Outras formas de visualizar o blog:

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A catedral-mãe e o voto de Luís XIII

Altar do voto de Luís XIII
Altar do voto de Luís XIII
Continuação do post anterior

Os limites deste artigo nos levam a saltar para o reinado de Luís XIII, no século XVII. O soberano, casado com a princesa espanhola Ana d’Áustria, aproximava-se da maturidade sem filhos, com graves problemas de saúde e uma guerra difícil contra os calvinistas, entrincheirados em La Rochelle.

O rei recorreu então à Santíssima Virgem: fez-lhe o voto de construir uma igreja, se fosse atendido. Em 1628, depois de 13 meses de cerco, os calvinistas renderam-se.

Em agradecimento, o soberano fundou a igreja de Nossa Senhora das Vitórias, em Paris. Em 1630, ele se viu curado de uma grave disenteria. Mas nenhum sinal de um herdeiro!

Ao longo de uma década, o voto de Luís XIII sofreu alterações em sua formulação, sendo finalmente apresentado ao Parlamento em 1637. Ele instituía uma celebração anual em todas as igrejas do reino, a 15 de agosto, com procissão solene em honra da Assunção da Virgem.

No mesmo ano, um religioso agostiniano teve uma visão da Mãe de Deus segurando em seus braços o herdeiro do trono que, disse Ela, Deus queria dar à França.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

A Catedral da beleza perfeita nas tempestades da História

Notre Dame de Paris.
Fundo: Grande Cruz das Três Ordens Militares (Cristo, Santiago, Avis)
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Continuação do post anterior


A França possui ainda hoje um número elevado de catedrais, abadias, igrejas e capelas góticas. Alguns desses monumentos são merecidamente célebres, como as catedrais de Reims, Chartres, Amiens, Bourges, Estrasburgo, para citar apenas estas.

Mas existem inúmeras outras igrejas como que perdidas em longínquas províncias ou em cidades modernizadas.

Sem dúvida, cada catedral possui sua beleza específica, algumas de valor excepcional. Mas nenhuma terá inspirado tanto os poetas, artistas e escritores quanto Notre-Dame de Paris.

Bastaria o privilégio insigne de abrigar as relíquias da Paixão. Também tem seu peso o fato de ser a Sé da capital do reino, do império e da república.

Mas possui ainda outros trunfos que fazem dela a rainha das catedrais. A respeito de Notre Dame de Paris, exclamou Plinio Corrêa de Oliveira: “Igreja de uma beleza perfeita, alegria do mundo inteiro”.

Ocupando a metade leste da Île de la Cité (Ilha da cidade), que é o coração de Paris, a catedral situa-se num lugar privilegiado, como uma grande nave acariciada pelas águas do rio Sena.

No século XX, a população de Paris teve o bom senso de opor-se à construção de arranha-céus no centro histórico. Assim, de vários ângulos a catedral pode ser vista, total ou parcialmente, em sua beleza única.

Veja vídeo
Veja igrejas de beleza perfeita
A sua agulha aponta para o céu com a doce violência de uma prece, como uma flecha que arranca os maiores perdões do Coração divino.

Sua fachada e suas torres são de uma harmoniosa força e doçura, que conquistam qualquer alma aberta à beleza.

“Em uma extraordinária vertical, sua fachada associa o mistério da Encarnação a Cristo Juiz, mostrando seu corpo martirizado e os instrumentos da sua Paixão no momento de separar os eleitos dos condenados.

“Jesus Cristo como Mestre no tremó (a coluna que divide a porta central) alinha-se à Cruz de glória sobreposta, no coro, à Virgem das Dores que oferece a Deus seu Filho supliciado para expiar os nossos pecados”, observa Michel De Jaeghere.(12)

Se analisarmos os detalhes, descobriremos novas riquezas: a doçura incomparável da harmonia de cores de suas rosáceas, especialmente a do portal Sul; a majestosa e maternal imagem de Nossa Senhora de Paris no transepto, à direita da mesa da comunhão; os altos-relevos coloridos que circundam o coro, visíveis do deambulatório, ilustrando episódios da história da salvação; a sua estatuária externa hierática e monumental, com toda a sua riqueza simbólica; as suas gárgulas representando figuras hediondas, a lembrar a presença do maligno, sempre à espreita para perder as almas…

Sob o signo da luta entre o bem e o mal, entre anjos e demônios, manifesta-se um dos aspectos mais interessantes de Notre Dame de Paris.

