas exclamamos: ô santa Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, a única verdadeira! Jesus Cristo eu vos adoro!





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quarta-feira, 11 de outubro de 2017

A Tour Saint-Jacques, de PARIS

Luis Dufaur
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A Torre de São Tiago (Tour Saint-Jacques) é, há séculos, ponto de chegada e partida dos romeiros para Santiago de Compostela.

Compostela fica a 1551 quilômetros de Paris, e a peregrinação a pé, hoje, consome mais de dois meses.

A Torre é tudo o que fica da venerada igreja de Saint-Jacques-de-la-Boucherie.

A Chronique de Turpin (século XI) diz que o templo foi fundado por Carlos Magno.

A Torre de 52 metros era o sinal para aos peregrinos.

Veja vídeo
A torre dos romeiros de Paris:
Tour Saint-Jacques
Eles vinham do norte da Europa e seguiam para o sul pelo “caminho francês”.

O “caminho francês” passa por santuários do centro da França, antes de atravessar os Pirineus e entrar na Espanha.

A Torre foi construída em gótico flamboyant nos anos 1509-1523 sob o reinado do rei Francisco I.

Até hoje peregrinos percorrem a pé o “caminho de Compostela” e recebem atestado oficial de romeiros que favorece a expedição.

Na igreja venerava-se uma relíquia do Santo Apóstolo.

Mas, o ódio anti-cristão da Revolução Francesa demoliu a igreja em 1797.

A amada igreja foi posta abaixo e os restos foram vendidos como material de demolição.

A Torre acabou não sendo destruída, mas, ficou abandonada.

Dentro dela foi instalada uma fundição de chumbo, símbolo do ateísmo laicista que demoliu o templo.

A estátua do Apóstolo foi abatida pelos revolucionários de 1789.

Os mesmos revolucionários demoliam tronos e altares, destronavam reis e decapitavam imagens de santos.

O crime foi perpetrado em nome dos valores revolucionários da celerada trilogia “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”.

O século XIX tentou recuperar os monumentos góticos selvagemmente abandonados ou amputados pelo “espírito das Luzes” laicista e igualitário!

A estátua de Santiago o Maior que coroa a torre é uma reprodução fidedigna feita nessa restauração.

A Tour Saint-Jacques é o mais alto e o mais requintado monumento no famoso caminho de peregrinação.

Pela Tour Saint-Jacques passaram milhões de peregrinos como atestam o “Codex Calixtinus” do século XII até uma placa moderna afixada pelo governo da Espanha.

As ondas revolucionárias não conseguiram abatê-la.

Ela paira majestosa mostrando às multidões paganizadas a verdadeira beleza e toda a grandeza e requinte da piedade católica não deformada.


Vídeo: A torre dos romeiros de Paris: Tour Saint-Jacques






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quarta-feira, 27 de setembro de 2017

A “Bíblia dos pobres” para o “santo povo de Deus”

Catedral de Chartres: o anjo (acima à esquerda)
segura Abraão no momento que ia sacrificar Isaac (embaixo, direita)
Luis Dufaur
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A arte na Idade Média tinha uma dimensão essencialmente didática.

Tudo o que era necessário o homem conhecer – a história do mundo desde a Criação, os dogmas da religião, os exemplos dos santos, a hierarquia das virtudes, o alcance das ciências, artes e ofícios ‒ todas essas coisas eram ensinadas nas janelas da igreja ou nas estátuas dos pórticos.

O nome de Biblia PauperumBíblia dos pobres – que os impressores do século XV deram a um de seus primeiros livros pode ser bem atribuído às catedrais e igrejas.

Nelas, o simples, o ignorante, todos aqueles que pertenciam à chamada “sancta plebs Dei” ‒ a santa plebe de Deus ‒ aprendiam com seus olhos quase tudo o que sabiam sobre sua fé.

Catedral de Chartres: cenas da Paixão de Cristo
Catedral de Chartres: cenas da Paixão de Cristo
As grandes imagens de espiritualizada concepção apareciam como testemunhas eloquentes da verdade do ensinamento da Igreja.

As inúmeras estátuas distribuídas segundo um plano escolástico eram o símbolo da maravilhosa ordem que, por meio do gênio de Santo Tomás de Aquino, reinava no mundo do pensamento.

Por meio da arte as mais altas concepções da teologia e da universidade penetravam, em alguma medida, nas mentes do povo mais humilde.

Nós devemos considerar a arte do século XIII como um todo vivo, como um sistema acabado, e nós devemos estudar o modo como ele refletia o pensamento da Idade Média.

Catedral de Chartres: Cristo reinante com os quatro evangelhos
Catedral de Chartres: Cristo reinante com os quatro evangelhos
Deste modo nós poderemos nos fazer uma certa idéia do alcance verdadeiramente enciclopédico da arte medieval.

O século XIII é o foco de nosso estudo porque nele a arte com admirável esforço tentou abarcar todas as coisas.

A iconografia dos mais ricos trabalhos românicos é pobre demais se comparada com a plenitude do imaginário gótico.

O século XIII é precisamente aquele em que as fachadas das grandes igrejas francesas foram concebidas e realizadas.

Catedral de Chartres: capela lateral
Catedral de Chartres: capela lateral
Nós não limitamos nosso estudo à arte francesa porque achamos que a arte dos países vizinhos obedeça a regras diferentes das nossas.

Pelo contrário, o caráter da arte do século XIII era verdadeiramente universal como o ensinamento da Igreja.

Nós nos contentamos com os grandes temas desenvolvidos com admiração em Burgos, Toledo, Siena, Orvieto, Bamberg, Friburg, da mesma maneira que em Paris ou Reims.

Nós estamos certos que o pensamento cristão não se exprime em outras partes como na França.

Em toda Europa não há um conjunto de obras de arte dogmática pelo menos comparável ao que encontramos na catedral de Chartres.

Foi na França que a doutrina da Idade Média atingiu sua forma artística perfeita.

A França do século XIII foi a mais plena manifestação do pensamento cristão.


(Fonte: Émile Mâle, “A arte religiosa na França no século XIII”, apud “The Dawson Newsletter", Summer 1993.



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