O neto de São Luís contra o Papa!

De acordo com M. De Jaeghere, se Notre Dame de Paris ocupa um lugar especial no imaginário dos franceses, não é apenas por ser um catecismo em pedra, mas também um compêndio e palco da História, conforme um dito do Cardeal Feltin: [Em Notre-Dame] “a França recita o rosário perpétuo das suas alegrias, dos seus lutos e das suas glórias”.

Com efeito, se aí ocorreram acontecimentos gloriosos, também se cometeram pecados imensos. Assim a transformação da catedral em templo da deusa razão, figurada por uma mulher impúdica que nela se exibiu nua num episódio da Revolução Francesa – classificada por Plinio Corrêa de Oliveira em sua obra-mestra (13) como a segunda Revolução.

Também a primeira Revolução, fautora da destruição da Cristandade medieval, está ligada à história da catedral de Paris. Com efeito, foi em Notre Dame que o rei Filipe IV, dito o Belo, presidiu os primeiros Estados-Gerais em abril de 1302.

Com que objetivo? — Obter apoio para a sua política religiosa. O rei inaugurara um novo estilo absoluto de governo, cercando-se de legistas.

Eliminou costumes e privilégios locais da antiga sociedade feudal e criou novos impostos, provocando descontentamento geral.

Extinguiu a isenção da Igreja de pagar tributos e por fim mandou prender D. Bernardo Saisset, bispo de Pamiers, que representava o baluarte da ortodoxia católica na luta contra a heresia cátara ou albigense na sua diocese ao sul de Toulouse.

Esses fatos levaram o Papa Bonifácio VIII a enviar ao rei, em 1301, a bula Ausculta, fili (Ouça, meu filho), em defesa da autoridade papal, e a pedir um tribunal especial para julgar o bispo de Pamiers.

No ano seguinte, o Pontífice escreveu a bula Unam sanctam, demonstrando a supremacia do poder espiritual sobre o poder temporal.

Enviados do rei Filipe o Belo
esbofeteam o Papa Bonifácio VIII em Anagni
Em 1303, dois enviados do rei — Guilherme Nogaret e Sciarra Colonna – partiram ao encalço de Bonifácio VIII, retirado em Anagni (pois Roma encontrava-se em poder dos Colonna).

O Pontífice foi por eles insultado, acusado de heresia, humilhado e esbofeteado, vindo a falecer de desgosto poucos dias depois.

Esse episódio, conhecido como o Atentado de Anagni, constitui um marco na História.

É o começo do fim da Cristandade medieval e o anúncio da primeira Revolução, inaugurando a era do absolutismo real, do humanismo e do renascimento do paganismo.

Mais tarde o protestantismo veio selar essa revolução no campo doutrinário e especificamente religioso.

Ao ver a obra demolidora de seu neto, o grande São Luís deve ter-se movido de indignação em seu túmulo!

Mas Filipe o Belo foi mais longe: mandou prender os cavaleiros Templários e confiscou seus bens (a Ordem possuía muitas propriedades na França).

Há algum tempo já circulavam contra esses religiosos as lendas mais abjetas. “Menti, menti. Algo sempre ficará”, dirá mais tarde o ímpio Voltaire.

Depois de um processo iníquo a Ordem foi dissolvida, e no dia 18 de março de 1314, em frente de Notre-Dame de Paris, seu grão-mestre Jacques de Molay e outros cavaleiros foram queimados vivos.

Em novembro do mesmo ano Filipe o Belo, o rei maldito, teve de prestar contas de seus atos a Deus.

Martírio e reabilitação de Santa Joana d’Arc

Santa Joana d'Arc comanda a vitória de Patay
Santa Joana d'Arc comanda a vitória de Patay
Em dezembro de 1431, Henrique IV da Inglaterra foi sagrado rei da França em Notre-Dame, na presença de D. Pierre Cauchon, bispo de Beauvais e depois de Lisieux.

Aliado dos ingleses, este bispo fora o carrasco de Santa Joana d’Arc no julgamento iníquo que a condenou a ser queimada viva como feiticeira na praça do mercado de Rouen.

A coroação de Henrique IV era uma impostura, pois o rei legítimo, Carlos VII, já fora sagrado em Reims.

Em 1437, Carlos VII recuperou o trono e em 1455 abriu-se em Notre-Dame o processo de reabilitação de Joana d’Arc, beatificada por São Pio X em 1909 e canonizada por Bento XV em 1920.

(Autor: Gabriel J. Wilson)+
continua no próximo post



GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS ORAÇÕES HEROIS CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

A busca da perfeição em Notre Dame de Paris

O arcebispo, o abade e o rei começaram a sonhar a futura catedral
Continuação do post anterior

É o momento de nos ocuparmos da história da construção da catedral de Nossa Senhora (Notre-Dame) de Paris.

A Paris de 1160 devia ter pouco mais de 20 mil habitantes quando Maurício de Sully, com o favorecimento do rei Luís VII, foi escolhido para ocupar sua Sé episcopal.

O rei fora educado na infância pelo Abade Suger, o qual, como vimos, concluiu com sucesso a primeira basílica em estilo ogival.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

A luz da Idade Média na Rainha das Catedrais

Continuação do post anterior


A arte gótica caracteriza-se por abóbadas formadas por ogivas cruzadas, sustentadas por contrafortes de arcos-botantes.

Sobretudo a partir da segunda metade do século XII, com a criação das universidades e o aparecimento de luminares como São Tomás de Aquino e São Boaventura, novas aspirações se manifestaram nos campos da cultura, das ciências e das artes.

Na arquitetura, a tendência era para que as linhas se lançassem rumo ao céu, e no interior penetrasse a luz em abundância. Era precisamente isso que o estilo gótico permitia, ao diminuir o peso sobre as colunas e distribuí-lo por todo o edifício.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Notre-Dame de Paris: 850 anos da Rainha das Catedrais (1163 — 2013)


A mais célebre catedral do mundo, dedicada a Nossa Senhora na capital francesa, comemora 850 anos de existência.

Jóia do estilo gótico, ela é um testemunho vivo do alto grau de civilização de uma época denegrida durante séculos por toda espécie de inimigos da Religião católica, inclusive os modernistas.

Se pudessem, estes teriam derrubado todas as antigas igrejas e catedrais românicas, góticas, barrocas ou clássicas, para erguer em seus lugares templos do absurdo, do monstruoso e do esotérico.

Exemplos disso são a catedral do Rio de Janeiro, no estilo brutal ao gosto divulgado por Le Corbusier, a catedral de Brasília, projetada pelo comunista de carteirinha Oscar Niemeyer.

Ou ainda o projeto da nova catedral de Belo Horizonte, também do mesmo arquiteto e uma afronta ao Estado que deu tão belos exemplos de sua religiosidade através da arte barroca.

O modernismo que se infiltrou na Religião católica rompeu com a tradição, à semelhança do movimento artístico.

domingo, 16 de junho de 2013

Visita virtual à Catedral de SANTIAGO DE COMPOSTELA

Veja vídeo
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




A história da catedral de Santiago de Compostela começou pelo ano 813, quanto um eremita de nome Pelayo e alguns pastores se depararam com uma estranha luminosidade.

Aquela misteriosa luz se espalhava sobre um pequeno bosque perto de um morro chamado Libredón. A paisagem, em certos momentos, ficava tão clara que se parecia a um campo estrelado (Campus Stellae = Compostela).

Teodomiro, o bispo local, informado do estranho fenômeno, soube que a luz focara no chão uma antiga arca de mármore. Nela se teria encontrado os restos humanos que se dizia pertencer ao Apóstolo Santiago.

Segundo uma história antiga o Apóstolo decidiu evangelizar a Espanha, mas foi decapitado pelo rei Herodes Agripa na Palestina.

O corpo dele, então, foi lançado ao mar num barco no porto de Jaffa. Sem tripulação, sem leme, soprada só pelo vento, a nau aportou nas costas da Galícia, que os romanos chamavam de Finis Mundi.

Recolhida da praia, a arca fora enterrada num “compostum”, quer dizer um cemitério.



Incenso na Catedral de Compostela: o "botafumeiro!




GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS ORAÇÕES HEROIS CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

terça-feira, 4 de junho de 2013

Abadia de São Miguel, o arcanjo que exorcizou Satanás

Faça uma visita virtual à abadia dita "La Merveille" ("A maravilha"): o Monte-ilha Saint-Michel.

Rodeado pelo mar, é o mais visitado santuário da França e um dos maiores do mundo em número de romarias.

É que lá se pode dizer com justiça que mora o arcanjo que expulsou Satanás e os anjos rebeldes do Céu.

CLIQUE NO LINK PARA IR ATÉ LÁ

terça-feira, 21 de maio de 2013

Nomes, símbolos, carrilhões e significado dos novos sinos de Notre Dame

Bourdon Maria é o maior do novo conjunto
continuação do post anterior

Símbolos gravados em cada sino

Os novos sinos são:

O bourdon “Marie” (6.023 kg; 206,5 cm de diâmetro), consagrado a Nossa Senhora, a quem está dedicada a catedral. Ele é reprodução de idêntico bourdon que tocou de 1378 a 1792, ano do infame saque republicano. Nele estão gravados a “Ave Maria” e um medalhão de Nossa Senhora com o Menino Jesus rodeado de estrelas; tem friso representando a Adoração dos Reis Magos e as bodas de Caná, e por fim uma Cruz de Glória com a inscrição “Via viatores quaerit” (“Eu sou a Via em busca de viajantes”, referência a Jesus Cristo que é a Via, e que procura as almas que viajam por esta vida rumo ao destino eterno).

O sino “Gabriel” (4.162 kg e 182,8 cm de diâmetro) é dedicado ao arcanjo São Gabriel que anunciou a Nossa Senhora a encarnação do Verbo.

Neste sino está inscrita a primeira frase do Angelus “O anjo do Senhor anunciou a Maria” —, além de 40 faixas que simbolizam os 40 dias que Jesus passou no deserto e os 40 anos de travessia dos judeus pelo deserto do Sinai; na coroa do sino há flores de lis e, rodeados de estrelas, Nossa Senhora e o Menino Jesus. No corpo do sino há também uma Cruz de Glória com a inscrição “Via viatores quaerit” e um perfil da catedral no coração de Paris.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Notre Dame restaura sinos destruídos pela Revolução Francesa – 1

No dia da bênção dos novos sinos
No dia da bênção dos novos sinos

Uma multidão estimada em 30 mil pessoas pela polícia (que habitualmente minimaliza as manifestações católicas) lotou no Domingo de Páscoa a praça da catedral de Notre Dame e as ruas vizinhas, para ouvir a primeira reboada oficial dos novos sinos.

Nessa mesma data, 850 anos atrás, na presença do Papa Alexandre III, o bispo D. Maurício de Sully colocava a primeira pedra para a construção daquela grandiosa catedral dedicada a Nossa Senhora.

Os sinos originais foram destruídos barbaramente pela Revolução Francesa em 1792, com exceção de um, batizado com o nome “Emanuel”.

Por ocasião de sua bênção ritual os sinos recebem nomes que são gravados no seu bronze. O “Emanuel” foi doado há mais de 300 anos pelo rei Luis XIV e pesa 13 toneladas.

No século XIX, Napoleão III mandou preencher o vazio com sinos de menor qualidade e carentes de afinação. Os especialistas, sempre muito exigentes, diziam que se tratava do pior conjunto de sinos da Europa.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Notre Dame providencialmente salva pelo tufão da Revolução Francesa!


Quando aparece a Catedral de Notre Dame, aparece uma coisa que deixa todas as outras coisas de lado, mesmo São Marcos.

Na praça completamente vazia, Notre Dame aparece intensamente iluminada .

A pedra com que foi construída a Catedral, foi objeto há alguns anos atrás de uma limpeza.

Dessa restauração emergiu a pedra virgem. A catedral se mostra como os construtores a fizeram, com sua originária limpeza.

As três portas do primeiro pavimento têm lindíssimas ogivas, profundas, indicando bem a espessura das paredes da Catedral.

Em cada portal, há várias linhas com episódios da História Sagrada esculpidos de um lado e de outro.

Em cima há uma fileira formando a galeria dos antepassados de Nosso Senhor Jesus Cristo, rei de Judá, e que é interpretada como sendo dos Reis da França.

A Revolução Francesa, sempre igual a si mesma, e incomparável em infâmia, exceto a traição de Judas; não contente em decapitar Luis XVI, mandou uns bárbaros subirem até essas cabeças e degolá-las todas.

quarta-feira, 6 de março de 2013

A catedral de SIENA: formosura e praticidade


A Catedral de Siena é uma catedral lindíssima construída na técnica da basílica de Orvieto.

Não foto pode-se ver o aspecto global da fachada.

Notem aquele lindo mosaico em cima, nos tímpanos das portas os belos mosaicos.

Depois outras esculturas, e a torre, listrada de mármore branco de acordo com o estilo existente em Florença e em outras cidades da Toscana.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Mosteiro cisterciense do século XII renasce na Califórnia

Abadia de New Clairvaux, Califórnia
Abadia de New Clairvaux, Califórnia
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




No norte da Califórnia renasceu um mosteiro medieval cisterciense.

A notícia caiu como um raio em céu sereno, pois nunca se diria que o progressista estado californiano acolheria um dos símbolos mais opostos à modernidade.

Além do mais, trata-se de um autêntico mosteiro medieval espanhol do século XII.

Como?

O magnata William Randolph Hearst havia comprado e levado para a Califórnia no início do século XX as ruínas do mosteiro de Santa Maria de Óvila, da Espanha, desmontou-o, mas não conseguiu restaurá-lo.

A cidade de San Francisco se opôs e as pedras ficaram por décadas no Golden Gate Park. Veio depois a Grande Depressão, a Segunda Guerra Mundial e pareceu que o projeto estava totalmente morto, segundo o “The New York Times”.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

A Igreja de Combray

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







[Em suas recordações de infância, Proust descreve a igreja de Saint Hilaire, em Combray, cidade na qual sua família costumava passar férias.]



Combray, de longe, a dez léguas em volta, vista da estrada de ferro quando lá chegávamos na última semana antes da Páscoa, não era senão uma igreja resumindo a cidade, representando-a, falando dela e por ela aos distantes.

E, de perto, mantendo apertados em torno de sua alta manta sombria, em pleno campo, como uma pastora protegendo do vento suas ovelhas, os dorsos lanudos e acinzentados das casas ajuntadas, que um resto de muralhas da Idade Média cercava aqui e acolá com um traço tão perfeitamente circular quanto uma cidadezinha num quadro de pintor medieval.

Como eu a amava, como eu me recordo bem de nossa igreja.

Seu velho pórtico pelo qual entrávamos, negro, esburacado como uma escumadeira, era irregular e profundamente gasto nos ângulos (da mesma maneira que a pia de água benta à qual ele nos conduzia) como se o doce roçar das mantas das camponesas entrando na igreja e de seus dedos tímidos tomando água benta pudesse, repetido durante séculos, adquirir uma força destrutiva, infletir a pedra e entalhar sulcos como traça a roda das carroças no marco contra o qual ela se choca todo dia.

Suas lápides mortuárias, sob as quais a nobre cinza dos vigários de Combray, lá enterrados, dava ao coro um como que chão espiritual, elas mesmas não eram mais de matéria inerte e dura, porque o tempo as havia tornado doces e feito escorrer como mel para fora dos limites de seu próprio alinhamento que aqui elas ultrapassavam por uma onda dourada, levando à deriva uma maiúscula gótica florida, afogando as violetas brancas do mármore; do lado de cá das quais, aliás, elas se tinham desfeito, contraindo ainda a elíptica inscrição latina, introduzindo um capricho a mais na disposição desses caracteres abreviados, aproximando duas letras de uma palavra da qual as outras haviam sido exageradamente afastadas.

Seus vitrais nunca reluziam tanto quanto nos dias em que o sol se mostrava pouco, de sorte que fizesse (tempo) cinza fora, estava-se seguro que seria bonito na igreja.

Um vitral era preenchido em toda sua grandeza por um só personagem semelhante a um rei de jogo de cartas, que vivia lá em cima, sob um dossel arquitetural, entre o céu e a terra.

Noutro, uma montanha de neve rósea, ao pé da qual se desenrolava um combate, parecia ter orvalhado a vidraçaria com turvos granizos, como um vidro no qual tivessem restado flocos iluminados por alguma aurora (pela mesma sem dúvida que cobria de púrpura o retábulo do altar de tons tão frescos que mais pareciam colocados ali momentaneamente por um luar vindo de fora prestes a se evanescer do que por cores aderida para sempre à pedra).

E todos eram tão antigos que se via aqui e ali sua velhice prateada faiscar da poeira dos séculos e mostrar brilhante e gasto até à corda o enredo de sua doce tapeçaria de vidro.

Havia um que era um alto compartimento dividido em uma centena de pequenos vitrais retangulares onde dominava o azul, como um grande jogo de cartas semelhante àqueles que deviam distrair o rei Carlos VI; mas, fosse um raio de sol que tivesse brilhado, fosse meu olhar que movendo-se tivesse passeado pelo vitral ora extinto ora aceso um fugaz e precioso incêndio, um instante depois ele tinha tomado o brilho cambiante de uma cauda de pavão, depois tremia e ondulava em uma chuva chamejante e fantástica que escorria do alto da ogiva sombria e rochosa, ao longo das paredes úmidas, como se eu seguisse meus pais, que levavam o seu missal, pela nave de alguma gruta irisada por sinuosas estalactites.

Um instante depois os pequenos vitrais em losango tinham tomado a infrangível rigidez de safiras que tivessem sido justapostas sobre algum imenso peitoral, mas atrás das quais se sentia, mais apreciável que todas estas riquezas, um sorriso momentâneo do sol.

Ele era também reconhecível tanto no jorro azul e doce com o qual banhava as pedras quanto sobre o calçamento da praça ou sobre a palha de chão do mercado.

E, mesmo em nossos primeiros domingos, quando chegávamos antes da Páscoa (durante o inverno), consolava-me que a terra estivesse ainda nua e negra, fazendo desabrochar, como numa primavera histórica e que datava dos sucessores de São Luis, esse tapete resplandecente e dourado de miosótis de vidro.

Duas tapeçarias, de tessitura vertical, representavam o coroamento de Ester, cujas cores, fundindo-se, lhes haviam acrescentado uma expressão, um relevo, uma iluminação: um pouco de rosa flutuava nos lábios de Ester para além do desenho de seu contorno, o amarelo de seu vestido se afirmava tão suntuosamente, tão abundantemente, que tomava uma espécie de consistência e sobressaia sobre a atmosfera intimidade; e o verdejante das árvores permanecendo vivo nas partes baixas do panejamento de seda e de lã, mas tendo ‘passado’ (desbotado) no alto, fazia destacarem-se, mais palidamente, acima dos troncos escuros, os elevados galhos amarelados, dourados e como que meio apagados pela brusca e obliqua iluminação de um sol invisível.

Tudo isso, e mais ainda os objetos preciosos vindos à igreja de personagens que eram para mim quase personagens de legenda (a cruz de ouro lavrada, dizia-se, por Santo Elói e doada por Dagoberto; o túmulo de porfírio e de cobre esmaltado dos filhos de Luis, o Germânico), em razão do que eu avançava na igreja, quando nos dirigíamos aos bancos, como num vale visitado por fadas, onde o camponês se maravilha de ver num rochedo, numa árvore, numa poça, o vestígio palpável de sua passagem sobrenatural.

Tudo isso fazia dela para mim alguma coisa de inteiramente diferente do resto de cidade: um edifício ocupando, se se pode dizer, um espaço em quatro dimensões ‒ a quarta sendo a do Tempo ‒ fazendo progredir através dos séculos sua nave que, de viga em viga, de capela em capela, parecia vencer e singrar, não apenas alguns metros, mas as épocas sucessivas das quais ela saía vitoriosa.

* * *

Reconhecíamos o campanário de Saint Hílaire de bem longe, inscrevendo sua figura inesquecível no horizonte no qual Combray não aparecia ainda.

Num dos mais longos passeios que fazíamos saindo de Combray, havia um lugar onde a estrada apertada desembocava de repente sobre um imenso ‘plateau’ limitado ao horizonte por florestas recortadas que somente a fina ponta do campanário de Saint Hilaire ultrapassava, mas tão esguia, tão rósea, que parecia apenas riscada no céu por uma unha que tivesse querido dar a essa paisagem, esse quadro só de natureza, essa pequena marca de arte, essa única indicação humana.

Quando nos aproximávamos e podíamos perceber o resto da torre quadrada e semi-destruída que, menos alta, subsistia ao lado dele, ficávamos surpreendidos sobretudo pelo tom avermelhado e sombrio das pedras; e em uma manhã brumosa de outono, dir-se-ia, elevando-se por cima do violeta tempestuoso das parreiras, uma ruiva de púrpura quase da cor de vinha virgem.

Com freqüência, sobre a praça, quando voltávamos, minha avó me fazia parar para observá-lo.

Das janelas de sua torre, situadas duas a duas, umas em cima das outras, com essa justa e original proporção nas distâncias que não pertence senão à beleza e à dignidade dos rostos humanos, ele soltava, deixava cair a intervalos regulares revoadas de corvos que durante um momento giravam grasnando, como se as velhas pedras que os deixavam divertir-se sem os parecer ver, tornadas de repente inabitáveis e libertando um princípio de agitação infinita, os tivesse batido e enxotado.


Então, depois de ter rajado em todos os sentidos o veludo violeta do ar da tarde, bruscamente acalmados, eles tornavam a se absorver na torre, de nefasta voltada a ser novamente propícia, alguns pousados aqui e ali, não pareciam mexer-se, mas abocanhando quiçá algum inseto, sobre a campânula de um sinozinho, como uma gaivota parada com a imobilidade de um pescador à crista de uma onda.

Sem muito saber bem por que, minha avó encontrava no campanário de Saint Hílaire essa ausência de vulgaridade, de pretensão, de mesquinharia, que a fazia amar e crer ricas de uma influência benfazeja, a natureza, quando a mão do homem não a havia apequenado, e as obras de gênio.

E sem duvida, toda a arte da igreja que se percebia a distinguia de outro edifício por uma espécie de pensamento que lhe era infuso, mas era em seu campanário que ela parecia tomar consciência de si mesma, afirmar uma existência individual e responsável. Era ele que falava por ela.

Creio que, confusamente, sobretudo o que minha avó encontrava no campanário de Combray era aquilo pelo que ela tinha maior apreço no mundo, o ar natural e o ar distinto (l’air naturel et l’air distingué).

Ignorante em arquitetura, ela dizia: “Meus filhos, riam de mim se quiserem, ele não é talvez belo segundo as regras, mas sua velha face bizarra me agrada.

“Estou certa que se ele tocasse piano, ele não tocaria ‘sec’”.

E olhando-o, seguindo com os olhos a doce tendência, a inclinação fervorosa de suas faixas de pedra que se aproximavam elevando-se como mãos juntas que rezam, ela unia-se tão bem à efusão da flecha, que seu olhar parecia lançar-se com ela; e ao mesmo tempo sorria amigavelmente às velhas pedras gastas das quais o poente não clareava senão o cimo, e que, a partir do momento em que entravam nessa zona ensolarada, suavizadas pela luz, pareciam repentinamente elevadas bem mais alto, longínquas, como um canto retomado ‘em voix de tête’ uma oitava acima.










(Autor : Marcel Proust, « À la recherche du temps perdu - Du coté de chez Swann », Librairie Gallimand, 1947, T. I, pp. 40 ; 47 a 51)





GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS ORAÇÕES HEROIS CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS